Arquivos mensais: dezembro 2014

‘A Culpa é das Estrelas’ é o filme mais visto no Brasil em 2014

Em 'A Culpa é das Estrelas', casal descobre o amor enquanto luta contra câncer

Em ‘A Culpa é das Estrelas’, casal descobre o amor enquanto luta contra câncer

Adaptação do livro best-seller de John Green ganhou em público, mas perdeu em receita para ‘Malévola’; veja ranking

Nos cinemas e nas livrarias, este foi, definitivamente, o ano de A Culpa é das Estrelas. A história criada pelo americano John Green em seu sexto romance acompanha dois adolescentes que estão descobrindo o amor, lidando com os conflitos da idade e, sobretudo, lutando pela vida – o drama não é pequeno: os dois têm câncer. O livro, publicado originalmente em 2012, ajudou a popularizar um novo tipo de literatura entre os jovens leitores, o sick-lit, e eles lotaram os cinemas em 2014 para conferir a adaptação.

O filme de Josh Boone foi o campeão de bilheteria no País, com 6,2 milhões de espectadores desde a estreia, em junho, de acordo com o ranking do site Filme B. E seu sucesso deu novo gás ao livro, que voltou a ficar entre os best-sellers. Segundo a lista de mais vendidos do site Publishnews, especializado em mercado editorial, A Culpa é das Estrelas ocupa o topo do ano entre as obras de ficção.

Malévola, com 5,8 milhões de espectadores, e Rio 2, com 5,2 milhões, ficaram em segundo e terceiro lugares e foram seguidos por X-Men – Dias de Um Futuro Esquecido (4,9 mi), Noé (4,8 mi), Jogos Vorazes: A Esperança – Parte 1 (4,7 mi), Capitão América – O Soldado Invernal (4,65 mi), Como Treinar Seu Dragão 2 (4,63 mi), Transformers – A Era da Extinção (4,5 mi) e Planeta dos Macacos: O Confronto (4 mi).

Apesar de ter ficado na 6.ª posição, Jogos Vorazes, também adaptado de um livro best-seller, conquistou todo esse público em pouco mais de um mês – ele estreou em 20 de novembro, enquanto a maioria dos filmes da lista entrou em cartaz entre maio e junho. Só no primeiro fim de semana, 1,9 mi de pessoas viram o filme – recorde de público para o período este ano.

Os três mais rentáveis, ainda segundo o Filme B, foram Malévola (R$ 74,5 mi), A Culpa é das Estrelas (R$ 69,5 mi) e Noé (68,4 mi). O menos rentável entre os mais vistos foi Como Treinar o Seu Dragão 2 (R$ 55,3 mi).

Outro levantamento anunciado agora: o de filmes mais pirateados do ano no mundo. No topo da lista da Expicio, divulgada pela revista Variety, está O Lobo de Wall Street. O longa com Leonardo DiCaprio teve 30 milhões de downloads. A animação Frozen, com 29,9 milhões, e Robocop (2014 e 1987), com 29,8 milhões aparecem na sequência. O ranking tem ainda Gravidade (29,3 mi), O Hobbit: A Desolação de Smaug (27,6 mi), Thor (25, 7 mi), Capitão América (25,6 mi), Hércules (25,1 mi), X-Men (24,3 mi) e 12 Anos de Escravidão (23,6 mi).

Os 10 mais assistidos no Brasil

A Culpa é das Estrelas

Malévola

Rio 2

X-Men

Noé

Jogos Vorazes

Capitão América

Como Treinar o Seu Dragão

Transformers

Planeta dos Macacos

Os 10 mais pirateados no mundo 

O Lobo de Wall Street

Frozen

RoboCop

Gravity

O Hobbit: A Desolação de Smaug Thor

Capitão América

Hércules

X-Men

12 Anos de Escravidão

(Fonte: O Estadão)

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Organizada por Tony Bellotto, coletânea “Rio Noir” reúne contos policiais

O músico e escritor Tony Bellotto

O músico e escritor Tony Bellotto

Novo livro é uma das opções para quem gosta de resolver mistérios sob o guarda-sol

Sangue, ação, detetives e mulheres fatais: com estes ingredientes, a literatura policial segue mantendo seu espaço cativo nas livrarias _ e galgando, ano a ano, um lugar sob os guarda-sóis de veranistas que não abrem mão de resolver um mistério à beira-mar.

Melhor ainda se o crime em questão tiver como cenário a paisagem e a realidade social de uma das mais famosas cidades praianas do mundo, o Rio de Janeiro. É o caso de Rio Noir (Casa da Palavra, 304 páginas, R$ 39,90), o mais novo candidato a disputar um cantinho entre o filtro solar e os óculos de sol na areia. A recém-lançada antologia de contos é organizada por Tony Bellotto, guitarrista dos Titãs e criador do detetive Bellini, presente em quatro de seus romances. Entre os 14 autores participantes, há uma boa seleção de cariocas: desde nomes consagrados no gênero (Luiz Alfredo Garcia-Roza e Luiz Eduardo Soares), até revelações (Raphael Montes e Alexandre Fraga) e escritores que não exercitam frequentemente a narrativa policial (Arnaldo Bloch e Adriana Lisboa). Mas também há espaço para os “estrangeiros”, como o paulista Marcelo Ferroni e o gaúcho Luis Fernando Verissimo, entre outros.

Bellotto afirma que o Rio é ótimo cenário para as tramas:

– Ao mesmo tempo que é a Cidade Maravilhosa, famosa por sua beleza, é também umas das mais violentas do planeta.

Os 10 melhores livros de 2014, segundo a equipe do 2º Caderno

Verissimo, que entra na coletânea com uma história de amor e crime ambientada em Bangu, recomenda quatro mestres do gênero para quem quiser ir além de Rio Noir:

_ Qualquer livro do Raymond Chandler ou do Dashiell Hammett (dos antigos como eu), do John le Carré ou do Rubem Fonseca, entre os mais novos.

Para quem não dispensa a companhia de um bom livro policial nas férias, pedimos a Bellotto para listar cinco clássicos do gênero e complementamos com cinco lançamentos recentes. A investigação vai começar.

Leia outras matérias de entretenimento em ZH

CINCO CLÁSSICOS – indicados por Tony Bellotto

O Assassino em Mim, de Jim Thompson

Definida pelo cineasta Stanley Kubrick como “a história mais perturbadora e verossímil narrada por uma mente criminosa”, trata do lado oculto de um homem da lei aparentemente exemplar. Lançado em 1952, ganhou uma versão cinematográfica em 2010.

Adeus, Minha Adorada, de Raymond Chandler

Depois de passar oito anos na cadeia, um criminoso contrata o detetive Philip Marlowe para encontrar sua ex-namorada. O livro de 1940 conta com duas adaptações em Hollywood: Até a Vista, Querida (1944) e O Último dos Valentões (1975).

O Talentoso Ripley, de Patrícia Highsmith

Lançado em 1955, narra a viagem à Itália do americano Tom Ripley, especialista em imitar pessoas, para buscar o filho de um milionário. Tem duas versões para o cinema: uma feita em 1959, com Alain Delon, intitulada O Sol por Testemunha; e outra, de 1999, com Matt Damon.

O Matador, de Patrícia Melo

De 1995, conta a história de um pacato jovem da periferia de São Paulo que, repentinamente, torna-se um assassino. Foi adaptado para o cinema em 2003, com o título de O Homem do Ano.

O Labirinto Grego, de Manuel Vázquez Montalbán

Neste romance de 1992, o erudito e melancólico detetive Pepe Carvalho percorre a cidade de Barcelona às vesperas da Olimpíada. Sua missão: encontrar o grego Alekos, grande amor de sua cliente Claire.

CINCO LANÇAMENTOS

Corra, Alex Cross, de James Patterson

Com livros traduzidos em mais de cem países, o autor retoma a série do detetive Alex Cross, Ph.D. em psicologia. Desta vez, o personagem está diante de assassinos que representam risco para sua própria família. Arqueiro, 224 páginas, R$ 29,90.

Matar Alguém, de Roger Franchini

Apresenta uma trama em que se misturam crime organizado, segredos de Estado e assassinatos no centro de São Paulo. Planeta, 368 páginas, R4 37,90.

Um Passo em Falso, de Harlan Coben

Acompanha os passos de Myron Bolitar, um agente de atletas que se apaixona por uma estrela do basquete. Mas, entre eles, há segredos e mentiras a serem investigados. Arqueiro, 272 páginas, R$ 29,90.

O Trovador, de Rodrigo Garcia Lopes

Primeiro romance policial do poeta e tradutor. Trata de uma série de assassinatos a ser desvendada em Londrina (PR), nos anos 1930. Record, 406 páginas, R$ 45.

A Tristeza do Samurai, Víctor del Árbol

Ambientada na Espanha, a trama de mistério aborda o legado autoritário da ditadura franquista depois da democracia. Companhia das Letras, 456 páginas, R$ 56.

(Fonte: Zero Hora)

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Maitê Proença lança livro e analisa relações amorosas em tempos de internet

Maitê: "Não sei por que escolho os temas, nem os caminhos diferentes"

Maitê: “Não sei por que escolho os temas, nem os caminhos diferentes”

O romance nasceu de uma angústia que a atriz cultiva ao observar como as relações podem ser vividas de forma não presencial graças às tecnologias

Durante os últimos dois anos, Maitê Proença viveu Terezinha, uma senhora de 86 anos de temperamento otimista, mas cheia de segredos. A personagem é fruto de pesquisa de Fernando Duarte, cujas histórias recolhidas em asilos deram origem à peça À beira do abismo me cresceram asas, dirigida por Clarice Niskier e pela própria Maitê. Lá pelas tantas, Terezinha encara a plateia e solta a famosa frase de Edith Piaf: “A velhice não é para covardes”. E, na visão de Maitê, o amor também não. Foi um pouco para se distanciar de Terezinha e um pouco para falar de um fenômeno moderno que ela mergulhou na escrita de Todo vícios, o segundo romance depois de Uma vida inventada e quinto livro da atriz e escritora. “Minha personagem era uma velha de 86 anos, rural e simplória. Eu precisei voltar para um contexto mais urbano, moderno, digital”, avisa Maitê, em entrevista ao Correio.

Todo vícios é a história de Stella e João. Ela, uma atriz que mudou de área e virou artista plástica. Ele, um publicitário cuja mulher morreu antes que o marido descobrisse a traição perpetuada durante anos. O romance da dupla começa no mundo real, mas acontece muito mais no espaço virtual do WhatsApp do que nas ruas do Rio de Janeiro e de São Paulo, cidades pelas quais o casal trafega. Palavras escritas às pressas e nem sempre precisas, expressões faciais ocultas por trás da tecnologia e uma distância física que nunca é transposta marcam a relação do casal. Stella aceita o pouco que João quer lhe dar. E João está bem confortável com a situação.

O romance nasceu de uma angústia que Maitê cultiva ao observar como as relações podem ser vividas de forma não presencial graças às tecnologias. “A palavra é insuficiente para comunicar”, garante. Se Uma vida inventada travava um jogo entre a ficção e a realidade — o livro de 2008 ficava entre a autobiografia e o romance —, Todo vícios é pura ficção, embora Maitê admita que Stella carregue um pouco das histórias vividas pela atriz. “Stella se parece comigo em algum momento de alguma história de amor”, avisa. Aos 56 anos, com três décadas de carreira, 18 novelas, seis minisséries e quatro programas de tevê como apresentadora, além das peças e dos romances, a atriz paulistana está prestes a iniciar uma novela e  sente-se confortável para dar sequência ao trabalho de apresentadora de programa de futebol. “(vou) seguindo como se fosse o princípio. Um pouco mais exigente”, diz. Abaixo, Maitê fala sobre relacionamentos modernos, futebol e literatura.

Qual é, na sua opinião, o futuro das relações mediadas pela tecnologia e por ferramentas não presenciais?

O entendimento já era difícil quando as pessoas se encaravam, viam a postura do corpo, o tom da voz, o estado emocional, as hesitações e inseguranças. Se, com todos esses elementos, a gente se estranhava, imagine agora, com três palavras escritas às pressas e enviadas por WhatsApp entre um afazer e outro.

Todo vícios é fruto de uma angústia diante dessa questão?

Sim! A palavra é insuficiente para comunicar. Quanto mais vocabulário se tem, quanto mais articulada e hábil a pessoa, mais poderá usar a palavra para dissuadir o outro. Alguém protegido, com receio de manifestar o que lhe vai por dentro, vai usar essa habilidade para dissimular. O outro perceberá talvez alguma discrepância, mas, se não observar, não perceberá o parceiro. A palavra é pouca. Nem a poesia consegue sempre, quanto mais um texto digitado às pressas só com o empenho da razão.

(Fonte: CorreioWeb)
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Paul McCartney reclama de livros de história com os Beatles: “Inacreditável!”

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O baixista disse que “nunca estudou nada” e que, para ser um bom músico, é necessário ter talento.

Paul McCartney entende o incrível impacto dos Beatles na história da música, mas ele continua a se surpreender com a presença da banda em livros de história usados em salas de aula. “Ficar sabendo – como aconteceu comigo há alguns anos – que os Beatles estavam nos livros de história dos meus filhos? Foi tipo: ‘O que?!’ Inacreditável, cara!’.”

McCartney deu esta resposta para a pergunta de um fã sobre o estudo da música popular de Liverpool. “Tente imaginar quando a gente estava na escola, entrar em um livro de história?!”, escreveu o baixista e vocalista original dos Beatles.

Ele ainda elaborou melhor, acrescentando que a ideia de alguém estudar os Beatles é “ridícula”, uma vez que até os próprios integrantes do grupo “nunca estudaram nada”. “Apenas amávamos nossa música popular”, seguiu. “Elvis, Chuck Berry, Little Richard, Fats Domino. E não era o caso de ‘estudá-los’.”

“Para nós, estudá-los estragaria tudo” adicionou. “Queríamos tomar nossas próprias decisões, simplesmente por ouvi-los. Então, nosso estudo foi ouvi-los”.

McCartney ainda enfatizou a crença dele de que o estudo da música popular não tenha a ver necessariamente com talento musical, dizendo: “Pode ser que você use isso para ensinar a outras pessoas sobre a história, e isso é valioso”. E também reconheceu a importância de escolas como a Liverpool Institute for Performing Arts (LIPA), da qual ele participou da fundação.

“Mas achar que você vai à escola e sairá como Bob Dylan é muita ingenuidade. Alguém como Bob Dylan não pode ser feito em uma fábrica”, disse o baixista. “Foi uma das primeiras decisões sobre as políticas da LIPA: ‘Queremos treinar pessoas para serem versáteis. Dar-lhes o máximo de informação. Mas não dá para dizer como se tornar um Bob Dylan ou John Lennon, porque ninguém sabe fazer isso.”

(Fonte: Rolling Stone)

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Morre aos 83, em Buenos Aires, a mulher que inspirou ‘Hilda Furacão’

"A Hilda morreu de morte natural, não morreu na rua nem sem assistência", afirma Barcellos. Nesta terça (30), ela completaria 84 anos.

“A Hilda morreu de morte natural, não morreu na rua nem sem assistência”, afirma Barcellos. Nesta terça (30), ela completaria 84 anos.

Hilda Maia Valentim, a mulher que inspirou a personagem Hilda Furacão, do romance e da minissérie de mesmo nome na televisão, morreu em Buenos Aires na manhã desta segunda (29).

Hilda morreu por problemas no sistema respiratório. Ela estava internada em um asilo da prefeitura de Buenos Aires para idosos. Segundo a assistente social responsável, a brasileira Marisa Barcellos, Hilda já não estava comendo havia mais de uma semana e estava sendo hidratada com sondas.

Quando Hilda apareceu no asilo para idosos em maio, Barcellos decidiu investigar o passado e imaginou que ela talvez fosse a mesma mulher que havia inspirado o escritor Roberto Drummond, autor do romance “Hilda Furacão”.

A assistente social entrou em contato com o jornalista Ivan Drummond, que é parente de Roberto e confirmou sua identidade. Ele publicou depois uma reportagem no jornal “O Estado de Minas”.

No livro que inspirou a série, Hilda é uma filha da elite de Belo Horizonte que vira prostituta. Hilda Maia Valentim nunca pertenceu à elite mineira. Ela se casou com um jogador de futebol, Paulo Valentim, que foi contratado pelo Boca Juniors nos anos 1960. Ele virou um ídolo local, e a família acabou se estabeleceu em Buenos Aires.

O jogador de futebol morreu há 30 anos, em 1984.

Não vai haver velório para Hilda. Ela não recebia visitas de familiares. O corpo dela deve ser levado ao cemitério de Chacarita, em Buenos Aires.

Hilda foi levada à Argentina pelo marido, que ainda jogou em um clube do México. Já aposentado, foi contratado como técnico de categorias de base do Boca Juniors.

Aos 83, Hilda se confundia com dados. À Folha, em julho, disse que o marido morrera há cinco meses, mas ele está morto desde 1984. Segundo Barcellos, um filho de Hilda morreu há cerca de um ano.

Ela não gostava de ser chamada de Furacão, mas confirma que era o seu apelido, ganho por ser muito briguenta.

Quando questionada sobre a série da Globo de 1998, primeiro falou que não sabia da existência. Depois, disse que pediram sua autorização para gravar. Também disse que “nunca teve a oportunidade” de conhecer a zona de Belo Horizonte e que trabalhava como doméstica antes de se casar.

Ela diz não guardar muitas memórias da capital mineira, mas, sim, da vida ao lado de Valentim. “Conheci cinco países com ele, e de avião.”

(Fonte: Folha de São Paulo)

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Mostra em Londres resgata história e influência da literatura gótica

Caninos pontiagudos de ilustres vampiros, rostos deformados de monstros humanizados, donzelas em perigo, gritos sufocados na garganta, risadas enlouquecidas.

Misture tudo num ambiente à meia luz, cheio de sombras e cortinas, acrescente uma pitada das rendas de Alexander McQueen e voilà! Eis uma bela exposição sobre a história e a influência da literatura gótica, que completou 250 anos neste 2014.

Tudo isso está presente na mostra “Terror and Wonder – The Gothic Imagination” (terror e espanto – a imaginação gótica), em cartaz na British Library, a biblioteca pública britânica, em Londres. Trata-se não só de uma viagem no tempo, mas também de uma discussão sobre como a literatura reflete a sociedade -e sobre a sociedade.

Primeira ilustração do monstro de 'Frankenstein', datada de 1831, presente na exposição
Primeira ilustração do monstro de ‘Frankenstein’, datada de 1831, presente na exposição “Terror and Wonder – The Gothic Imagination”, em Londres

A pedra fundamental da exposição é um magnífico exemplar da primeira edição de “The Castle of Otranto”, lançado em 1764 e reconhecido como a obra pioneira da literatura gótica.

Só mesmo a redoma que protege o volume impede o visitante de ceder à vontade de manusear o livrão de capa dura, ilustrações que hoje parecem pueris e páginas amareladas, cujo cheiro infelizmente não ultrapassa o vidro.

Há ainda vários recantos dedicados ao peculiar autor da obra, Horace Walpole (1717-1797). Quarto conde de Oxford, historiador de arte e colecionador, Walpole abriu ao público a propriedade em que vivia, a Strawberry Hill, após transformá-la em símbolo da cultura gótica. Ilustrações e textos dedicados ao local estão na exposição.

O visitante da mostra pode apreciar, por exemplo, a curiosa “biblioteca” que Walpole mantinha na Strawberry Hill, um volume que parece um livro alto e grosso. Aberto, ostenta prateleiras que abrigam uma coleção de minilivros, do tamanho de maços de cigarros; na contracapa, em letra caprichada, está o registro do acervo, com informações sobre cada obra.

Apesar de sua importância como pioneiro, Walpole nem de longe é popular. É um perfeito desconhecido se comparado a outros grandes nomes da literatura gótica, também presentes na exposição. Há, por exemplo, manuscritos de Mary Shelley (parte do texto de apresentação de “Frankenstein”) e de Bram Stoker, o autor de “Drácula”.

Também há trechos de filmes que marcaram época e são ainda cultuados pelos apreciadores do gênero -ainda que possam parecer ridículos a um observador menos apaixonado. Exemplo disso é o clipe com as tocantes (ou risíveis) cenas de “A Noiva de Frankenstein” (1935).

CAÇA-VAMPIROS

Eis que a vida imita a arte: da era vitoriana, mais perto do final do século 19, há até kits para caçadores de vampiros. Um deles, com enormes pregos de madeira, pode provocar calafrios no visitante menos empedernido -além de uma certa vontade de sair a caçar monstros.

Kit vitoriano para caçar vampiros
Kit vitoriano para caçar vampiros

Textos curtos, mas densos, acompanham o acervo, situando autores e fazendo breves análises. Contam, por exemplo, que, no século 19, o terror deixa o ambiente dos castelos e ganha as ruas; a sujeira e a miséria apavoram mais que a imaginação.

Mostram como a estética gótica influencia a descrição da pobreza e dos exploradores de miseráveis na ficção de Charles Dickens (1812-1870) -o vilão Fagin, de “Oliver Twist”, por exemplo, seria um “vampiro” do trabalho de menores abandonados.

E o gótico chega aos tempos modernos, na moda de Alexander McQueen, em histórias em quadrinhos e em desenhos animados, sem falar na obra de diretores como Hitchcock e Stanley Kubrick.

Mesmo antes do sucesso adolescente da saga “Crepúsculo”, jovens (e outros nem tanto) revivem a estética gótica em animados encontros em Whitby (localidade citada em “Drácula”) -o mais recente deles, realizado neste ano, foi registrado pela câmera de Martin Parr especialmente para a exposição.

O Pesadelo', do suíço Henry Fuseli, em impresso datado de 1783, presente na exposição
‘O Pesadelo’, do suíço Henry Fuseli, em impresso datado de 1783, presente na exposição “Terror and Wonder – The Gothic Imagination”, em Londres

Ao sair da cena gótica, totalmente imerso na estética multicentenária, o visitante cai numa ala da lojinha do museu especialmente dedicada ao tema: há desde exemplares do histórico livro de Horace Walpole e de outras obras do mundo gótico até peças de decoração, brinquedos, acessórios e, claro, magnetos com o cartaz que apresenta Terror and Wonder.

Dá para passar uma rápida e substanciosa hora ou dedicar uma tarde inteira à mostra, que vai até dia 20 de janeiro, com ingressos a 10 libras (cerca de R$ 40). Mais informações em bl.uk/events/terror-and-wonder–the-gothic-imagination.

(Fonte: Folha de São Paulo)

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Leia carta de Jack, o Estripador, exposta em mostra gótica de Londres

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Leia abaixo tradução da carta de Jack, o Estripador, escrita em setembro de 1888, um dos itens da exposição “Terror and Wonder – The Gothic Imagination” (terror e espanto – a imaginação gótica), em cartaz na British Library, a biblioteca pública britânica, em Londres.

Querido chefe, continuo a ouvir que a polícia me pegou, mas ainda não é agora que vão me dar um corretivo. Dou gargalhadas quando eles parecem tão espertos e falam sobre estar na pista certa. Aquela piada sobre o avental de couro me deu verdadeiros ataques de riso. Sou obcecado por putas e não vou parar de estripá-las até ser preso. Meu último trabalho foi um feito e tanto. Não dei à senhora nem tempo de gritar. Como eles podem me pegar agora? Amo meu trabalho e quero começar de novo. Você logo ouvirá falar de mim com meus joguinhos divertidos. Guardei um pouco do líquido vermelho do meu último trabalho numa garrafa de cerveja para escrever com ele, mas ficou grudento como cola e não pude usar. Tinta vermelha serve, espero, haha. No próximo trabalho, vou cortar as orelhas das senhoras e enviar…

Verso da carta:

…aos policiais só por diversão, você não faria isso? Mantenha essa carta até eu trabalhar mais um pouco, daí pode jogar fora. Minha faca é tão boa e afiada que quero voltar a trabalhar imediatamente, se tiver chance. Boa sorte. Sinceramente seu, Jack o Estripador

(Fonte: Folha de São Paulo)

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Biografia e discos marcam a celebração dos 40 anos do ABBA

O quarteto. Legado da banda amplifica seu sucesso por outras gerações

O quarteto. Legado da banda amplifica seu sucesso por outras gerações

Em 1974, ‘Waterloo’ vence o festival Eurovision e sagra a banda

ABBA não existe mais como banda há três décadas. Isso, no entanto, não impede em nada sua sobrevida. Dancing Queen ainda está longe de passar incólume nas pistas. O musical Mamma Mia!, baseado nos hits do grupo sueco, estreou em Londres, em 1999 – onde está em cartaz até hoje -, e teve remontagens mundo afora, incluindo São Paulo (por aqui, a versão em português foi apresentada em 2010).

Os números desse musical reforçam a ideia de sucesso póstumo da banda: no total, mais de 50 milhões de pessoas já assistiram ao espetáculo ao longo desses 15 anos. E onde quer que seja montado, Mamma Mia! segue padrões de procedimento exigidos pelos “chefes” Benny Andersson e Björn Ulvaeus, compositores e fundadores do ABBA.

Em 2008, a fórmula do musical extrapolou os palcos e ganhou as telas. Com um elenco afiado, encabeçado por Meryl Streep, Mamma Mia!, o filme, arrecadou mais de US$ 600 milhões, mas representou mais do que cifras. Junto com o musical, ajudou a fazer a manutenção do público da banda, chegando a plateias mais jovens.

Ainda no quesito ‘perpetuando o sucesso entre outras geração’, vale lembrar que Madonna usou os acordes de Gimme! Gimme! Gimme! (A Man After Midnight), do ABBA, em Hung Up, de seu álbum Confessions on a Dance Floor, de 2005. Foi um feito a cantora conseguir a autorização de Andersson e Ulvaeus, que são rígidos com sua obra – por isso o auê na época em torno da conquista.

Para o escritor brasileiro Daniel Couri, que, em 2011, lançou a biografia da banda, Mamma Mia!, pela Panda Books, a repercussão que o grupo consegue até os dias de hoje se deve à simplicidade de suas músicas, “apesar dos arranjos sofisticados e complexos”. “É fácil se ‘viciar’ nelas. A harmonia das vozes é impecável. As melodias e refrões são extremamente cativantes”, analisa. “Eles não tinham pretensões de fazer letras de protesto ou mesmo canções que se enquadrassem nos modismos da época.”

Formado no início dos anos 70, o grupo só alçou fama internacional em 1974, quando a canção Waterloo ficou em primeiro lugar no concurso musical do popular programa de TV Eurovision Song Contest. Para lembrar esses 40 anos, o pacote comemorativo de lançamentos inclui Abba – A Biografia, de Carl Magnus Palm, e a coletânea ABBA Gold: Greatest Hits 40th Anniversary Edition, reunindo três discos (dois de hits e um com lados B da banda).

Era janeiro de 1974 e faltava muito pouco para o fim das inscrições para o Melodifestivalen, concurso de música sueco que servia como porta de entrada para o festival de TV Eurovision. Nos dois anos anteriores, eles haviam chegado perto de ganhar o Eurovision, mas terceiro lugar não tem o mesmo peso do pódio mais alto. Àquela altura, o quarteto não se chamava mais Björn & Benny, Agnetha & Frida. Já batizada como ABBA, uma combinação das iniciais dos nomes deles, a banda precisava da música certa para ter chances reais. A balada dramática Hasta Mañana lembrava muito os últimos vencedores do festival, mas, por sugestão do empresário Stig Anderson, decidiram ousar com Waterloo.

Venceram a fase eliminatória, conquistaram, logo em seguida, os países nórdicos com o disco Waterloo, mas queriam ir mais longe. E, para isso, foram a Brighton, na Inglaterra, em abril, para participar da final da Eurovision. Contrariando todas as expectativas e favoritismos, a banda ficou em primeiro lugar. E ali o ABBA nascia para o mundo. “Aquele foi definitivamente um marco. No início dos anos 1970, ninguém fora da Escandinávia estava interessado em música pop sueca. Era difícil para o ABBA e seu empresário serem levados a sério pelo mundo dos negócios da música internacional”, diz o biógrafo sueco Carl Magnus Palm.

“É por isso que eles participaram do festival: sua teoria era que, se tivessem uma canção e uma performance que fossem fortes o suficiente, poderiam chegar a centenas de milhões de telespectadores que assistissem à competição e, ao fazê-lo, sua canção se tornaria um sucesso – não importa que eles fossem da Suécia. Eles estavam certos, porque a vitória com Waterloo lhes deu sucesso internacional”, continua.

A banda sueca Abba

Neste 2014, em que se comemoram os exatos 40 anos de vitória da banda na emblemática competição, foi lançado no Brasil o livro ABBA – A Biografia, de autoria de Palm. Há 15 anos escrevendo sobre o grupo, o escritor recupera a trajetória dos integrantes, com o material que acumulou nesses anos de pesquisa – incluindo entrevistas que fez com o quarteto ao longo desse tempo. Ele acompanha a história de Benny Andersson, Anni-Frid Lyngstad, Björn Ulvaeus e Agnetha Fältskog desde as respectivas formações na música, passando pela fama, casamentos de Frida/Andersson e Agnetha/Björn, desentendimentos, o divórcio dos casais. Mesmo com as separações, os quatro continuaram juntos como grupo, mas cada vez mais se distanciavam entre si.

Há quem considere os divórcios como os grandes responsáveis pelo fim da banda, em 1982. Palm diz que as separações contribuíram, em algum nível, para o desfecho, mas não foram o principal motivo. “Principalmente, Björn e Benny se cansaram de fazer apenas canções pop. Eles haviam sonhado por muitos anos fazer um musical.”

Todos seguiram suas vidas – e carreiras. Mas, desde o começo, assustada com o assédio causado pela fama, Agnetha se isolou. Suas aparições públicas sobre projetos do ABBA sempre foram uma dúvida para público, mídia – e para os próprios ex-colegas de banda. Palm descreve, no início do livro, um flagrante de um desses raros momentos. Em 2005, o musical Mamma Mia! faria sua estreia em Estocolmo. No local, fãs enlouquecidos para vê-los de perto e, com sorte, conseguir autógrafos. Seria a primeira vez em 19 anos que os quatro integrantes da banda apareceriam juntos em público. Björn, Benny e Frida chegaram primeiro. Até que um carro parou na frente do teatro e dele desceu Agnetha. Acompanhada de seguranças, ela recebeu atenção especial pela produção por causa de sua fobia da euforia exagerada dos fãs. Mesmo desconfortável com a situação, ela permaneceu no lugar, de forma reservada. Repetiria a aparição em outras ocasiões especiais, como a première do filme Mamma Mia!, em 2008.

Para Daniel Couri, que escreveu o livro também de nome Mamma Mia!, após conversar com fãs europeus, ler muito, ver vários filmes e trocar e-mails com o próprio Carl Magnus Palm, os componentes do ABBA nunca se enxergaram como ‘celebridades’. “Eles sempre foram avessos à superexposição. Agnetha sentia isso de forma mais forte e, após quase 10 anos com o ABBA, sentiu necessidade de diminuir o ritmo. Dedicou-se à vida caseira, aos filhos, netos. Em 2013, no entanto, ela voltou a gravar e lançou um CD de material inédito e original após anos afastada da mídia. Ressurgiu positiva, fez as pazes com o passado atribulado e com a perseguição da mídia e se mostrou em paz.”

ENTREVISTA – Carl Magnus Palm, biógrafo

‘Não havia uma investigação sobre eles’

Por que você se tornou um especialista em ABBA?

Porque gosto muito da música deles, e sou interessado em música popular em geral. Antes de eu começar a pesquisar sobre o ABBA, ninguém mais estava fazendo uma investigação aprofundada sobre eles.

O que foi mais difícil durante o processo dessa biografia?

A parte mais difícil é sempre contar o fato da ficção. Existem tantas histórias contraditórias e diferentes versões dos acontecimentos, o que às vezes torna difícil saber o que é realmente verdade.

Não sei se você sabe, mas, aqui no Brasil, autores não têm total liberdade para escrever biografias, porque biografados ou suas famílias podem impedir judicialmente sua publicação.

Eu não sabia disso. Não acho que seja bom não ser possível escrever uma biografia sobre pessoas famosas. Desde que você não escreva nada que seja uma mentira, não vejo por que você não teria permissão para escrever um livro sobre alguém. Biógrafos têm de ter total liberdade para pesquisar e escrever seus livros, porque isso é uma parte fundamental da liberdade de expressão.

Clássicos inesquecíveis do Abba

Chiquitita

The Winner Takes It All

Dancing Queen

Waterloo

(Fonte: O Estadão)

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Capa de Tintim pode se tornar original de HQ mais caro já vendido

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Arte de A Estrela Misteriosa pode passar de 3 milhões de euros em leilão

Depois da capa interna com várias imagens de Tintim  ganhar o posto de obra relacionada a quadrinhos mais cara do mundo, sendo vendida pelo valor de € 2,65 milhões (veja mais aqui), outra arte do personagem de Hergé pode bater esse recorde. O desenho original da capa de A Estrela Misteriosa, de 1942, será oferecido em um leilão em Bruxelas em janeiro e foi avaliado entre 2,5 milhões e 3 milhões.

Seria o terceiro recordo de uma obra de Tintim: em julho de 2012, a pintura feita para a capa de Tintim na América foi vendida em um leilão por € 1,3 milhão.

(Fonte: Omelete)

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China Miéville renova ficção científica com romance sobre urbe monitorada

Escritor inglês China Miéville

Escritor inglês China Miéville

‘A Cidade & A Cidade’ , distopia do autor inglês fala de cidades sob o tacão do arbítrio

Três vezes ganhador do prêmio Arthur C. Clarke, o mais prestigiado da Grã-Bretanha para livros de ficção científica, China Miéville ainda é um autor cult no Brasil, conhecido apenas por fanáticos do gênero. Isso deve mudar com a recente publicação, pela Boitempo Editorial, de A Cidade & A Cidade, que venceu o referido prêmio há quatro anos, quando saiu na Inglaterra. O livro é um dos favoritos de Miéville, autor influenciado por Lovecraft e Mervyn Peake, mas principalmente por Ian Sinclair, também o mestre de William Gibson, o pai do cyberpunk.

Expoente da cultura geek (gente obcecada por tecnologia), Miéville nasceu em Norwich há 42 anos, mas foi criado pela mãe em Londres. Mestre em direito internacional e ativista político, ele é um desses autores que surpreende pela habilidade em reunir num mesmo livro fantasias barrocas e um credo político radical, que o fez criar um partido político nanico e disputar (e perder) anos atrás um cargo pela Aliança Socialista inglesa.

O mundo ficcional de Miéville é conhecido como Bas-Lag, onde convivem a magia, o horror, a alta tecnologia e uma visão urbana extremamente pessimista. Sua obra o conduziu no passado à liderança de um grupo de escritores de um gênero conhecido como “new weird”, ou seja, radicais que rejeitam o escapismo e carregam na ficção distópica. A Cidade & A Cidade é isso: a investigação de um crime cometido numa cidade pós-soviética chamada Beszel que, desafiando as leis da física, abriga no mesmo espaço outra cidade, onde seus moradores, controlados por um governo autoritário, ignoram a existência dos outros.

Miéville, gregário por natureza – ele adora jogar RPG –, deve ficar escandalizado com um mundo em que os interesses individuais ditam as regras e levam as pessoas ao isolamento. Nas duas cidades que coexistem num mesmo espaço, os cidadãos são obrigados por uma autoridade a ignorar o que se passa na urbe duplicada. Miéville, no entanto, resiste ao apelo metafórico, evitando uma aproximação analógica com a indiferença do mundo à dor e ao sofrimento alheio.

De qualquer modo, a violência da autoridade suprema que ameaça os cidadãos resistentes à ordem de não olhar para os habitantes da “outra” cidade, encontra correspondência evidente no mundo real. À maneira de outro expoente da ficção científica, Philip K. Dick, que cruzou a ficção futurista com a bestialidade policial do presente em Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? (livro que deu origem ao filme Blade Runner), Miéville denuncia a vocação da urbe para o crime. No livro de Dick, um caçador de androides buscava seus pares numa Babel arruinada pela chuva ácida. Em A Cidade & A Cidade, China Miéville usa a figura de um policial, o inspetor Borlú, narrador de sua história, para investigar o assassinato de uma jovem que teria transitado ilegalmente entre as duas cidades.

Miéville, autor de dez romances, além de contos e uma série em quadrinhos, terá outros livros publicados pela Boitempo (Perdido Street Station, The Scar e Iron Council). Ele falou ao Caderno 2 sobre o livro agora lançado e suas principais influências literárias.

Você disse certa vez que A Cidade & A Cidade é seu livro favorito entre muitos que escreveu. Ele é mais ambicioso que os outros em termos de cruzar a cultura geek (dos obcecados por tecnologia) com filosofia política? Você estava pensando em Kafka ou Borges quando criou as duas cidades que coexistem num mesmo espaço?

Não sei agora qual seria exatamente o meu favorito entre os livros que escrevi – isso muda a cada dia –, mas está entre os que eu considero os melhores. Como um alucinado por tecnologia com interesse particular em filosofia política, tudo o que escrevo deriva da intersecção entre ambos, especialmente A Cidade & A Cidade. Para o meu gosto, consideraria Iron Council mais ambicioso, ainda que ele falhe gloriosamente onde falha, mas A Cidade & A Cidade é igualmente ambicioso no sentido de ter sido o ponto de partida, não só no tom como na ambientação, um livro do qual muito me orgulho. Não estava pensando em Borges, de forma consciente, quando comecei a escrevê-lo, mas, naturalmente, ele é um escritor incontornável, no qual não se pode deixar de pensar. Kafka, diria, era uma referência mais imediata. Diria ainda que estariam mais próximos dois outros autores: Bruno Schulz e Alfred Kubin.

Escritores de ficção científica costumam ser muito reacionários – e me vem logo à mente o nome de Ray Bradbury. Seria o selo “new weird” uma resposta política à ficção do passado, caracterizada pelo mundo hierárquico de Ray Bradbury e pelas fantasias de Tolkien?

Não sei se concordo que os autores de ficção científica são, de modo geral, grandes reacionários, embora existam muitos entre eles. De qualquer maneira, posso pensar em alguns de diferente origem e posição – e talvez seja conveniente, a despeito da obviedade, repetir que a posição política de um escritor não define a qualidade de seus livros. O termo “new weird”, agora morto e sepultado, era certamente um instrumento antirreacionário das tropas weird. Teve lá o seu momento. Minha impressão é que esse momento acabou.

A Cidade & A Cidade pode ser lido como um livro existencialista sobre duas diferentes cidades convivendo num mesmo espaço e tempo, como se todos tivessem um doppelgänger repetindo os mesmos gestos, algo na linha do William Wilson de Poe. Lembro que você assume outras influências, entre elas Lovecraft, Melville e Ian Sinclair. Escritores existencialistas como Camus são também referências para sua literatura?

Até certo ponto isso é inevitável, pois eles estão no substrato de nossa consciência cultural. Mas estaria mentindo se apontasse Sartre ou Simone de Beauvoir como primus inter pares das influências culturais que assumo de forma consciente.

Como seu credo político interfere em sua literatura, uma vez que você evita as soluções morais do gênero ficção científica para escrever livros não esquemáticos?

O verbo que você escolheu, “interferir”, é muito interessante, embora reconheça que não o use de forma provocativa. Contudo, ele conduz a uma noção oculta do que constitui a relação entre política e ficção para qualquer autor, particularmente para quem é assumidamente político. Para ir mais longe, crença política e compromisso podem, claro, “informar”, “melhorar” ou “desenvolver” a literatura de alguém. Já uma imbricação desastrosa da política na literatura pode levar à má ficção. De minha parte, não vejo isso como um dilema. Sou um autor de ficção e um escritor de esquerda – e um sempre dependerá do outro. Não existe outro modo de escrever nem eu desejaria que existisse. A ficção não existe para expor discussões políticas – para isso existe a não ficção.

Desde seu primeiro romance, King Rat, que foi publicado em 1998 e lançado no Brasil por uma pequena editora, o que mudou basicamente no modo de você encarar a literatura? Você pretende se dedicar mais a ensaios que à ficção no futuro?

Essa é uma boa pergunta. Sim, gostaria de escrever mais ensaios e não ficção, embora deva usar “tanto quanto” em vez de “no lugar” da ficção. À medida que escrevo, torno-me mais consciente da prosa e dos perigos da autoparódia. Tenho um imenso senso de urgência, pois estou entrando no “período intermediário” de minha carreira. Muitos já escreveram sobre o “estilo tardio”, como Edward Said, por exemplo, mas não sobre o intermediário, que, para mim, ou justifica a obra como um todo ou sinaliza um completo fiasco.

Você escreveu contos, quadrinhos, roteiros para role-playing games e textos acadêmicos. Qual é a diferença entre escrever ficção e não ficção, para você? É melhor criar histórias do que descrever o mundo real?

Não há melhor nem pior para mim. Acho que sofro de um complexo de culpa, como alguém que tem um passado acadêmico, um ativista que considera a não ficção mais importante. Conscientemente, quero me livrar disso, mas é inevitável. Não creio que estaria apto a escrever numa única forma. Menos porque escrever em múltiplas formas é triunfar, para mim é uma oportunidade de falhar melhor.

China Mieville, autor do livro de ficção científica “A Cidade e a Cidade”, publicado pela Boitempo

Obras recentes do autor são híbridos literários

Em ‘Railsea’, ele cruza os monstros da juventude com épico de Melville, ambientando o livro num cenário apocalíptico

Se há dez anos você perguntasse a China Miéville se ele era geek, a resposta vinha rápida: “Sim, sou completamente geek”. Ele considerava lícito que um homem com pouco mais de 30 anos não abjurasse sua adolescência passada entre dragões, monstros e jogos eletrônicos. Miéville, hoje com 42 anos, mudou de direção, deixando um pouco de lado a pulp fiction para unir alta tecnologia à alta literatura.

Assim, seus livros de ficção mais recentes, como Railsea (2012), embora não recusem a fusão híbrida de gêneros, parecem mais ambiciosos. Railsea é uma típica ficção científica, mas com imagens arquetípicas, como os livros anteriores, cruzando os monstros da juventude do autor com o épico – Melville é uma referência imediata quando se pensa nas criaturas predadoras do livro, inspiradas na baleia de Moby Dick.

A ambição de Miéville está relacionada à crença na literatura fantástica como forma revolucionária, capaz de substituir o hermetismo da academia, que o levou a abominar Cambridge quando trocou o Egito pela Inglaterra na juventude, decidido a estudar antropologia.

Nesse sentido, é fácil entender a razão de Miéville citar Iron Council na entrevista acima como sua criação mais ambiciosa, também porque, além dos temas frequentes na obra de um marxista de formação – o mundo sujo dos políticos, a revolução –, ele se dedica a explorar uma história de amor homossexual. Não em busca de polêmica, mas para ser fiel ao projeto do cruzamento híbrido entre fantasia, thriller político, romance revolucionário e faroeste, gênero em que o homoerotismo não é raro.

Esse apego a gêneros vistos como vulgares, subliterários, tem tudo a ver com a ideologia desse socialista empenhado em desafiar o “bom gosto” burguês. Para ele, há uma “afinidade estranha” entre políticos radicais e a literatura fantástica – e, não por acaso, ele sempre cita nomes como o do trotskista Steven Brust e do anarquista Michael Moorcock como exemplos de subversão extrema.

Moorcock escreveu um estudo sobre a fantasia épica (Wizardry and Wild Romance) que acaba com a trilogia O Senhor dos Anéis, definindo Tolkien como um conservador antimodernista – o idílico território do Shire, onde moram os hobbits na Europa mitológica do escritor britânico, seria o doce lar seguro da burguesia, segundo o ensaísta. Tudo o que está fora de Shire representa o perigo, multiplicando o temor da família nuclear, que vê como ameaça aquilo que não é seu espelho.

Essa paranoica desconfiança reina em A Cidade & A Cidade. Considere o exemplo da jovem do livro, assassinada na cidade de Beszel, no cafundó da Europa, que divide com a cidade gêmea Ul Quoma o mesmo espaço geográfico, embora com costumes diferentes. A fronteira entre as duas é respeitada e ignorá-la é um crime – a garota morta, no caso, estava envolvida com agitadores políticos e cruzou a linha divisória, desafiando um poder secreto chamado Brecha. Em sua ingenuidade, ela é como a Dorothy de O Mágico de Oz: quer voltar para casa, mas nem sabe se esse lar existiu, de fato, algum dia. / A.G.F.

A CIDADE & A CIDADE

Autor: China Miéville

Tradutor: Fábio Fernandes

Editora: Boitempo Editorial(292 págs.,R$ 45)

Trecho do livro:

“Os poderes de Brecha são quase ilimitados. Assustadores. O que limita a Brecha é apenas o fato de que esses poderes são altamente específicos, circunstancialmente. A insistência para que essas circunstâncias sejam rigorosamente policiadas é uma precaução necessária para as cidades.

Por isso, esse equilíbrio arcano entre Beszel, Ul Qoma e a Brecha. Em circunstâncias diferentes das várias agudas e indiscutíveis brechas – crime, acidente ou desastre (derramamento de produtos químicos, explosões de gás, um agressor com problemas mentais atacando através da fronteira municipal) –, a comissão vetava todas as potenciais invocações – que eram, afinal de contas, todas as circunstâncias nas quais Beszel e Ul Qoma se desnudariam de qualquer poder.

Mesmo depois de eventos agudos, com os quais ninguém são poderia argumentar, os representantes das duas cidades na comissão examinariam cuidadosamente ex post facto as justificativas apresentadas para a intervenção de Brecha. Eles poderiam, tecnicamente, questionar qualquer uma delas:seria absurdo fazer isso…”

(Fonte: O Estadão)

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