Obra policial de Raymond Chandler ganha nova tradução

Raymond Chandler

Raymond Chandler

Em suas obras, escritor reflete o lado sórdido da recessão americana

O escritor americano Raymond Chandler (1888-1959) recebeu uma refinada educação, em que conviveu com os clássicos da literatura, mas foi com histórias do submundo que ganhou notoriedade. Ao lado do conterrâneo Dashiell Hammett (1894-1961), ele esculpiu as regras do moderno romance policial, em que o texto elaborado de Edgar Allan Poe e as situações mirabolantes de Agatha Christie cederam espaço para tramas secas, ágeis, diretas, irônicas, com becos escuros repletos de louras e policiais envolvidos em histórias quase sempre verossímeis. Estabeleceram um novo caminho para o gênero, portanto.

Tanto Chandler como Hammett chegaram com força ao mercado brasileiro nos anos 1980, por meio de badaladas edições da Brasiliense. Nas décadas seguintes, continuaram à disposição principalmente graças às simpáticas versões de bolso da L&PM, que ainda mantém um catálogo ativo. Agora, a partir da próxima semana, é a vez da Alfaguara iniciar um novo trabalho de resgate da obra de Chandler: no dia 1º, as livrarias devem receber O Longo Adeus (1953) e A Dama do Lago (1943), com nova tradução, a cargo de um especialista, Braulio Tavares, também organizador.

No ano que vem, em julho, será a vez de O Sono Eterno (1939) e Adeus, Minha Querida (1940). Em abril de 2016, os lançamentos previstos são de A Irmãzinha (1949) e A Janela Alta (1942), ambos títulos provisórios. Finalmente, em março de 2017, Contos Selecionados. Todos trazem cartas e ensaios como material extra.

Os textos são facilmente identificáveis por uma série de detalhes – com o fascinante detetive Philip Marlowe à frente, trazem uma galeria familiar que, no entender de Tavares, inclui mulheres sedutoras, homens durões e atormentados, alguns policiais desonestos e arrogantes e outros que tentam fazer o melhor que podem num meio moralmente corrompido.

Chandler, assim como os escritores dos anos 1930, enfrentou a recessão econômica e, com sua literatura, ofereceu um resposta às condições históricas, sociais e culturais da América durante e após a 2.ª Grande Guerra, ou seja, no momento em que os EUA se reconstruíam em meio a desempregados. Daí os ambientes sórdidos onde se passa a maioria das histórias. E os crimes, quando acontecem, são tão factíveis como os relatados pelos jornais.

O clima desses romances também inspirou o cinema noir e definiu sua estética – fotografia em preto e branco, contrastada, ruas molhadas, cabarés enfumaçados, diálogos agudos, muitas vezes cínicos, ditos por homens durões e mulheres fatais. Entre um diálogo e outro, todos bebem e fumam muito.

O Longo Adeus é uma das principais obras de Chandler – nas palavras de Ricardo Piglia, “talvez o melhor romance policial que já se escreveu”. Trata-se da história da amizade entre Philip Marlowe e Terry Lennox, que ele considera “um sujeito de quem é impossível não gostar”. Casado com uma milionária, Lennox poderia ter a vida ganha, mas a morte brutal da mulher enreda Marlowe a uma elite poderosa e desajustada.

Sem se afastar do gênero policial, a obra vasculha assuntos mais profundos, como a consequência do desespero, da maldade e do capricho da mente perversa dos criminosos. “A técnica narrativa de Chandler consiste em uma descrição quase fotográfica do que está acontecendo entre os personagens, do contraste entre essa ação e o diálogo (cada um revelando ou sugerindo algo sobre o outro), e os comentários de Marlowe, raramente explicativos”, observa Tavares que, no trabalho de tradução, preocupou-se com a sonoridade das frases, buscando manter sua musicalidade.

A Dama do Lago sintetiza esse estilo – durante 48 horas de ação quase ininterrupta, a trama acompanha Marlowe na investigação do desaparecimento da mulher de um executivo do ramo de perfumes. “Como em outros romances, Chandler ‘canabalizou’ (termo que ele mesmo empregava) contos que publicou antes em revistas”, comenta Tavares. “Como se passa em apenas dois dias, é um enredo (e uma dinâmica narrativa) bem à feição das noveletas dos ‘pulp magazines’ onde Chandler afiou a espada antes de estrear no romance.”

MANDAMENTOS DE CHANDLER

1. Não é possível escrever uma história de detetive perfeita

2. A maneira mais eficaz de esconder um mistério é por trás de outro mistério

3. Bobagem acreditar que ninguém liga para o cadáver

4. Diálogo cínico não é humor espirituoso

5. História de mistério publicada em episódios não funciona bem como romance

6. Casos de amor quase sempre enfraquecem uma história de mistério

7. O herói da narrativa de mistério é o detetive

8. O criminoso não pode ser o detetive

9. O assassino não deve ser um maluco

10. Todas as ficções dependem do suspense

A DAMA DO LAGO

Autor: Raymond Chandler

Tradução: Bráulio Tavares

Editora: Alfaguara (272 págs., R$ 34,90)

O LONGO ADEUS

Autor: Raymond Chandler

Tradução: Bráulio Tavares

Editora: Alfaguara (400 págs., R$ 44,90)

(Fonte: O Estadão)

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