CARTAS INÉDITAS CONTAM COMO STEFAN ZWEIG SALVOU PRESO POLÍTICO DE MUSSOLINI

Stefan Zweig

Stefan Zweig

A carta foi encontrada por um historiador italiano, em 2006, em meio à papelada do arquivo nacional de seu país. E era muito estranha. Nela, o escritor austríaco Stefan Zweig (1881-1942), conhecido por sua defesa do pacifismo, bajulava um personagem inesperado: o ditador fascista Benito Mussolini (1883-1945). Zweig agradecia a Mussolini por “Sua” bondade (assim mesmo, com letra maiúscula) e declarava-se um admirador. O autor dizia, ainda, que o ditador havia salvado a vida de “uma senhora torturada”.
O documento remete à história de três personagens cujas vidas se cruzam de um jeito improvável. A “senhora torturada” era Elsa Germani, mulher de Giuseppe Germani, preso pelo regime de Mussolini depois de carregar o caixão do político socialista Giacomo Matteotti, seu amigo, pelas ruas de Roma. Elsa escreveu a Zweig pedindo que ele usasse sua fama para ajudar o marido — daí a carta dele a Mussolini, que atendeu o pedido. A história ficou conhecida como O Caso Germani.
Agora, a correspondência que o escritor enviou a Elsa, inédita, chega a público no livro “Contei com sua palavra, e ela foi como uma rocha — Como Zweig salvou Giuseppe Germani dos cárceres de Mussolini”, editado pela Casa Stefan Zweig. O lançamento será hoje, às 19h, no Midrash, que também inaugura uma exposição com fac-símiles das cartas, além de um filme sobre o caso. E, no sábado, uma mostra semelhante será aberta na própria Casa Stefan Zweig, em Petrópolis, onde o autor de “Brasil, o país do futuro” viveu até se suicidar, em 23 de fevereiro de 1942.
Os eventos acontecem no momento em que o cineasta francês Patrice Leconte se prepara para lançar, em janeiro, “Uma promessa”, baseado no conto “Viagem ao passado”, de Zweig. E também enquanto o diretor Matt Zemlin roda o filme “The week before”, uma nova versão do romance “Carta de uma desconhecida”. Os dois filmes fazem referência ao Caso Germani.
As cartas publicadas agora estavam na Cidade do Cabo, na África do Sul, com a jornalista Monika Germani, nora de Giuseppe e viúva de seu filho Hans. Ela, que está no Brasil para o lançamento do livro, entrou em contato com a Casa Stefan Zweig em 2010. Kristina Michahelles, diretora da instituição, aproveitou uma viagem à África do Sul para ver as cartas e organizou a publicação.
— Em 1998, tivemos de nos mudar do apartamento onde meu sogro havia morrido. Hans me entregou um pacote e pediu que eu o guardasse, porque seria de grande interesse no futuro. Trabalhando tanto, nunca mais pensei no assunto. Só fui ler as cartas há quatro anos, quando me aposentei — diz Monika Germani.
A história começa em 1924. Político socialista, Giacomo Matteotti resolve fazer um discurso inflamado contra o fascismo. É sequestrado e morto por um comando fascista. Seu corpo só aparece dois meses depois.
Ele e Giuseppe Germani, nascido em uma família pobre, eram amigos muito próximos. O político pagou a faculdade de Medicina de Germani. E o médico, mesmo ferido na Primeira Guerra Mundial, salvou o parlamentar de uma tentativa de sequestro em 1921. Acabou apanhando, o que agravou seus ferimentos de guerra e o obrigou a passar um mês no hospital. No mesmo ano, aconteceu a famosa marcha dos “camisas negras” por Roma, marco do início do fascismo.
Germani deu sua última prova de amor à política quando o corpo de seu mentor foi achado. Num ato de coragem, carregou o caixão pelas ruas de Roma, durante o cortejo fúnebre. Virou alvo do regime. Pouco depois, ao levar dinheiro para a viúva de Matteotti — que, embora ele não soubesse, serviria para financiar um atentado a Mussolini — ele foi preso.
É aí que Elsa Germani entra em cena. Não que a coragem fosse algo atípico na mulher do médico italiano. Além de ter estudado Medicina, algo raro para uma mulher na década de 1920, ela já havia bancado Germani, um socialista, para a família conservadora. Então, resolveu pedir ajuda ao escritor austríaco já famoso, para quem andara mandando poemas de sua autoria e que tinha Mussolini como um de seus fãs.
Zweig ficou comovido com a história, e bem que tentou, ao longo de meses, convencer amigos escritores a interceder junto ao regime fascista. Mas eram anos difíceis na Itália, e todos tinham medo. Como sabia que Mussolini era admirador de seus livros, resolveu escrever para o ditador em pessoa. Bajulando Mussolini, Zweig não questiona a sentença, mas pede clemência para Germani. Poucos dias depois, Mussolini manda transferir o médico para uma prisão onde pode receber visitas. Dois anos depois, Giuseppe Germani é solto.
Zweig agradeceu ao ditador nas seguintes palavras: “Excelência, profundamente comovido e grato recebi hoje a notícia de sua generosidade. Sinto-me realmente comovido por sua bondade…”. Quando a carta apareceu, Zweig foi tratado por setores da imprensa italiana como admirador de Mussolini.
— Eu vi essas notícias que saíram na Itália, mas não era nada disso. Os radicais continuam aí, intransigentes como sempre. A missão do Zweig era salvar uma vida, e ele conseguiu. Ele teve que bajular o Mussolini, claro. Não tinha outra forma de isso ser feito — diz o jornalista Alberto Dines, presidente da Casa Stefan Zweig.
“Meu maior sucesso”
O escritor austríaco, pacifista, encarou o sucesso na libertação de Germani como uma prova de que a palavra pode vencer a força bruta. Não à toa, escreveu empolgado para Romain Rolland, um de seus mentores intelectuais: “Acabo de obter o meu maior sucesso literário, maior ainda do que o Prêmio Nobel — salvei o doutor Germani”.
— O interesse histórico das cartas para Elsa está em acrescentarem mais um elemento para entender essa relação entre mestre e discípulo. Esse episódio é muito interessante. O rompimento com o Rolland, mais tarde, foi essencial para a depressão do Zweig — afirma Dines. — Acho que a impressão dele era que, se conseguisse salvar o Germani, seria uma prova de que era possível interromper o processo de radicalização política.
Fora da relação entre Zweig e Rolland, Monika Germani conta que o engajamento político do sogro foi ruim para a família. A relação com Hans, o filho, sempre foi distante. Após ser preso por Mussolini, Germani ainda ficaria em um campo de concentração, em 1943, depois do avanço das tropas alemãs sobre a Itália. Ele preferiu isso a servir no exército de Hitler.
Sempre solitário, e deprimido depois da morte da mulher, Giuseppe se matou em 1971.
— O mais forte dessa história é o fato de mostrar um homem capaz de sacrificar a família e a si mesmo em nome do que acreditava — diz Monika.
Já Stefan Zweig, que teve o mesmo destino, nunca se vangloriou da ajuda que prestou ao médico. Só mencionou publicamente o fato em 1942, ao escrever sua autobiografia.
Trecho retirado do livro
‘Acabo de receber da legação italiana de Viena a notícia — que tanto me alegra por sua causa — de que a pena de prisão de seu marido foi comutada em “confino” por ordem generosa de Sua Excelência, o duce, e que ainda podemos esperar sua bondade para depois. Permiti-me agradecer imediatamente a Sua Excelência por esse extraordinário ato de generosidade, tendo talvez me antecipado à senhora, caso essa mensagem feliz e promissora ainda não a tenha alcançado. Que, assim, o período mais difícil de sua vida esteja definitivamente encerrado! Com sincera simpatia e cordial lealdade,
Stefan Zweig, 18 de janeiro de 1932.”

(Fonte: O Globo)

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