Arquivos mensais: julho 2014

Andrew Solomon publica livro com vários pontos de vista sobre a depressão

Solomon foi indicado ao prêmio Pulitzer e venceu o National Book Awards

Solomon foi indicado ao prêmio Pulitzer e venceu o National Book Awards

Um artigo publicado na revista The New Yorker, em 1998, fez o escritor norte-americano Andrew Solomon se dar conta de que a depressão é um tema pouco abordado e muito carente no mundo da literatura. Após publicar o texto, ele recebeu mais de 7 mil cartas de leitores que se identificavam com as situações descritas ou que entendiam o desespero do autor. Solomon começou então a pesquisar.

Partiu da própria experiência para tentar compreender o sucesso do artigo e chegou à conclusão de que a literatura que trata da depressão é também responsável por relegar a doença a compartimentos fechados de campos de estudo específicos. Solomon, que é um dos convidados da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) que começa nesta quinta-feira (31/7), queria ler mais que isso e, para tal, fez ele mesmo o seu compêndio sobre a doença.

Demônio do meio-dia – Uma anatomia da depressão, sobre o qual o autor fala na sexta-feira na Flip, é uma espécie de mapa da doença construído a partir de sua própria vivência. Ele sofre de depressão desde a infância e acredita na escrita como forma de controle e compreensão do mal capaz de, periodicamente, derrubá-lo e isolá-lo do mundo. “Eu tive uma depressão terrível e, quando consegui emergir dela, eu queria ler um livro que me ajudasse a entendê-la”, conta.

Referência

“Comecei a fazer minha pesquisa e vi que havia muitos relatos pessoais e muitos livros científicos sobre o tema, mas havia poucos livros de filosofia e sociologia, e não havia nada que colocasse tudo junto. Pensei que precisava de um livro capaz de descrever a experiência de todos esses pontos de vista. Então comecei a escrever”, completa o autor.

Confira trecho de Demônio do meio-dia, de Andrew Solomon

No verão depois do meu último ano de faculdade, tive um pequeno colapso, mas na época eu não rinha ideia do que era. Estava viajando pela Europa, curtindo o verão que sempre desejara, completamente livre. Fora uma espécie de presente de formatura dos meus pais. Passei um mês esplêndido na Itália, depois prossegui para a França e em seguida visitei um amigo no Marrocos. Fiquei intimidado pelo Marrocos. Era como se eu tivesse sido libertado demais de restrições demais. Eu me sentia nervoso o tempo todo, como me sentia nos bastidores pouco antes de entrar numa peça das escola. Voltei a Paris, encontrei-me com mais alguns amigos e depois fui para Viena, uma cidade que sempre quisera visitar. Não consegui dormir em Viena. Cheguei, instalei-me numa pensão e encontrei alguns velhos amigos que também estavam lá. Fizemos planos para viajar juntos a Budapeste. Saímos e tivemos uma noite agradável. Depois voltei e fiquei acordado a noite toda, aterrorizado com algum erro que pensei ter cometido, embora não soubesse qual. No dia seguinte, eu estava tenso demais para enfrentar um café da manhã numa sala cheia de estranhos. Quando saí ao ar livre, me senti melhor, decidi visitar algum museu e cheguei à conclusão de que provavelmente estava apenas me sobrecarregando. Meus amigos tiveram que ir jantar com outra pessoa e, quando me contaram isso, senti-me atingido até o âmago, como se estivesse ouvindo uma trama de assassinato. Concordaram em se encontrar comigo para um drink depois do jantar. Eu não jantei. Simplesmente não conseguia entrar num restaurante estranho e pedir a comida sozinho (embora tivesse feito isso muitas vezes antes). Também não conseguia iniciar uma conversa com ninguém, Quando finalmente me encontrei com meus amigos, eu estava tremendo.”

(Fonte: CorreioWeb)

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Município de Pernambuco ganha feira internacional de literatura infantil

Irene Vasco participará do Festival Internacional de Literatura Infantil

Irene Vasco participará do Festival Internacional de Literatura Infantil

Na próxima semana, de segunda a sexta-feira, o município de Garanhuns, Agreste de Pernambuco, recebe a primeira de quatro oficinas voltadas para mediadores de leitura e gestores de bibliotecas. Os treinamentos são voltados para 100 profissionais que atuam na educação de crianças e com literatura infantil.

A ação antecipa o Festival Internacional de Literatura Infantil (Fligi), de 9 a 12 de outubro, com programação de palestras e oficinas. A expectativa de público é de 6 mil pessoas. Até o momento, foram anunciadas a participação da escritora colombiana Irene Vasco e a ilustradora brasileira Nireuda Longobardi. O evento é promovido pela Proa Cultural, em parceria com a gestão do município.
“Garanhuns foi escolhida para receber o Filig porque é uma cidade que já vem desenvolvendo ações voltadas para a literatura infantil, como a implantação de salas de leitura e realização de bienais de livros. A semente já foi plantada e estamos aqui para contribuir com a formação de novos leitores”, explica o curador do Festival, Antonio Nunes Barbosa Filho.

CONVIDADAS 

Fundadora do projeto Espantapájaros (Espantalho), especializado em literatura infantil e considerado um dos centros de iniciação para muitos escritores do gênero, a escritora Irene Vasco tem mais de vinte obras publicadas que já lhe renderam vários prêmios. Também desenvolve um trabalho na Colômbia para formação de novos leitores.
Graduada em educação artística e habilitação em artes plásticas pela Faculdade de Belas Artes de São Paulo e, especialista em educação ambiental pela Universidade de Santo Amaro, Nireuda Longobardi é arte educadora, escritora e ilustradora de livros de literatura infantil. Seu livro Mitos e lendas do Brasil em cordel foi selecionado para o catálogo da Fundação Nacional do Livro Infantil Juvenil (FNLIJ) e representou o Brasil em feira infantojuvenil realizada na Itália.
(Fonte: CorreioWeb)
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Jornalista que foi correspondente em Teerã lança livro sobre Irã

Há muitos mitos sobre o Irã e eles perpassam diferentes aspectos dessa sociedade milenar. Da situação das mulheres ao programa nuclear, a imagem do país é rodeada de polêmicas nem sempre fundamentadas. O jornalista Samy Adghirni constatou que boa parte delas nascem do desconhecimento. Ex-repórter do Correio e correspondente em Teerã para a Folha de S. Paulo durante quase três anos, ele passou por uma imersão completa na sociedade iraniana para sair de lá com uma compreensão mais profunda e real do país. Foi com essa experiência e um texto objetivo que o repórter escreveu Os iranianos.

Com lançamento marcado para hoje na Livraria Cultura do Casa Park, a partir das 19h30, o livro abrange desde a história iraniana até os costumes e o papel geopolítico de um dos países mais antigos do mundo. “A ideia é apresentar o Irã de maneira ampla, didática e abrangente”, explica Samy. “É pegar o leitor pela mão. Todo dia, o Irã está nos noticiários, no jornal, e ninguém sabe nada sobre o país”, completa. Império persa antes de Cristo e potência da Ásia Central durante mais de quatro séculos, o país ficou conhecido na contemporaneidade pelo seu radicalismo religioso, com um governo teocrático, e pela insistência em manter um programa nuclear alardeado pelo Ocidente como perigoso e instável. Em Os iranianos — 12º volume da coleção Povos e Civilizações, da Editora Contexto —, Samy Adghirni dá ao leitor ferramentas para compreender como e por que muitas dessas ideias ajudaram a construir a imagem do país.

O mito principal em torno do Irã é aquele que o descreve como retrógrado e atrasado. “Mas é o oposto disso”, avisa Samy. “Eles têm uma população sofisticada que tem modos de vida mais parecidos com a gente do que nós imaginamos.” O papel e as liberdades das mulheres estão entre as questões que ajudam a pintar uma imagem negativa da sociedade iraniana. “Há uma emancipação relativa das mulheres que, claro, se comparada à da Suécia, é feia, mas na região, é a mais avançada”, diz o jornalista.

Diferenças
Ao contrário do que acontece em alguns países da região, as iranianas podem se dirigir aos homens sem que estes sejam marido ou parentes. Também podem circular sozinhas, e algumas ocupam postos de comando em empresas e na política do país. Estudar e trabalhar são atividades praticadas por 90% das mulheres. Por lá, segundo o autor, elas estão mais inseridas na sociedade do que na maioria dos outros países islâmicos. Mulheres pilotam aviões, conduzem tribunais e dirigem ministérios. Mesmo assim, a lei islâmica é dura e as mulheres devem andar na parte de trás dos ônibus, são obrigadas a usar o véu e proibidas de vestir roupas coloridas. O único adultério passível de execução é o feminino, mas a morte por apedrejamento está, em tese, abolida.

(Fonte: CorreioWeb)

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Consumo da literatura é mediado pelas redes sociais

Estudo apresentado na Flip mostra que web virou ferramenta para disseminar o texto literário

Estudo apresentado na Flip mostra que web virou ferramenta para disseminar o texto literário

O consumo de literatura é cada vez mais mediado pelas redes sociais. No entanto, o impacto dessas mídias na produção, consumo, distribuição e troca de trabalhos literários ainda não foi mensurado a contento. Para Fabio Malini, coordenador do Laboratório de Pesquisador sobre Imagem e Cibercultura (Labic) da Universidade Federal do Espírito Santo, essa transformação traz novos públicos, novos espaços de circulação da literatura e novos mediadores, transformando a obra literária de diferentes escritores em discursos espalhados pela internet, fazendo de alguns autores celebridades da rede.

Para preencher em parte essa lacuna, Malini dedicou-se a observar a propagação da literatura brasileira no Twitter e no Facebook. A pesquisa, encomendada pelo Itaú Cultural, será apresentada nesta quarta na programação da instituição na Flip, e publicada na edição 17 da revista “Observatório cultural”.

O estudo mostra que a propagação de citações é o modo mais utilizado para disseminar o texto literário nas redes sociais. Na literatura contemporânea, observa-se a construção de um autor que, ao mesmo tempo, publica e constitui uma relação íntima com seus públicos na rede. E estes espalham visões críticas e afetos pelas obras que lhe interessam.

— O consumo de literatura nas redes sociais vem alterando o comportamento dos escritores. Em seus perfis, eles passaram a revelar bastidores de seu processo de produção, ao mesmo tempo em que divulgam suas obras. Especialmente os autores dedicados ao público juvenil: esses estão em constante presença nas redes, quase como personagens — explica Malini, lembrando que a escritora Thalita Rebouças é uma das autoras brasileiras de maior público no Facebook, com mais de 300 mil fãs que interagem continuamente com sua página na rede social.

Segundo o pesquisador, Thalita faz de sua página uma espécie de diário virtual reproduzindo a própria discursividade adolescente na rede. No lugar de um narrador mais recolhido, dedicado à obra, a escritora radicaliza a linguagem do selfie, com inúmeros autorretratos. Assim, seu público pode consumir não apenas a sua literatura, mas a sua vida. É uma situação de alta visibilidade em tempo real.

Mas não é só o público juvenil que está em busca de um contato mais próximo com escritores nas redes sociais. Malini acredita que essa avidez por comunicação cria uma geração de autores mais abertos em sua subjetividade literária, motivados por um público que deseja vislumbrar uma produção até então baseada no recolhimento.

— O público não só busca maior compreensão da obra de seus autores favoritos, como também gosta de observar sua visão de mundo, suas posições políticas — observa o especialista.

Outro aspecto do consumo de literatura nas redes é a cultura de fãs de autores que já morreram, tais como Machado de Assis, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, Mário de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Paulo Leminsky e Caio Fernando Abreu.

Os autores mais citados pelo mundo acadêmico não são os mais populares nas redes sociais. Obras de Guimarães Rosa, Graciliano Ramos e Mário de Andrade são menos citadas, curtidas e compartilhadas. Já as do poeta Carlos Drummond de Andrade e do escritor Machado de Assis alavancam diferentes apropriações pelos usuários. As páginas de Drummond, Caio e Clarice são as campeãs de fãs no Facebook: juntas mobilizam mais de 1 milhão de seguidores.

— Os perfis desses autores brasileiros já falecidos geralmente são administrados por literatos ou escritores. Daí a cultura do remix literário, ou seja, a liberdade que esses administradores de fan pages têm em assumir características marcantes do autor e criar suas próprias frases, numa espécie de emulação. Citações que têm algo de autoajuda quando tiradas de seu contexto fazem muito sucesso. Em alguns casos, servem como indiretas ao serem compartilhadas — detalha o acadêmico sobre o comportamento do leitor brasileiro na web.

Paulo Leminski, por exemplo, começou a ser muito citado no Facebook na época das manifestações que tomaram as ruas do país, há pouco mais de um ano. Esse movimento nas redes sociais levou a antologia “Toda poesia” de Leminski a figurar diversas semanas na lista de mais vendidos.

Ecoando o desejo dos manifestantes de humanizar o espaço urbano, um poema de Leminski (“Ainda vão me matar numa rua. Quando descobrirem, principalmente, que faço parte dessa gente que pensa que a rua é a parte principal da cidade”) foi retuitado centenas de vezes. Nos dias 15 e 16 de junho de 2013, a tag #todarevoluçãocomeçacomumafaísca esteve entre as mais populares no Brasil, uma alusão à trilogia juvenil “Jogos vorazes”, outro best-seller.

A tese de que perfis de redes sociais não discutem literatura em tempo real é uma especulação simplista, acredita Malini. A rede se tornou um manancial de novos críticos, novos mediadores da literatura, por onde as obras da nova geração e dos autores “mortos” ganham vida e sobrevida.

— É impressionante o que as redes sociais têm feito pela popularização da poesia brasileira, gênero historicamente renegado. É reducionista acusar a rede de gerar um consumo fácil e rápido de literatura, assim como é simplista acreditar que só o livro oferece leitura de qualidade. As redes sociais são portas de entrada para leitores, escritores e críticos, democratizando o consumo e a produção literária — acredita Malini.

(Fonte: O Globo)

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‘Eu não quero morrer à toa’, diz Davi Kopenawa em Paraty

Líder ianômami ameaçado de morte diz que até agora não recebeu proteção da polícia

Líder ianômami ameaçado de morte diz que até agora não recebeu proteção da polícia

Ameaçado de morte por garimpeiros, o líder ianomâmi Davi Kopenawa chegou nesta quarta-feira à Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) e está hospedado —por uma ironia sombria — na Pousada do Ouro. Conhecido internacionalmente por sua militância, ele diz que as atuais ameaças são as mais graves que já recebeu e, por isso, teme pela segurança do filho. Kopenawa também denuncia o que seria uma negligência das autoridades em oferecer proteção a ele e seus colaboradores.

— Fui denunciar as ameaças ao delegado da Polícia Federal em Boa vista, mas acho que ele não está interessado em ajudar o povo indígena. Disse que não podia prometer nada para nos proteger — afirma Davi. — Então estou sem proteção das autoridades. Estou protegido por nós mesmos. Sem armas.

O líder indígena passou um mês com “sua comunidade”, afastado da cidade, onde, diz ele, os garimpeiros não podem encontrá-lo. Mas afirma estar preocupado com seu filho, que também milita pelos direitos ianomâmi.

— Eu não tenho medo deles, mas não quero morrer à toa, sem fazer nada. Meu trabalho é lutar para defender meu povo. A minha luta é para defendê-lo e preservar a natureza — diz Davi. — Eu gostaria muito que a Funai conversasse com a Polícia Federal, que tem o dever de proteger qualquer pessoa. Todas as pessoas que trabalham comigo estão sem proteção.

A Hutukara Associação Yanomami (HAY), organização presidida por ele, divulgou quarta-feira uma carta aberta em que conta que um diretor da HAY foi informado por garimpeiros que Davi “não chegaria vivo até o fim do ano”. A sede do Instituto Sócio-Ambiental também foi assaltada por homens armados, que levaram computadores e outros equipamentos eletrônicos. As duas organizações têm sido rondadas por motoqueiros. A causa provável apontada na carta é o fato de a HAY colaborar com investigações da Funai e da Polícia Federal para expulsar o garimpo da terra ianomâmi.

— Eu fico revoltado, porque eles (os garimpeiros) trazem doenças, são violentos, matam nossos parentes. A PF tem a responsabilidade de impedir as invasões — cobra Davi.

(Fonte: O Globo)

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Mesa de abertura relembra múltiplas faces de Millôr

Amigos contam histórias bem humoradas sobre o homenageado

Amigos contam histórias bem humoradas sobre o homenageado

Na abertura da 12ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), na noite desta quarta-feira, as várias faces do autor homenageado deste ano, o carioca Millôr Fernandes, morto em março de 2012, estiveram presentes. Enquanto o cartunista Jaguar, numa divertida entrevista feita pelos humoristas Hubert e Reinaldo, lembrou histórias engraçadas da carreira de Millôr no “Cruzeiro” e no “Pasquim”, o crítico de arte Agnaldo Farias tratou de um aspecto menos analisado de sua obra, o de artista plástico.

A noite da 12ª edição da Flip foi apresentada por Mauro Munhoz, diretor-presidente da Casa Azul, instituição que organiza a festa, e por seu curador, Paulo Werneck. Juntos, eles lembraram de quatro autores que já participaram de outras edições da Flip e que morreram recentemente: Munhoz citou a sul-africana Nadine Gordimer, enquanto Werneck falou dos brasileiros João Ubaldo Ribeiro, Ariano Suassuna e Edson Nery da Fonseca.

Em seguida, foi a vez de o crítico de arte mineiro Agnaldo Farias subir ao palco para abordar um lado, nas palavras do conferencista, “negligenciado” da obra de Millôr: o da pintura e do grafismo. Segundo ele, as artes plásticas nunca tiveram o espaço merecido no Brasil, o que se intensificou ainda mais com Millôr devido à ironia presente em seus trabalhos.

— Acho que ele foi negligenciado por ser bem-humorado, enquanto o campo da historiografia é mal-humorado. E eu venho aqui defender a importância do humor, da ironia em sua capacidade de mostrar a pluralidade dos fatos.

Em cerca de 40 minutos, Farias projetou em telas na Tenda dos Autores obras de Millôr e de artistas que teriam influenciado sua obra. Em vários momentos, ele enfileirava os traços do homenageado e de nomes como Picasso, Miró, Saul Steinberg, Paul Klee e Jackson Pollock, entre outros. O crítico divertiu a plateia com uma amplitude de referências que foram de Pedro Nava a João Gordo.

— Você diria que esses dois traços são da mesma pessoa? — questionou Farias, ao mostrar uma imagem multicolorida de relógios na parede e outra de uma pessoa nua com linhas minimalistas, ambas de Millôr.

Depois da conferência, entrou em cena o cartunista Jaguar, amigo de Millôr por décadas e seu colega de redação no “Pasquim”. Ele foi entrevistado pelos humoristas Reinaldo e Hubert, da turma do “Casseta e Planeta”, que começaram a carreira no “Pasquim”, num bate-papo de uma hora que arrancou gargalhadas da plateia.

Reinaldo e Hubert abriram a conversa falando sobre a importância de Millôr para eles. Depois, Jaguar levou a plateia às gargalhadas com as histórias de sua amizade com Millôr. Lembrou que começou na carreira mostrando desenhos ao irmão dele, o também jornalista Helio Fernandes.

— O Helio disse: “Sou irmão do maior cartunista do Brasil, e esses seus desenhos são horríveis! — lembrou Jaguar. — Depois levei os desenhos para o Millôr, e ele deve ter encontrado algum resquício de humor ali, porque me deu força.

Anos depois, os dois trabalharam juntos na mítica redação do “Pasquim”, jornal alternativo que chegou a vender 200 mil exemplares mesmo em tempos de ditadura. A pedido de Hubert, Jaguar lembrou a ocasião em que grande parte da equipe do “Pasquim” foi presa. Millôr foi um dos poucos que escapou e continuou a tocar os trabalhos.

— Tudo no Brasil é uma esculhambação, inclusive a repressão. O carro da polícia estava cheio e não tinha lugar para o Millôr. Eles avisaram: “A gente volta amanhã!”. E o Millôr, que sempre foi um cara brilhante, se mandou – divertiu-se Jaguar.

No fim da mesa, o cartunista leu um pequeno perfil dele escrito por Millôr há mais de 50 anos, com a ironia típica do escritor: “Com seu talento, Jaguar, eu não estaria aqui, estaria no corredor da morte nos EUA”.

(Fonte: O Globo)

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Ferréz: ‘As crianças deixaram de ser vistas como a solução para se tornar o problema’

Escritor relança livro infantojuvenil na Flip e vai coordenar selo de literatura marginal

Escritor relança livro infantojuvenil na Flip e vai coordenar selo de literatura marginal

“Eu queria fazer um livro para quem nenhum autor escrevia: uma menina negra e pobre da periferia”. Assim, o escritor paulistano Ferréz define o seu “Amanhecer esmeralda”, sua estreia na literatura infantojuvenil publicado em 2004 e que será relançado pela DSOP durante a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Na editora, o escritor também vai coordenar o selo “Literatura Marginal DSOP”, todo dedicado a autores da periferia. É uma continuação do trabalho que ele desenvolve desde 1999.

Em entrevista ao GLOBO, o escritor falou sobre a situação das crianças nas áreas pobres das grandes cidades, as manifestações que explodiram no país desde junho do ano passado e aposta que a literatura chamada marginal pode sim disputar espaço com best-sellers. Nesta quinta-feira, ele participar da mesa “Sociedade e literatura”, às 10h30m, na FlipZona, e depois, às 14h30m, participa de lançamento oficial de “Amanhecer esmeralda” na casa da editora em Paraty.

O GLOBO: Dez anos se passaram desde que você lançou “Amanhecer esmeralda”. Como você essa obra hoje? Gostaria de mudar alguma coisa?

FERRÉZ: Esse é um livro que eu nunca deixei de ler nos eventos que eu faço, nas palestras que eu dou. É uma história inspiradora, de como pequenos atos de várias pessoas podem transformar a vida de uma criança. Comecei a escrever essa história porque queria fazer um livro para quem nenhum autor escrevia: uma menina negra e pobre da periferia. E também porque as pessoas me peguntavam o que podiam fazer para ajudar e eu quis mostrar que mesmo as pequenas ajudas são muito importantes. Esse livro me deu muitas alegrias. Uma vez visitei uma escola e tinha uma sala só com bonecas feitas pelos alunos da “Manhã”, estavam fazendo obras na escola porque leram no livro que tinham que meter a mão na massa e não ficar esperando.

O GLOBO: Nesses dez anos, a vida das crianças na periferia mudou ou não?

FERRÉZ: O Jardim das Rosas (comunidade na periferia de São Paulo) continua sem rosas, as condições mínimas ainda não existem. Não mudou nada nesses dez anos. Quando leio a história da “Manhã”, é a história do meu pai, dos meus vizinhos. As crianças deixaram de ser a solução para se tornar o problema. Se um garoto se aproxima, você não passa a mão na cabeça dele e pergunta o que ele quer ser quando crescer. Você se afasta porque acha que ele vai te pedir dinheiro. Se você chega perto de uma criança, o pai já acha que é besteira. O mundo ficou mais cruel.

O GLOBO: Desde junho do ano passado, as manifestações explodiram no Brasil. Qual foi o impacto delas nas periferias?

FERRÉZ: Na periferia sempre teve atos, só que menores. Eles cresceram, só que a massa da periferia não aderiu aos protestos. Essas pessoas levam uma vida preocupada: preocupada com o salário, com o emprego, com o aluguel. Se essa massa tivesse aderido, teríamos uma grande mudança no Brasil. Mas isso não aconteceu. É difícil mobilizá-los. Chegam em casa cansados à noite, só querem dormir para conseguir aguentar o dia seguinte e acham que o país vai melhorar para eles também, apesar do sofrimento deles. Nossa missão é também abrir os olhos dessas pessoas.

O GLOBO: Como será o trabalho nesse novo selo de literatura marginal? Quais os lançamentos previstos?

Eu comecei com o meu selo “Literatura Marginal” em 1999, então a ideia é dar continuidade a esse trabalho de publicação de autores da periferia. A parceria com a DSOP surgiu a partir das conversas para o relançamento do “Amanhecer esmeralda”. O primeiro a ser lançado nessa nova fase será um livro do centenário do Palmeiras do Marcos Teles, um autor que eu já publiquei. Vamos lançar também o Rodrigo Siriaco, chamado “Te pego lá fora”, que se passa no ambiente escolar. Vamos pôr outra geografia na literatura. Já tem Higienópolis e Copacabana demais. Quem vai decidir o que vai ler é o leitor, se quer a história de um cara que cria poodles num apartamento ou a história das ruas.

(Fonte: O Globo)

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Escritor carioca fala hoje na Tenda dos Autores e em mesa do GLOBO

Representante da 'poesia marginal' dos anos 1970, Charles Peixoto lança obra reunida na Flip

Representante da ‘poesia marginal’ dos anos 1970, Charles Peixoto lança obra reunida na Flip

Em 1975, um grupo de jovens poetas do Rio começou a promover encontros públicos que, na fase mais repressora da ditadura, chamavam atenção pelo despojamento e pela irreverência. “Poesia – quadrinhos – super 8 – música – butiquim lúdico – circus”, anunciava o cartaz do evento de estreia, na Livraria Muro, em Ipanema. Em outra edição, nos pilotis do MAM, artistas, público e desavisados que passavam pelo local acabaram cercados pela polícia – e conseguiram escapar cantando e sambando, disfarçados de bloco de carnaval.

Esses happenings, batizados de Artimanhas, eram organizados (embora esta talvez não seja a melhor palavra para definir o ambiente de caos alegre em que ocorriam) pela Nuvem Cigana, grupo formado por Chacal, Bernardo Vilhena, Ronaldo Santos, Guilherme Mandaro e Charles Peixoto. Um pouco do clima da Nuvem estará na Flip nesta quinta-feira, com a presença de Peixoto em dois eventos

Às 12h, na Tenda dos Autores, ele divide a mesa “Poesia e prosa” com Eliane Brum e Gregorio Duviver. Às 18h, na Casa da Cultura, conversa com a cantora, compositora e escritora Adriana Calcanhotto na mesa “Versos de risco”, promovida pelo GLOBO. Será uma oportunidade para os leitores recordarem como se formou, despretensiosamente, um dos principais movimentos da cultura brasileira recente: a “poesia marginal” dos anos 1970.

— Na época não tínhamos nenhuma “intenção”, a gente simplesmente fazia. Era uma espécie de reação, uma válvula de escape para a repressão. Passados tantos anos, a gente percebe que fez a cabeça de muitas pessoas. Fico emocionado com o respeito e o carinho com que o pessoal fala da nossa geração. Nunca imaginei que isso podia acontecer – diz Peixoto, de 65 anos.

Uma amostra significativa dessa “reação” da poesia marginal em tempos de ditadura pode ser encontrada na obra reunida de Peixoto, “Supertrampo” (7Letras), lançada na Flip. O livro percorre mais de 40 anos, da estreia em 1971, quando o poeta de 23 anos lançou “Travessa Bertalha 11” em 100 exemplares mimeografados, até os inéditos mais recentes.

Nos versos ágeis e tensos dos primeiros poemas, Peixoto fala do misto de repressão e desbunde da década de 1970: “as pessoas se encolhem num canto da cabeça/ e podem pensar em absolutamente nada/ por muitas vezes/ passam pela gente autoritárias e nervosas/ outras têm o universo e voam”. No livro “Coração de cavalo” (1979), o poeta “cansado de tanta interferência”, despeja agressividade: “em cana eu não vou mais/ o reitor é um pulha/ sua mãe é uma cadela/ o departamento um excremento/ abaixo a linha dura/ qualquer linha/ o que der na telha”. A “nuvem negra” da repressão era aliviada pela interlocução com poetas e leitores:

— A gente recebia coisas do Brasil inteiro. Chegava poema até do Acre, em livrinhos que o pessoal fazia como podia — lembra Peixoto.

Em 1985, porém, ele teve uma decepção quando soube que boa parte da tiragem de seu livro então recém-lançado, “Marmota platônica”, estava encalhado nos estoques da editora.

— Vi aquela pilha de livros e fiquei chocado. Pensei: bicho, qual é o objetivo disso? Gastar árvore pra fazer comida de cupim? Me deu uma deprê.

Parou de publicar, mas não de escrever. Acumulou poemas na gaveta enquanto trabalhava como roteirista da Rede Globo, em programas como Armação Ilimitada (atualmente, trabalha na novela “Rebu”). Só 26 anos depois, em 2011, por insistência dos amigos, voltou a lançar um livro, “Sessentopeia” (7Letras). Nesses poemas, assim como nos inéditos de “Supertrampo”, o poeta maduro encontra outros baratos: A visão da filha “me deixa louco como um haxicharuto” e a mulher amada “não é vizinha/ mas inquilina do sol/ não é mais o velho ácido/ apenas água cristal”.

Peixoto se diverte ao falar do processo de rever a própria “obra”: dos primeiros poemas mais líricos, passando pelos versos rascantes do período da ditadura, até chegar ao estilo atual, de “curtição com a palavra”.

— Nunca pensei muito nisso da “bagagem literária”. Quando comecei a fazer a poesia reunida eu queria radicalizar, tirar tudo. Mas deixei muita coisa. Foi legal ver a curva do trabalho no tempo.

(Fonte: O Globo)

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Revista Mundo Nerd realiza bate-papo sobre Harry Potter em São Paulo

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Quinta-feira, 31 de julho, a loja Geek.Etc.Br (Conjunto Nacional, Alameda Santos, 2.152, São Paulo/SP) e a revista Mundo Nerd receberão todos os fãs do mais famoso aluno de Hogwarts para uma conversa sobre a saga de J.K. Rowling e comemorar o aniversário da escritora inglesa.

Será um bate-papo com a equipe da revista, que traz na capa da nova edição a matéria Como o fenômeno Harry Potter mudou o mundo.

O evento terá início às 19 horas.

(Fonte: Universo HQ)

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Millôr Fernandes será tema de exposição, palestras e relançamentos na Flip

Página 52 da revista O Cruzeiro de 23 de julho de 1960, com a coluna Pif Paf de Emmanuel Vão Gôgo, pseudônimo de Millôr Fernandes

Página 52 da revista O Cruzeiro de 23 de julho de 1960, com a coluna Pif Paf de Emmanuel Vão Gôgo, pseudônimo de Millôr Fernandes

A escolha do nome como homenageado foi tão natural quanto o convite para Millôr participar da primeira Flip, em 2003

Millôr Fernandes era um pensador, um filósofo de superfícies e profundidades. Usava como método desenhos, frases curtas e haicais. Tudo que ele queria dizer estava ali em traços espontâneos, soltos e leves de imensa habilidade. Íntimo de cores e materiais, fazia festa com nanquim, guache, lápis, cera ou computador. Um gênio, segundo amigos e colegas que trabalharam com ele. “O Millôr é o mentor, o capitão de um time admirável, de uma geração prodigiosa. Fortuna, Claudius, Ziraldo… todos foram influenciados por ele”, conta o cartunista Cássio Loredano, consultor do Instituto Moreira Sales sobre o acervo de Millôr. E acrescenta: “Ele é um curinga. O homem dos sete instrumentos. Ele é excelente. Não tem uma coisa em que se destaque mais.”

A segunda passagem de Millôr Fernandes pela Flip vai ser agitada. Será impossível não esbarrar no humorista durante os quatro dias de festa. O guru do Méier (bairro da Zona Norte do Rio) será tema de exposição, palestras, homenagens e relançamentos. A escolha do nome como homenageado foi tão natural quanto o convite para Millôr participar da primeira Flip, em 2003.

Quando colocou o nome do carioca na lista de prováveis homenageados, no ano passado, o curador Paulo Werneck conta que viu os olhos dos colaboradores brilharem. “Ele tem uma coisa muito interessante que é o trânsito entre o pop e o erudito. Ele poderia ter se encastelado nos livros, no teatro, mas não, ele resolveu produzir para o público das revistas brasileiras semanais. E isso do começo ao fim. Até o fim ele estava lá, rabiscando nos jornais. Acho importante ter um intelectual erudito como o Millôr, que tenha se voltado para a massa. Isso é revolucionário”, acredita Werneck. Como parte da homenagem, a organização da Flip vai publicar o Daily Millôr, um jornal em cinco edições que será escrito à moda do humorista. O texto e as ilustrações vão ficar por conta de Antonio Prata, Luis Fernando Veríssimo, Chico Caruso, Reinaldo e Ivan Fernandes, filho do escritor. O homenageado também terá sua história contada na exposição Millôr, 90 anos de nós mesmos na Casa de Cultura de Paraty.

Precoce

Para o curador da Flip, Millôr era muito mais que um humorista ou um ilustrador. Ele vem de uma tradição de intelectuais múltiplos e abertos ao mundo, além de ter sido um dos primeiros brasileiros a sofrer a influência das histórias em quadrinhos, que chegaram ao Brasil em 1934. “Millôr tinha 10, 11 anos e foi um dos primeiros a conhecer esse negócio que na época se chamava ‘historietas’. Todas as gerações brasileiras depois foram educadas pelo quadrinho também, só que às vezes a gente esquece isso por força do preconceito intelectual que existe”, diz Werneck.

Três perguntas para Claudius

Que lembranças da convivência com o Millôr mais te marcaram?

Creio que o que mais me marcou no Millôr foi sua fidelidade a si mesmo, seu destemor de livre-pensar. Eu era adolescente, aí pelos 16 anos., quando trabalhava de dia na seção de diagramação da revista O Cruzeiro e estudava à noite. Millôr era uma de minhas referências mais fortes, porque desde criança eu lia a seção O Pif Paf do Cruzeiro, uma das revistas semanais que meu pai comprava regularmente. Há uma teoria que diz que não devemos conhecer as pessoas que admiramos, porque podemos nos decepcionar irremediavelmente. É aquela coisa do dito popular “de perto ninguém é normal”. Mas conhecer o Millôr e gozar de sua amizade foi uma das melhores coisas que me aconteceram na vida. Ao longo dos anos ele sempre foi um incentivador, cuja opinião sobre meu trabalho, não posso negar, me surpreendia e envaidecia em igual medida. Ele foi e continua sendo uma referência, um modelo de viver plenamente sua vida e exercer seus dons.

Diante de tudo o que ele produziu, o que mais chama sua atenção?

Tudo o que Millôr fez tinha a marca da qualidade. Ele era carioca do Meyer e seu humor tem as melhores características do que se pratica diária e popularmente nas ruas, nos bares, nos ônibus, trens e metrô, na praia ou na favela. Millôr refinou esse humor, mas mantendo-o genuinamente popular, imediatamente identificável, capaz de instantânea comunicação. Sendo local, esse humor é paradoxalmente também universal. Imagino o que teria acontecido se o Millôr escrevesse em inglês. E aí está um desafio: bem traduzí-lo, preparando o público para poder usufruir plenamente da genialidade de nosso bardo, da maravilhosa qualidade do seu texto e pensamento.

O que você caracterizaria como a marca do trabalho dele, em todas as linguagens: teatro, artes gráficas, literatura… levando em consideração a independência dele diante dos regimes políticos?

Como eu disse, ele era bom em tudo o que fazia. O desenho espontâneo, solto, livre, escondia uma imensa habilidade de traço. Quando coloria, era uma festa, qualquer que fosse o material que utilizasse – nankin, aguada, guache, lapis cêra ou computador. Mas talvez seja o seu texto o que revela muito mais a amplitude de sua capacidade intelectual, é o que permanecerá de mais forte: o fino humor, a ousadia de criar Hai Kais (seu livro de hai kais é simplesmente extraordinário), as peças  teatrais e os roteiros para cinema que escreveu, as traduções extremamente cuidadosas, inovadoras. Difícil arriscar-se a dizer o que sobressai em meio a tantas demonstrações de talento.

Quanto aos regimes políticos, creio que o senso de humor permitiu que Millôr os relativizasse, reduzindo-os às suas verdadeiras dimensões, por vezes mesquinhas, ridículas, insignificantes. Demonstrou uma coragem provocadora, altiva, durante a ditadura e não poupou todos quantos vieram depois, distribuindo igualmente entre eles o seu humor vitriólico. Mas não deixou de tomar posição, publicamente, quando julgou necessário. Sua defesa de Brizola como o melhor candidato a governador do Rio de Janeiro nas eleições de 1982, usando o seu  espaço para falar bem dele, numa publicação cuja linha editorial pintava Brizola como um demonio, é um exemplo de independência tão extraordinário quanto – infelizmente –  raro.

(Fonte: CorreioWeb)

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