DECIFRANDO O SENTIMENTO

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DECIFRANDO O SENTIMENTO

   Sofri tantas decepções amorosas, que desisti de continuar tentando encontrar o amor da minha vida. E depois de um período de introspecção e solterice agudas, em que eu não sabia se virava missionária, comprava uma bicicleta ou investia na carreira de conselheira sentimental, resolvi que me deixaria envolver com o primeiro homem que cruzasse o meu caminho e fosse solteiro, disponível e demonstrasse interesse por mim.
   Foi durante essa época meio desesperada da minha vida que conheci e comecei a namorar com o Mauro, e tenho que admitir que ele preencheu os requisitos básicos: solteiro, disponível e interessado. Só, e apenas isso…
   Gostaria imensamente de dizer que ele é bonito e interessante, mas não gosto de mentir. O Mauro é o Mauro. Um homem que cruzou o meu caminho e que, provavelmente, teria dispensado se ainda estivesse procurando o homem ideal.
   Apresso o passo, não quero chegar atrasada. Quer dizer, não quero chegar ainda mais atrasada. O Mauro e eu iremos ao cinema, isto é, se eu conseguir encontrá-lo antes de o filme começar.
– Até que enfim, Ana! Pensei que não viesse mais. – Ele diz assim que me posto diante dele.
– Calma, Mauro! Só me atrasei dez minutinhos. – Dou um beijo na bochecha dele.
– Você sabe que detesto esperar. – Diz com cara de poucos amigos.
– Desculpa. – Peço, sentindo-me, instantaneamente, desanimada com a perspectiva de passar duas longas horas ao lado de um sujeito irritado.
– O filme está quase começando. – Ele continua com o sermão.
– Vamos entrar, então. – Tento evitar mais drama.
– Precisamos comprar os ingressos.
– Você não comprou ainda? – Pergunto, aborrecida.
– Ainda não. – Responde irritado.
– Por que você não comprou os ingressos enquanto me esperava?
– E se você não viesse? Iria perder o meu dinheiro?
– Se eu, alguma vez, tivesse faltado a algum compromisso que marcamos, até poderia aceitar o seu argumento. Mas como isso nunca aconteceu…
– E se você morresse a caminho?
– Como é que é? – Pergunto perplexa.
– Pode acontecer com qualquer um. – Diz, e acho que notou a besteira que falou.
– E você ficaria mais preocupado em perder o seu dinheiro da entrada do cinema do que em perder a namorada?
– Não foi isso o que eu disse. – Defende-se.
– Foi isso o que me fez pensar. – Esbravejo.
– Desculpa, Ana. Falei bobagem. É que fico nervoso quando você atrasa. – Ele fala, e suspiro profundamente.
– Tudo bem, deixa pra lá. – Demonstro o meu desânimo.
– Anime-se! Você não estava tão empolgada para ver o filme O Homem de Aço?
– Estava… Estou. Sei lá. Fico muito satisfeita em saber que não se importa que eu passe duas horas inteiras admirando um homem maravilhoso.
– Não me importo mesmo. É só filme, ficção, nada a ver com o mundo real.
– O super-herói pode ser ficção, mas o ator é bem real. O homem existe de verdade.
– Tudo bem. Você pode admirar o ator o quanto quiser, porque isso não significa que ele vai retribuir. Ele nem sabe que você existe.
– O problema não é ele não saber que eu existo, e sim eu saber que ele existe.
– E daí que você saiba? – O Mauro me olha interessado.
– Vamos comprar os ingressos ou não? – Tento mudar de tema.
– Já entendi tudo, Ana. Saber que ele existe faz você ficar inconformada com o namorado que tem.
– Um namorado que acha que eu valho menos do que um ingresso de cinema.
– Deixe-me tentar explicar o quanto você vale para mim.
– Vá em frente. – Estimulo, mas não espero muito coisa dele.
– Quando conheci você e a convidei para sair, quase não pude acreditar quando aceitou. Fiquei ainda mais espantado quando percebi que estávamos namorando.
– E por quê? – Pergunto, preocupada com a resposta.
– Porque achava que homens comuns como eu, nunca teriam a chance de conquistar uma mulher tão especial quanto você.
– Achava?
– Achava. Agora tenho certeza.
– Ah, Mauro… Isso é meio complexo.
– Muito complexo mesmo. Porque não basta ser o homem que nunca se atrasa, que telefona quando diz que irá telefonar, que não se esquece de nenhuma data especial, e que não te deixa em casa sozinha no final de semana enquanto sai para badalar. Não basta também ser carinhoso e sincero, quando tudo que se espera de um homem é que ele seja bonito, rico e cafajeste.
– Mauro, nunca falei que não aprecio as suas qualidades.
– E quando foi que valorizou qualquer uma delas? Você está tão preocupada em manter o seu desinteresse, que nada do que eu sou é capaz de despertar sentimentos em você.
– Acho que nos encontramos em um momento errado. – Confesso.
– Para mim, o momento foi perfeito. Nunca poderei me esquecer do sorriso que me deu quando fomos apresentados, nem da maneira tímida que me olhou quando percebeu o meu interesse. Na verdade, posso me lembrar de cada segundo que passei ao seu lado. E quero que saiba que toda vez que se atrasa, entro em pânico porque tenho medo de que tenha me deixado. Não comprei os ingressos porque pensei na possibilidade de perdermos a sessão, e isso me faria feliz, porque prefiro passar duas horas olhando para você de frente, do que de lado. – O Mauro se declara, e o meu coração aperta.
– Eu não sabia que significo tanto assim para você. – Digo, comovida.
– Deve ser porque você nunca percebeu que nas manhãs de verão, o sol brilha; ou que macacos gostam de banana; ou que os cachorros latem, e os gatos miam; ou que os meus olhos brilham sempre que a vejo; ou que fico meio bobo quando estou ao seu lado; ou que nunca reparo em mais ninguém quando estamos juntos; ou que tremo quando a beijo. – E enquanto me fala tudo isso, os olhos dele realmente brilham.
   Neste exato momento, nenhum super-herói, príncipe encantado, ou artista de cinema poderia ser mais encantador e maravilhoso que o homem que está diante de mim. É como se eu o estivesse vendo pela primeira vez na vida. Como é que eu poderia imaginar que o amor que eu sempre procurei, iria aparecer quando eu menos esperava?
– Mauro, chega de cinema por hoje. Vamos embora! – Seguro a mão dele.
– E vamos pra onde?
– Vamos namorar!
   Ele ri, aperta forte a minha mão, e saímos de mãos dadas. E o homem que achei que jamais ganharia o meu coração por não se encaixar nos meus rígidos padrões estereotipados, acabou de me convencer de que estou completamente apaixonada por ele.

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