Paulo Werneck em dose tripla

Flip reconduz o curador para a sua 14ª edição, que, em 2016, acontecerá entre os dias 29 de junho e 3 de julho

Paulo Wernck e Mauro Munhoz na coletiva de encerramento da Flip 2015 | © Marina Quintanilha

Paulo Wernck e Mauro Munhoz na coletiva de encerramento da Flip 2015

Pela terceira vez, Paulo Werneck será o curador da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que em 2016 acontecerá entre os dias 29 de junho e 3 de julho. Werneck propôs, em 2014, homenagem a Millôr Fernandes e, em 2015, a Mário de Andrade. Uma novidade que Werneck incorporou à Flip foi a democratização do acesso. Nas duas edições em que foi curador, a programação da mesa principal passou a ser transmitida gratuitamente em telões e os áudios foram liberados via internet. Além disso, as programações paralelas – FlipMais, Flipinha e FlipZona – passaram a ser gratuitas. “O resultado bem-sucedido dessa perspectiva democratizou o acesso à Flip, ampliou a relação entre a literatura e outras artes e diversificou a programação. A expectativa para 2016 é o desdobramento dessa direção aliado à capacidade de Werneck para a criatividade na expansão e integração de conteúdos e no modo original de juntar as pessoas”, afirma Mauro Munhoz, diretor presidente da Associação Casa Azul. “É na possibilidade de surpreender que reside a força da curadoria de Werneck”, completou.

O curador inicia os trabalhos de 2016 abrindo uma temporada de sugestões, para que leitores, editores e escritores possam enviar ideias para a programação. No site da Flip, a partir da próxima quinta-feira (15), uma página reunirá informações claras sobre o funcionamento, os prazos e o procedimento para encaminhar sugestões para a programação principal. “A Flip é para todos, e nesse movimento de abertura precisamos ter um canal aberto para ouvir as boas ideias que o público e todos os editores tenham a oferecer”, afirma Werneck. A homenagem de 2016 deverá ser anunciada ainda em outubro. As sugestões devem ser enviadas conforme as instruções do site até o dia 15 de fevereiro. Os primeiros convites internacionais já estão sendo enviados.

Com a decisão da Associação Casa Azul, realizadora do evento, Werneck passa a ser o segundo curador a assumir a programação do evento pela terceira vez. O primeiro a atingir a marca foi Flávio Moura, que assinou a curadoria entre 2008 e 2010.

(Fonte: Publish News)

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‘Diário de uma Garota Normal’ trata de sexo de forma aberta

Bel Powley. Ela vive Minnie no cinema

Bel Powley. Ela vive Minnie no cinema

O livro se passa na São Francisco dos anos 1970

Minnie é uma garota de 15 anos sem papas na língua – ou melhor, na escrita. Em seu diário, não figuram imagens de fadas ou idealizações do príncipe encantado, mas revelações sobre a descoberta da sexualidade, observações sobre garotos e novas amizades. Foi esse fio da meada que transformou o livro Diário de Uma Garota Normal, da americana Phoebe Gloeckner, em sucesso planetário, a ponto de logo chegar ao cinema, com Bel Powley no papel principal. O livro chega agora ao Brasil, sob a chancela da Faro Editorial.

Minnie é um personagem fictício. Mas é também a adolescente mais realista que se pode encontrar em qualquer mídia, a todo momento. “Eu tinha uma caixa cheia de diários que escrevia quando adolescente, e mesmo quando criança”, conta Phoebe ao Estado, por e-mail. “Durante anos, os escondi, mas, com o tempo, a necessidade de mantê-los em segredo acabou. Comecei a ler esses documentos depois dos 30. Fiquei espantada pela voz que parecia gritar para mim daquelas páginas. A voz era a minha e, no entanto, não era eu. Senti que tinha de pegar aquela adolescente autora dos diários como se ela fosse uma boneca, e sussurrar ao seu ouvido: ‘Vou deixar que você conte sua história’.”

O livro se passa na São Francisco dos anos 1970, quando Minnie já pretende perder sua virgindade. A sexualidade, aliás, faz parte de sua rotina por causa da mãe liberal – é ela, aliás, quem recomenda que o próprio amante saia com a filha. O encontro termina na cama. Diário de Uma Garota Normal foi comparado, por alguns críticos americanos, ao clássico Lolita, de Nabokov.

“Não li Lolita quando adulta”, conta Phoebe. “Li boa parte do livro quando era muito jovem, talvez aos 10 ou 11 anos. Dizendo isto, admito que meus pensamentos atuais sobre a obra de Nabokov são influenciados totalmente pelas opiniões e pelos gostos de uma garota pré-adolescente. A capa de Lolita despertou o meu interesse. O que eu procurava nesse livro e em outros que eram dos meus pais (como Almoço Nu, de William Burroughs, o título me conquistou) era divertimento e informações sobre o sexo. Lolita tinha inúmeras descrições muito ousadas (e portanto, me interessavam), mas não gostei do livro. Ficava gelada enquanto o lia. Me enojava, me assustava. Não havia nenhuma Lolita em Lolita, ela não era uma pessoa real. De certo modo, esperava me identificar com o personagem do título, mas, ao contrário, me senti apagada. Aquilo me deixou revoltada. Era assustador. Odiei. Mas é claro que minha atitude se baseia numa interpretação infantil do livro.”

Desde que o Diário foi publicado em 2002, tornou-se Bíblia para muitas meninas, que não se viam nas obras direcionadas para adolescentes. Phoebe acredita as jovens não são representadas corretamente na mídia. “Em geral, elas recebem papéis limitados. Podem representar a virgem, apresentada como uma conquista em potencial, ou como uma prostituta, que foi ‘usada’ por outros homens, e é ultrajada ou vista como ‘um brinquedo de graça’”, diz. “Mulheres jovens têm sentimentos sexuais e curiosidade sexual tanto quanto os jovens. Entretanto, suas motivações e esperanças nem sempre se equivalem, e essas diferenças são causadoras do drama dos relacionamentos.”

DIÁRIO DE UMA GAROTA NORMAL

Autora: Phoebe Gloeckner

Tradução:Autoria não divulgada

Editora:Faro Editorial (312 págs.,R$ 39,90)

(Fonte: O Estadão)

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Skin Trade | Conto de lobisomens de George R.R. Martin vai virar série de TV

Roteirista de Prision Break vai adaptar a obra para as telas

Skin Trade, conto de George R.R. Martin, criador de Game of Thrones, vai virar uma série de TV pelo Cinemax. Quem fez o anúncio foi o próprio autor em seu blog pessoal.

Kalinda Vazquez, de Prison Break e Once Upon a Time, vai ser a responsável pelo roteiro. Lançada originalmente na antologia Dark Visions, de 1989 – que também trazia contos de Stephen King e de Dan Simmons -, Skin Trade é a história de uma investigadora particular envolvida com assassinatos onde as vítimas são deixadas sem a pele. A investigação a conduz a descobrir que lobisomens existem – e que matam até sua própria espécie para proteger o segredo.

O conto ganhou o World Fantasy Award de 1989 na categoria “melhor novela” e também virou uma HQ com roteiro adaptado por Daniel Abraham e desenhos de Mike Wolfer.

(Fonte: Omelete)

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Espetáculo traz clássicos da literatura infantojuvenil para os dias de hoje

Crianças são levadas ao universo da literatura por meio de uma mensagem de celular

Crianças são levadas ao universo da literatura por meio de uma mensagem de celular

Peça faz parte da programação especial da Caixa Cultural para o Dia das Crianças

Em um cenário lúdico, os atores usam animação, jogos com sombra e bonecos infláveis para contar a história de três crianças que começam uma caça ao tesouro escondido atrás do muro. Assim é O buraco do muro, espetáculo que marca a comemoração do Dia das Crianças no Teatro da Caixa.

No elenco, Lucas Luciano, Eder dos Anjos e Camila Ivo são as três crianças curiosas que não gostam de ler, mas, quando recebem misteriosas mensagens de texto no celular, mergulham fundo nessa aventura. A peça traz cenário de clássicos da literatura infantojuvenil como o mar de Moby Dick e o jardim da Rainha de Copas de Alice no País das Maravilhas.

A garotada também poderá visitar a instalação Folclore Digital, da dupla VJ Suave. Em um ambiente descontraído, com um tapete que imita grama, crianças e adultos podem fazer um mergulho nas lendas do folclore brasileiro por meio de técnicas de multimídia.

Unindo grafite digital, poesia, luzes e música, os artistas Ygor Marotta e Ceci Soloaga exploram imagens e sons da natureza e dão vida a antigas histórias populares na projeção visual que ocupa as três dimensões da galeria. Na segunda-feira, o teatro da Caixa terá em cartaz a peça Iara — O encanto das águas. Contada quase sem palavras e usando a música como elemento principal, a peça traz a lenda de Iara de uma maneira emocionante e surpreendente.

O buraco do muro
Caixa Cultural (SBS, Q. 4, lt. 3/4; 3206-9448). Hoje, às 19h. Amanhã e domingo, às 15h. Entrada: R$ 10 e R$ 5 (meia). Classificação indicativa livre.

Iara — o encanto das águas
Caixa Cultural (SBS, Q. 4, Lt. 3/4; 3206-9448). Em 12 de outubro, às 18h; e 13 de outubro, às 20h. Entrada: R$ 4 e R$ 2 (meia). Não recomendado para menores de 12 anos.

(Fonte: CorreioWeb)

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Javier Marías explora memórias da ditadura em novo romance

Em ‘Assim começa o mal’, autor escreve sobre segredos do passado recente da Espanha

O escritor Javier Marías 

O espanhol Javier Marías já disse que busca reproduzir em seus livros o tempo da memória, pois acredita que “a verdadeira duração das coisas é a de sua permanência, não a que têm no momento em que acontecem”. Em romances como “Coração tão branco” (1992) e a trilogia “Seu rosto amanhã” (2002-2007), ele evoca o passado em frases longas e descrições elaboradas, que iluminam vividamente os personagens, mas deixam sempre zonas de sombra, com mistérios nunca totalmente esclarecidos.Em “Assim começa o mal”, o autor examina por essa lente o passado da Espanha. A trama é ambientada nos anos 1980, durante a redemocratização do país, recém-saído de quatro décadas de ditadura do general Franco, morto em 1975. O romance é narrado pelo jovem Juan de Vere, secretário do cineasta Eduardo Muriel, que dá ao empregado uma tarefa inusitada: espionar um amigo de quem passa a desconfiar depois de ouvir intrigas sobre seu comportamento no regime Franco. Fascinado pela mulher de Muriel, De Vere descobre aos poucos também os segredos do casamento infeliz do patrão.

Nesta entrevista, Marías fala sobre como a ficção pode lidar com o passado e a História, explica a “melodia” de suas famosas frases sinuosas e brinca com a dificuldade de escrever cenas eróticas, como se arriscou a fazer em “Assim começa o mal”.

Nos últimos anos foram publicados na Espanha vários romances sobre a Guerra Civil, os anos de Franco e a redemocratização. A ficção pode narrar o passado de maneiras que a História não é capaz?

Sim, a ficção narra o passado de modo distinto que a História. E na imaginação coletiva perdura muito mais o que foi “visitado” pela ficção do que o que não foi. Sempre gostei de uma frase de Karen Blixen ou Isak Dinesen, algo assim como: é preciso imaginar o vivido, além de viver, e é preciso saber contá-lo como se fosse uma história; só assim chegamos a entendê-lo de verdade. Se, além de viver, imaginamos e contamos. Só quando se passa algum tempo é que podemos ter perspectiva para ver as coisas “terminadas”. Sobre a Guerra Civil já se escreve há muitos anos, mas sobre a transição e o período democrático não tanto, porque ainda não temos perspectiva. Meu romance tem implicações políticas, mas é um romance da vida privada, com a ideia subjacente de que, depois de uma longa farsa, o pior que se pode fazer talvez é revelá-la. A farsa que uma pessoa viveu não se pode apagar. Às vezes é melhor manter a farsa, quando já é irreparável.

“Assim começa o mal” fala de impunidade e perdão durante a redemocratização na Espanha. Que papel teve a anistia no país?

Embora tenha exigido renúncias e nela houvesse um inevitável elemento de injustiça, acho que a anistia geral, após a morte de Franco, foi positiva para o país. Exigir punições para quem havia cometido crimes durante quase 40 anos era impossível. Grande parte da sociedade, e o Exército de então (ainda eminentemente franquista), teriam se oposto. A anistia permitiu que tivéssemos um país “normal”: com partidos políticos, eleições, liberdade de imprensa etc. O contrário teria dado lugar a um prolongamento da ditadura ou a conflitos sangrentos. Não vejo razões para anulá-la, porque a maioria dos franquistas com responsabilidades graves já morreu. Mas deveríamos saber o que aconteceu. Uma coisa é decidirem não levar ninguém a julgamento (o que tampouco era possível), outra é não sabermos o que cada um fez.

Embora não seja um romance de mistério, “Assim começa o mal” retoma suas reflexões sobre o segredo, presente em muitos romances seus. Por que se interessa pelo segredo?

Porque está em minha vida e na de todo mundo. Não é necessário que os segredos sejam grande coisa. Mas “criamos” segredos por qualquer motivo, e logo precisamos nos ater a eles. Um exemplo simples: na época da Copa do Mundo de 2014, voltei para casa muito tarde certa noite, porque fiquei na casa de um amigo vendo três (!) jogos seguidos, inclusive alguns de pouco interesse, do nível de Equador x Nigéria. Senti vergonha de confessar para minha mulher que tinha sido tão pueril. Decidi mentir e expliquei a ela que meu amigo tinha ficado doente e tive que acompanhá-lo na emergência. De uma coisa inócua fiz um segredo: no dia seguinte tive que alertar meu amigo sobre minha mentira, para que não estragasse tudo quando minha mulher perguntasse a ele como estava. E, mais importante, tive que guardar na memória essa mentira, algo que não aconteceu, como se tivesse acontecido. Nunca sabemos o que vai se transformar em segredo. Ocultamos e nos ocultam coisas, todo mundo, o tempo todo, e assim nunca podemos estar seguros de nada. Esse também é um dos meus temas: a impossibilidade de saber algo com toda certeza.

O tema do segredo se liga ao do desejo sexual, mais presente neste livro do que em outros seus. Qual é o desafio de escrever sobre isso?

As cenas eróticas ou sexuais são muito difíceis e, em minha opinião, quase todos os escritores fracassam nisso. Uns são muito tolos e metafóricos, acabam sendo ridículos e chatos; outros são grosseiros, acabam sendo também chatos; outros são obstétricos (quando querem ser clínicos) e também chateiam. Cada vez que me descrevem uma cena desse tipo, fico impaciente e quero passar a outra coisa: o sexo é ótimo de praticar, mas contá-lo sem chatear é quase impossível. Então, minhas cenas eróticas, que às vezes me são necessárias, tentam se afastar disso tudo. São raras, suponho, na verdade não sei até que ponto são sexuais, porque se “vê” pouco, relata-se pouco. Talvez as mais eficazes sejam as que contam antes, ou aquelas em que só se deduz. Se consigo escapar do ridículo habitual, não sou eu que devo dizer. Mas não creio que minhas cenas seriam candidatas a esse prêmio anual para a “pior cena sexual”, que já foi ganho por gente como Norman Mailer ou Philip Roth. O que não me espanta: suas cenas sexuais costumam ser horríveis.

Neste, como em todos os seus romances, nota-se o gosto pela frase longa, talvez a marca mais reconhecível do seu estilo. Quais são os elementos essenciais de uma boa frase para você?

As frases podem ser boas de qualquer maneira: breves, medianas, longas, líricas, descritivas, abruptas, concisas, um pouco enfeitadas… Tendo à frase longa e complexa, porque geralmente o que tenho a expressar é complexo, sobretudo nas digressões e reflexões que abundam em meus romances. Mas de vez em quando uso também frases curtas. O importante para mim é o ritmo da prosa, a “melodia”. Sou capaz de refazer uma página porque me parece que em dado momento preciso de mais três sílabas, ou uma palavra esdrúxula, ou um terceiro adjetivo. Às vezes tenho a sensação de escrever prosa com a paciência e o senso de ritmo com que o poeta escreve seus versos. Já disseram que meu estilo é um pouco “hipnótico”. Se for verdade, sem dúvida se deve a essa “musicalidade”, a essas “ondas” que talvez embalem o leitor e o impulsionem a seguir adiante.

(Fonte: O Globo)

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Livro ‘Navios Iluminados’, romance de 1937, é reeditado

Autor sergipano Ranulfo Prata foi elogiado por Lima Barreto

Último livro do escritor e médico sergipano Ranulfo Prata (1896-1942), Navios Iluminados foi lançado em 1937 pela Livraria José Olympio Editora e recebido com entusiasmo por críticos como Nelson Werneck Sodré e Alceu Amoroso Lima. O autor morreu sem publicar outro livro depois desse, aos 47 anos, mas vem sendo redescoberto por novos leitores e acadêmicos. A coleção Reserva Literária, da editora Com-Arte, em parceria com a Edusp, acaba de lançar a quinta edição brasileira desse que é um vigoroso exemplo do romance social dos anos 1930, já comparado ao melhor da produção de Graciliano Ramos.

Não há exagero nessa aproximação entre os dois escritores, o sergipano e alagoano. Ambos são econômicos em adjetivos, honestos e comprometidos com os menos favorecidos.

Há também quem veja no fatalismo de Navios Iluminados ecos de Euclides da Cunha, como a professora Marisa Midori Deaecto, autora da apresentação do livro. De fato, o migrante José Severino, que sai da cidade baiana de Patrocínio do Coité (atual Paripiranga) para tentar a sorte no porto de Santos, é um personagem que bem poderia ter saído de um livro do imortal da Academia Brasileira de Letras que escreveu Os Sertões. Há, porém, uma diferença de abordagem: Prata passou ao largo da filosofia positivista. Foi um trágico, na melhor tradição existencialista russa estabelecida por Dostoievski.

Imigrantes estivadores no cais do porto do Valongo, em Santos, com sacos de café nos ombros; os estrangeiros concorriam com os migrantes nordestinos em busca de trabalho nos anos 1930, época em que se passa 'Navios Iluminados'

Imigrantes estivadores no cais do porto do Valongo, em Santos, com sacos de café nos ombros; os estrangeiros concorriam com os migrantes nordestinos em busca de trabalho nos anos 1930, época em que se passa ‘Navios Iluminados’

De sertanejo nem um pouco forte a tísico proletário urbano, a vida de Severino é uma sucessão de tragédias. Desenraizado, com a mãe doente em Paripiranga, ele deixa o município baiano no Polígono das Secas apenas para sofrer um pouco mais numa cidade praiana, a exemplo dos pobres imigrantes europeus – portugueses, espanhóis – que disputam com ele uma vaga no cais do porto.

O neorrealismo de Prata não se distancia muito dos outros romancistas da época, que adotaram a tipificação social para denunciar as injustiças de um sistema perverso, mantido pela força numa época em que pipocavam greves, a classe trabalhadora se organizava em sindicatos e o PCB ganhava força, isso até o golpe de 1937, justamente o ano do lançamento de Navios Iluminados. Com toda a munição ideológica que outros autores certamente usariam, Prata prefere eleger o drama do protagonista como objeto de sua investigação sobre o comportamento dos portuários numa era turbulenta, em que empresários defendiam a ação enérgica do Estado.

Prata ambienta sua história no bairro do Macuco, à beira do cais, descrevendo as ruas e os hábitos locais com precisão cirúrgica, dos botecos em que desocupados jogavam bilhar e dominó aos cabarés da zona de prostituição. Severino, que tanto luta para virar estivador, não tarda a perceber que a troca da miserável propriedade rural na Bahia por um quarto de pensão no Macuco não lhe trouxe nenhum benefício. Ao contrário: seu infortúnio cresce. O narrador não tenta amenizar o drama com lirismo. A exemplo de Graciliano, é seco, direto, decidido a construir um épico sobre um personagem obscuro, esmagado pela história.

O escritor sergipano Ranulfo Prata (1896-1942), autor do romance 'Navios Iluminados', que a Edusp acaba de lançar; o livro, originalmente publicado em 1937, está na quinta edição

O escritor sergipano Ranulfo Prata (1896-1942), autor do romance ‘Navios Iluminados’, que a Edusp acaba de lançar; o livro, originalmente publicado em 1937, está na quinta edição

Ao escolher a lavadeira Florinda como companheira de Severino, o narrador acena com um gesto de solidariedade entre miseráveis, capaz de mudar a vida do protagonista, reconduzindo-o ao caminho original após superar todos os obstáculos. Contudo, prevalece o desamparo. Prata não recua. Lima Barreto foi um dos primeiros a reconhecer suas qualidades de romancista já no livro de estreia, O Triunfo (1918). Outros, por sorte, o seguiram.

Navios Iluminados.

Autor: Ranulfo Prata.

Editora: Edusp (312 págs.; R$ 70)

(Fonte: O Estadão)

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Marcelo Milici | Enxergando Edgar Allan Poe através de Dois Olhos Satânicos

“Não fui o que os outros foram. Não vi o que os outros viram. Mas, por isso, o que eu amei, amei sozinho”

Quem não gosta de Edgar Allan Poe bom sujeito não é. Pode assistir a inúmeros filmes do gênero fantástico, principalmente horror, e até ser um fã fervoroso de Stephen King, tendo na estante obras representativas do escritor, mas, se não se esbarrou na literatura do maior expoente do mistério e do macabro, é porque está delirando em Baltimore.

Como grande representante do Romantismo gótico americano, Poe era hábil em traduzir pesadelos, instigar o leitor a uma viagem aos meandros obscuros da inconsciência e da alma e transcrever os medos do homem. Um artesão das palavras, um sonhador, por vezes melancólico, evidenciava a amargura de sua vida inconsistente em personagens introspectivos e insanos, aterrorizados pelo fardo testemunhado ou até mesmo sentido.

Nascido em 19 de janeiro de 1809, em Boston, EUA, teve uma curta vida de erros: perdeu os pais ainda bebê, e teve uma formação rígida, tendo como principal amiga a miséria – a mesma que o fez abandonar a Universidade de Virgínia ainda no primeiro semestre. Alistou-se no exército com um nome falso – uma das especialidades do escritor era mentir idade e escolher pseudônimos -, e já começou a desenvolver sua literatura com a publicação “Tamerlane and Other Poems”, de 1827. Trabalhou com periódicos e conheceu várias cidades, onde experimentou culturas e muitas formas de rejeição, até se unir no matrimônio às escondidas com sua prima Virgínia, de apenas 13 anos de idade.

Rica fonte de inspiração para escritores vindouros como Arthur Conan Doyle, criador de Sherlock Holmes e que identificou no autor americano a base para os enredos de mistério, ele teve vários de seus textos curtos e poesias adaptadas para o cinema, com variações criativas, desde 1910, na fase do silêncio cinematográfico, com O Escaravelho de Ouro (na França) e O Poço e o Pêndulo (na Itália), atravessando décadas na pele de grandes ícones do gênero.

George A.Romero, o “Pai dos Zumbis” devido à idealização da franquia iniciada em 1968, quando os mortos finalmente aprenderam a se alimentar dos vivos, estava em uma fase inspirada até a década de 90, sendo convidado a participar de um filme baseado exclusivamente em obras de Edgar Allan Poe. O conceito inicial envolvia uma produção única, organizada em pequenos segmentos, com toques particulares de John Carpenter, Wes Craven, Dario Argento e Romero. Com a desistência dos dois primeiros, Argento e Romero iniciaram a pré-produção do que viria a ser Dois Olhos Satânicos (Two Evil Eyes, 1990).

Aquele escritor pobre, vítima de álcool, encontrado desorientado em 3 de outubro de 1849, mas competente o suficiente para desenvolver o medo literário, partiria quatro dias depois, envolto em mistério, acompanhado de um gato preto e um corvo, saindo da vida para nunca mais ser esquecido.

“A Verdade no Caso do Sr. Valdemar” (“The Facts in the Case of M. Valdemar”, dezembro de 1845)

Um conto curto, com poucos personagens, mas carregado de melancolia e horror em estado puro. O narrador é um estudioso do magnestismo de Franz Anton Mesmer, um médico que utilizava sua técnica no século XVIII para curar pacientes – e trouxe os fundamentos do que viria a ser o hipnotismo. Ele recebe uma carta de seu amigo moribundo Ernest Valdemar, em estado terminal de phthisis (tuberculose), com uma previsão de falecimento em 24 horas. O narrador apresenta seu experimento, até então nunca realizado com alguém próximo da morte, e volta na noite seguinte para realizá-lo rapidamente, pois Valdemar teme que não tenha muito tempo.

O paciente é mesmerizado. Embora seu corpo não apresente batimentos cardíacos ou qualquer sinal vital, Valdemar continua se comunicando com uma voz preta proveniente de sua garganta fria e do tremular da língua. Com o passar do tempo, o sofrimento se cessa com os pedidos do morto-vivo para que seja despertado e possa morrer – fato que o conduz a “uma massa podre de substância pútrida”, provando que a técnica pode perdurar e ser indolente, mas não permite nada mais que a comunicação. “A Verdade no Caso do Sr. Valdemar” é um conto gore, descritivo, com muita influência do mesmerismo adotado pelo espiritualista Andrew Jackson Davis, uma das leituras de Poe, e, sobretudo, pela morte de Virgínia, esposa do escritor, vítima de tuberculose.

Pela narrativa curta, em ambiente único, seria impossível traduzir para um média-metragem de uma hora de duração sem acrescentar cenas desnecessárias ou alongar em diálogos. Para isso, Romero incluiu em seu roteiro a esposa de Valdemar, Jessica (Adrienne Barbeau, que já havia trabalhado com Romero como a esposa chata do segmento “Encaixotado” de Creepshow – Show de Horrores, 1982), com a intenção de aplicar um golpe com seu amante, o médico Dr. Robert Hoffman (Ramy Zada, da antologia Depois da Meia-Noite, 1989), que tem especialidade em hipnotismo. Usando a técnica, eles aliviam a dor de Ernest Valdemar (Bingo O’Malley, de Super 8, 2011) e, ao mesmo tempo, passam a perna no advogado Steven Pike (E.G. Marshall, de 12 Homens e uma Sentença, 1957). Devido a questões burocráticas, Jessica deve ser capaz de manter seu marido vivo por três semanas, para que o testamento tenha validade e ela possa herdar sua fortuna, estimada em mais de três milhões.

Numa das hipnoses, Valdemar morre, antes do prazo determinado. Jessica e Robert levam seu corpo ao porão para escondê-lo num freezer até o restante do período combinado, mas o cadáver continua se comunicando com eles, como se a consciência permanecesse viva depois da morte. No Além, ele diz que está num lugar escuro e frio, enxergando luzes distantes e que há “outros” com ele, querendo utilizá-lo como uma passagem para o mundo dos vivos.

Apesar da extensa liberdade criativa, a história se mantém como um interessante exemplar de vingança sobrenatural, com toques de mistério e pessimismo. Romero parece à vontade ao trazer mortos à vida com bons efeitos de Tom Savini, porém a sequência em que Valdemar conta o erro do médico ao despertá-lo acaba por soar ainda mais inverossímil que o conteúdo, além de parecer um diálogo bobo, estereotipado. Destaque para a participação de Tom Atkins, mais uma vez como detetive.

“O Gato Preto” (“The Black Cat”, agosto de 1843)

Ao lado do Poema “O Corvo”, “O Gato Preto” é um dos textos mais conhecidos de Edgar Allan Poe, além de ter inúmeras adaptações e versões cinematográficas. No texto, o narrador deixa evidente seu carinho pelos animais, tendo vários exemplares em casa, incluindo um gato preto chamado Pluto. Por anos a relação entre os dois, e a convivência com a esposa, foi muito boa, mas tudo se finda quando ele se envolve com bebidas alcoólicas. Certa noite, tomado pela bebedeira e acreditando que o gato o está evitando, ele fere um dos olhos do animal com uma faca, encerrando a amizade entre eles e iniciando sua obsessão doentia.

A simples presença do gato passa a despertar no narrador seu lado mais perverso, ao ponto que, num momento de insanidade, ele o enforca numa árvore. Após um breve incêndio em sua casa, o animal aparece gigante e enforcado numa marca de impressão causada pelo fogo. Obcecado pelo felino, o narrador resolve recolher numa taverna um animal idêntico, com um olho varado e de mesmo tamanho – a única exceção é uma mancha branca no peito, algo depois identificado como a marca da forca. Depois de tropeçar no animal na adega da nova casa, o narrador, num impulso, tenta matá-lo com um machado mas é impedido pela esposa, que acaba vítima do marido.

Ele a empareda no local para esconder seu corpo. O plano parece dar certo, até o dia em que a polícia vai à adega e escuta um som estranho proveniente da parede. Ao arrebentá-la, os policiais encontram o gato e a esposa emparedados para surpresa do narrador. “Eu havia emparedado o monstro dentro do túmulo” são as palavras que encerram um dos momentos mais perturbadores da literatura clássica.

A primeira adaptação cinematográfica foi feita em 1934 com Boris Karloff e Bela Lugosi. Este último voltaria a encarar o felino com Basil Rathbone em 1941 sob a direção de Albert S. Rogell. Depois seria a vez dos astros Vincent Price e Peter Lorre, em 1962, na antologia Muralhas do Pavor, de Roger Corman, enfrentarem o bichano demoníaco. No entanto, o conto só teria uma versão italiana em 1972 quando Sergio Martino comandaria o gato Satã em Il tuo vizio è una stanza chiusa e solo io ne ho la chiave, lançado por aqui como No Quarto Escuro de Satã, numa pincelada à obra original.

Em seu segmento, Argento homenageia diversos textos de Edgar Allan Poe, permitindo que o espectador se interesse em conhecer mais sobre a sua obra genial. O experiente Harvey Keitel interpreta Roderick Usher (referência ao conto “A Queda da Casa de Usher”), um fotógrafo criminal experiente, que tem a intenção de publicar um livro de imagens. Na cena de abertura, ao cobrir o assassinato de uma mulher, fatiada por um pêndulo (referência ao conto “O Poço e o Pêndulo”), o protagonista já demonstra uma certa frieza ao lidar com corpos decompostos. Ele vive com a mulher Annabel (referência ao poema “Annabel Lee”), que acaba de adotar um gato como companheiro de suas aulas de violino. Sem nome, o bichano não nutre simpatia por Usher, arranhando-o logo no primeiro contato – algo que o incomoda por notar um carinho especial da esposa pela criatura. Annabel chega a trair Usher com um dos alunos, já tendenciando o protagonista ao desfecho trágico.

Usher aproveita um momento sem a esposa e faz uma sessão de fotos torturadora com o gato, usando o trabalho para seu livro. Para desespero de Annabel, o animal desaparece da residência, e a publicação do marido a faz acreditar que ele o assassinou. Em outro dia como fotógrafo, Usher registra o cadáver de uma mulher, encontrado no cemitério sem os dentes (referência ao conto “Berenice”), e a prisão de um suspeito – Tom Savini fantasiado de Edgar Allan Poe. Assim como no conto, Usher encontra um gato parecido num bar, sob o comando da misteriosa Eleonora (referência ao conto de mesmo nome) – uma citação forçada, aliás, já que a atriz Sally Kirkland (Todo Poderoso, 2003) se anuncia de modo extremamente artificial.

Levar o animal para casa coincide com as intenções de fuga de Annabel, o que ocasionará um conflito sangrento ao estilo Dario Argento de fazer cinema em sua fase áurea. O cineasta italiano altera elementos essenciais do conto e acrescenta momentos intensos na sequência final, com mais cadáveres e uma sintonia com um momento chave do texto de Poe. Apesar da violência gráfica, o que mais chama a atenção é a atuação crua de Harvey Keitel, já antecipando seu estilo falastrão de Cães de Aluguel.

Com boa direção e elementos depressivos, “O Gato Preto” fecha com grande estilo a antologia, deixando o espectador ansioso por uma continuação, com outras referências como a do vizinho denominado Sr.Pym, dialogando com o texto “O Relato de Arthur Gordon Pym”. Infelizmente, tanto Argento quanto Romero não fariam mais homenagens ao escritor, algo que coincide com uma queda de produção de ambos no início do novo milênio.

Lançado em VHS no Brasil como Dois Olhos Satânicos, pela Look Video, o filme saiu em DVD simples pela Paragon Multimedia, que é a própria famigerada Continental, com breves biografias, galeria de pôsteres e trailer. A qualidade da imagem está um pouco escura, mas nada que impeça de acompanhar o seu conteúdo, principalmente para os novos fãs do gênero, que não puderam testemunhá-lo na época do VHS.

Dois Olhos Satânicos traz Poe em sua essência, refletido na boa criação de Romero e Argento. Mortos e assombrações, vozes do além e sangue em profusão se unem para homenagear um dos escritores mais inspiradores da literatura universal. Uma antologia que faria Poe se sentir orgulhoso “destas saudades imortais“.

(Fonte: Omelete)

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Memórias do Mauricio: primeiras imagens do especial sobre a vida de Mauricio de Sousa

MemoriasDoMauricio_Capa

Como já se tornou tradição, Sidney Gusman, editor da Mauricio de Sousa Produções, usou as redes sociais para divulgar os previews de mais um projeto.

Memórias do Mauricio (formato 19,5 x 27,5 cm, 208 páginas, preço não divulgado) é um álbum que comemora os 80 anos de Mauricio de Sousa, ao contar 25 passagens marcantes na vida do criador da Turma da Mônica, da infância aos dias atuais, na forma de histórias em quadrinhos produzidas por grandes autores nacionais.

Com capa de Gustavo Duarte, a edição trará histórias de Danilo Beyruth e Cris Peter, Vitor Cafaggi, Francisco Souto Leite (Shiko), Eduardo Damasceno e Luís Felipe Garrocho, Lu Cafaggi, Vencys Lao, Artur Fujita e Davi Calil, Herbert Berbert, Alex Shibao, Eduardo Ferigato, Eduardo Schaal, Thobias Daneluz, Fábio Coala, Adriana Melo, Magno Costa e Marcelo Costa, Laudo Ferreira Jr. e Omar Viñole, Spacca, Gustavo Borges, Flavio Luiz, Julio Brilha, Samanta Flôor, Sandro Hojo, Eduardo Medeiros, Guilherme Petreca e Erica Awano.

O livro é um lançamento da Panini Comics, e chegará às livrarias e lojas especializadas no final deste mês.

(Fonte: Universo HQ)

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Somos reafirma que Vaga-Lume continua

Mário Ghio, vice-presidente de conteúdo e inovação da Somos, reafirma que coleção Vaga-Lume continua

Mário Ghio, vice-presidente de conteúdo e inovação da Somos, reafirma que coleção Vaga-Lume continua

Em 2015 foram investidos R$ 1,8 milhão no segmento de literatura e paradidáticos, mas empresa desiste de livros de literatura ‘mais comerciais’

Reforçando as informações veiculadas pelo PublishNews na última terça-feira (06), a Somos Educação informa que as demissões no seu departamento editorial não afetarão a continuidade da sua atuação no ramo de paradidáticos e literatura. Mário Ghio, vice-presidente de conteúdo e inovação da empresa, disse ao PublishNews que o corte foi de três profissionais e reforçou que as demissões fazem parte de uma reestruturação da empresa. Na prática, a Somos – e suas editoras Ática e Scipione – estão saindo do segmento de livros de literatura trade. “Está no nosso DNA ter 100% do relacionamento com escolas. Livros comerciais, que aqui chamamos de trade, estão fora do nosso DNA. É um jogo que não sabemos jogar e não queremos jogar”, explicou Ghio.

Com o tempo, livros como os da série Charlie & Lola (Ática), por exemplo, devem desaparecer o catálogo das editoras da Somos. “Não vamos eliminar o catálogo de trade. Vamos manter o que temos, mas não vamos investir mais nesse segmento”, disse ao PublishNews. Ghio informou que, em 2014, foram investidos R$ 1,8 milhão em títulos paradidáticos e disse que, para 2016, os investimentos continuam. A coleção Vaga-Lume, por exemplo, deve ganhar mais 10 ou 15 títulos em 2016.

Ghio, para comprovar que a atuação da Somos continua nesse segmento, confirmou que a empresa está contratando um gerente comercial para atuar justamente na área de literatura e paradidáticos. A vaga foi anunciada no início dessa semana no site Vagas.com.br.

(Fonte: Publish News)

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A vida de Lourenço Mutarelli depois do antidepressivo

O escritor Lourenço Mutarelli em seu apartamento na Vila MAriana, São Paulo.  14.03.08  Foto :© BEL PEDROSA/ COMPANHIA DAS LETRAS

‘A literatura tem uma pompa em volta de pessoas que não sobrevivem às custas do próprio trabalho, que ganham uma merreca por aquilo que produzem. Mas o meio literário é muito divertido’ – Lourenço Mutarelli – Escritor

Escritor mistura múltiplas personalidades no romance ‘O grifo de Abdera’

O escritor Lourenço Mutarelli mistura múltiplas personalidades no romance “O grifo de Abdera”, que chega agora às livrarias. E revela que a obra é fruto de sua decisão de parar de tomar remédios após 28 anos de uso.Em “O grifo de Abdera” o personagem Mauro Tule Cornelli é, ao mesmo tempo, Oliver Mulato e assina livros como Lourenço Mutarelli. Essa questão de múltiplas personalidades explorada no livro é um assunto presente para você?

Sempre tive um fascínio muito grande pelo duplo. E isso aparece no livro porque eu parei com os antidepressivos depois de 28 anos de uso. Isso me tornou uma pessoa muito melhor, muito mais suave. É lógico que troquei por um fitoterápico: o uísque. Deixar de tomar remédios mudou radicalmente a minha pessoa. É claro que há momentos em que eles são fundamentais para sair do fundo do poço. Mas, com o tempo — e a psiquiatria recomenda o uso contínuo por toda a vida —, você não percebe o quanto vai se fechando, vai se isolando e anestesiando a própria sensibilidade.

Interromper o uso dos antidepressivos foi uma decisão do seu psiquiatra?

Na verdade, fui aconselhado a não fazer isso. O psiquiatra disse que eu não conseguiria parar porque tinha dependência química de Lorax, um remédio tarja preta. Eu já havia tentado parar. Você passa uns meses bem e depois as crises voltam. Mas eu voltei a beber depois de 15 anos. A mistura desses dois elementos é muito prejudicial. Tive que escolher. Levei um ano para parar, porque fui reduzindo a quantidade. Posso dizer que foi uma das maiores conquistas da minha vida.

Por conta das semelhanças com a realidade, “O grifo de Abdera” tem sido classificado como autoficção. Você concorda que o livro está mais para autorrealismo fantástico?

Autoficção não é o rótulo de que eu mais gosto. Acho que autorrealismo fantástico tem mais a ver. Minha literatura tem muito de alterar a realidade de maneira fantástica. Tudo é tão misturado para mim que eu tenho lembrança de coisas que estão no livro, mas não aconteceram.

Seus livros têm sido adaptados para o cinema com frequência Já há planos para “O grifo de Abdera” virar filme?

O Fernando Sanches, que já havia roteirizado um livro meu, disse que queria filmar algo meu. E pediu para eu pensar no Otávio Müller. Por isso, Oliver Mulato é um anagrama de Otávio Müller. Assim como Mauro Tule Cornelli é de Lourenço Mutarelli.

O livro sacaneia o mercado literário, tanto os autores quanto as editoras. É um meio que se leva muito a sério?

A literatura tem uma pompa em volta de pessoas que não sobrevivem às custas do próprio trabalho, que ganham uma merreca por aquilo que produzem. O romance tem essa crítica. Mas o meio literário é muito divertido. Quando você junta escritores, todo mundo bebe e ninguém fala de trabalho. Muito diferente dos quadrinhos, em que os autores falam disso da hora que acordam até irem dormir.

Em uma entrevista recente, você expressou enfado com os quadrinhos. No entanto, as HQs de Oliver estão reproduzidas dentro de “O grifo de Abdera”…

O livro surgiu a partir desses desenhos. Continuo desenhando quadrinhos experimentais. Aquela entrevista tem uma coisa delicada. Desabafei, em tom informal, com o repórter. Quando o desabafo vira palavra escrita, ganha uma dimensão ruim. Mas eu não quero mesmo mais fazer parte do meio dos quadrinhos.

A decepção é com o meio, não com o formato?

Sim. E tem outra coisa: meu público é partido. Quem lê quadrinho não lê literatura. E vice-versa. Colocar os quadrinhos no romance é uma maneira de fazer os leitores engolirem isso. Eu digo que odeio quadrinho, mas sigo fazendo essas brincadeiras.

Você tem se saído bem como ator, como em “Que horas ela volta?”. Como está sendo essa experiência?

Gostei muito de trabalhar com a Anna Muylaert (diretora de “Que horas…”) porque ela fala: “não quero uma palavra do roteiro na sua boca”. Eu recrio os textos e ela vibra. Esse foi um papel em que eu recuperei o prazer da brincadeira. Também fiz “Escaravelho do diabo”, do Carlos Milani, porque não podia recusar um convite para ser um serial killer. Estreia em janeiro.

(Fonte: O Globo)

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