A FOGUEIRA DAS VAIDADES DE MORRISSEY

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A primeira reação ao terminar as longuíssimas 480 páginas do livro de memórias de Morrissey, “Autobiography”, é lamentar a oportunidade perdida. Poderia ter sido um livro e tanto.
Goste ou não de Morrissey e dos Smiths, não dá para negar que ele seja um dos personagens mais interessantes do pop dos últimos 30 anos.
Frasista inigualável, egocêntrico talentoso, Moz tem uma língua de serpente e uma verve de corroer chumbo. Atravessando a prosa rica e arrastada do livro, você se pega ora rindo das tiradas maldosas, ora com vontade de espancar o mala.
O ego de Morrissey não cabe num livro. A menos que seja um livro da Penguin Classsics, a respeitada série de obras-primas da literatura, que reúne de Dante a John Steinbeck.
O cantor exigiu lançar “Autobiography” como um título do selo Classics. Era isso, ou a Penguin arriscava perder um título que já é o segundo livro de memórias mais vendido na semana de lançamento na Inglaterra (o primeiro lugar ainda é de Kate McCann, mãe de Madeleine, a menina desaparecida em Portugal em 2007). E Morrissey pode dormir em berço esplêndido, eternizado no cânone ao lado de seu ídolo – e companheiro da Penguin Classics – Oscar Wilde.
“Autobiography” pretende ser um livro sério. Morrissey enche as páginas de parágrafos quilométricos e metáforas criativas. A descrição da infância em Manchester – “onde pássaros abstêm-se de cantar” – é três vezes mais longa do que o necessário, mas traz algumas frases brilhantes.
Fica claro que o autor acha indigna a companhia de autobiografias pop como as de Keith Richards, Pete Townshend e Rod Stewart. Para dificultar as coisas, o livro não tem índice ou divisão por capítulos. Quem quiser ler uma história sobre Johnny Marr, por exemplo, tem de procurar página a página. Não é da índole de Morrissey facilitar a vida de ninguém.
A impressão é de que o livro não teve editor. Se teve – há uma editora creditada – a coitada não teve coragem de sugerir uma vírgula, certamente ofuscada pelo brilho intenso do ego do cantor.
Como explicar que um décimo do livro seja dedicado ao relato minucioso e insuportável do processo que o baterista dos Smiths, Mike Joyce, moveu contra Morrissey por royalties da banda? Ou a descrições intermináveis dos programas de TV ingleses que faziam a cabeça do pequeno Steven nos anos 60?
Mais que um livro de memórias, “Autobiography” parece um acerto de contas: com a escola, com Mike Joyce, com Geoff Travis, chefão da gravadora Rough Trade, escorraçado a cada página, com a imprensa, com entrevistadores, com pessoas que comem carne, enfim, com todo mundo que não compreende Moz.
Como pode um sujeito que escreveu “Hand in Glove” e “Still Ill” não gastar um mísero parágrafo descrevendo a gênese de suas letras? Morrissey só fala de música quando escreve – lindamente, aliás – sobre sua fixação por Roxy Music, Bowie e New York Dolls. Mas isso é papo velho. Todo mundo sabe.
O que qualquer fã queria saber – mas não vai encontrar em “Autobiography” – é como Morrissey e Marr criaram as maiores indagações existenciais do pós-punk e a trilha sonora perfeita para a Inglaterra cinza de Thatcher. E como fizeram isso em apenas quatro anos e quatro LPs que parecem conter as vidas de todos os moleques que já choraram por amores não correspondidos ou sofreram no escuro de seus quartos por um arrasador senso de deslocamento. Shoplifters of the world, unite and take over…
Dá raiva imaginar o que um bom biógrafo teria feito com material tão rico. Se alguém tivesse a chance de podar os excessos, as picuinhas e vingancinhas pessoais e extrair de Morrissey explicações para a química dele com Marr, “Autobiography” seria um marco.
Em vez disso, temos parágrafos como o que descreve a primeira turnê dos Smiths nos States, quando Moz foi hospedado em um hotel fuleiro e ligou choramingando para o empresário Geoff Travis: “Geoff, tem baratas do tamanho de hamsters na minha cama!” Moz conta, indignado, que Travis nada fez para livrá-lo da companhia dos insetos nojentos. “São só por algumas noites”, teria dito Travis. A reação de qualquer biógrafo decente seria perguntar: “Fofucho, você tinha 24 anos, já era um mocinho. Por que não foi para outro hotel?”

(Fonte: Folha de S. Paulo – André Barcinski)

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