Arquivos mensais: outubro 2013

HOJE ACORDEI MUITO CEDO E JÁ VIVI DEMAIS

Ricardo Labuto Gondim

    Minha pressão sobe quando estou sob pressão. E essas pílulas rosadinhas, os anticoncepcionais do infarto e do AVC me diluem. A saída é caminhar de oito a doze quilômetros por dia. Aí o metrônomo volta a marcar doze por oito. O problema é que tinha saído na sexta e me embebedado. Ido ao casamento de um amigo no sábado e me embebedado. O domingo eu passei imantado à cama. Na segunda, medi dezesseis por não-quero-nem-ver, e marchei quatorze quilômetros ouvindo a V de Mahler com Scherchen, pra pegar embalo. Desaguei na pracinha em Cascadura onde Marisa media a pressão por dois reais em uma mesa de armar, debaixo da laje do mercadinho.
    Enquanto Marisa recolhia as borrachas do esfigmomanômetro, dobrei algumas notas, empurrei na caixinha forrada de papel com carneirinhos que lembravam lobos, estiquei a toalha de algodão encardido por hábito, beijei-a no rosto por hábito e desejei boa tarde automaticamente. Ela sorriu:
     – Que isso, garoto. Ainda são onze horas.
    Quando estiver beirando os cinquenta e alguém te chamar de ‘garoto’, ponha-se alerta. Nada é mais ridículo que a ilusão de juventude. Não tropece. Marisa estava muito além dos setenta, era só uma questão de proporção.
     – Pensei que fosse mais tarde — eu disse. — Hoje acordei muito cedo e já vivi demais.
    Ela gargalhou. Tinha uma nota no olhar, uma corda secreta ressoava. Orgulho-me de ler as pessoas, mas não passei além da retina. Vi paixão, saudade e fel no Egito em seus olhos, mas não decifrei a esfinge. Isso me incomodou:
     – A pressão tá alta, né?
     – Nada. Treze por oito. Você só tá meio descompassado.
     – Marisa, eu não resisto, desculpa: que riso foi esse? Que cara é essa?
     – A gente envelhece, não amadurece. Não dá tempo de amadurecer.
     – A gente confunde arrependimento com amadurecimento, concorda?
     – Ô. Era no que eu tava pensando.
    Ela colou as mãos nos lábios e soprou um daqueles beijos que te varrem pra longe. Estiquei até Madureira na ambição do compasso doze por oito, semínima igual a noventa.
    Voltei de trem porque sou suburbano. O Brasil estava inteiro no vagão menos eu. Envelhecendo, me torno invisível. Ninguém me notou na UTI do transporte carioca. Desci na estação do Méier tentando escapar de mim. Ia me arrastando pra casa quando alguém gritou meu nome. Tremi e senti a pressão desandar: Helena.
    Se estivesse escrevendo um romance, em um capítulo não faria jus à beleza daquela mulher. Helena tinha o rosto e um corpo capazes de envergonhar os mármores e bronzes da Europa. Ela era o meu argumento a favor da clonagem humana.
    Não nos víamos há tempos. Ela me abraçou, me festejou, avisou que ia casar dali a meia hora e apontou o cartório a três passos:
     – Eu desci pra recrutar uma testemunha – disse, rachando de rir. – Foi tudo tão estranho. A gente resolveu de repente. Que bom que foi você.
    É. Que sorte a minha.
    Eu estava de short e não podia entrar na sobreloja. Uma senhora muita gorda e entediada surgiu com a calça que alguém perdeu na festa de inauguração do cartório, em algum momento do Período Hadeano:
     – Toma, meu filho. Devolve na saída. Isso de alguém precisar de calça é toda hora.
    “Meu filho”, ela disse. Olhei para a Helena, dois anos mais velha que eu e ainda cintilando:
     – Mulher, você merecia um sequestro.
    Na sobreloja conheci o eleito que se chamava – acredite, eu não minto – ‘Olavo’. De parnasiano não tinha nada. A palavra ‘parnasiano’ não caberia em seu vocabulário. Eu tinha me embebedado duas vezes na mesma semana, caminhado dezesseis quilômetros no calor inclemente de Cascadura e Madureira, vestia uma camisa rajada de linhas brancas de suor e uma placa de Petri sobre o short causando urticária. Ainda assim o camarada me encarou como uma ameaça. Um perigo. Um lobo.
    A antipatia foi mútua e instantânea. Uma mulher insegura tem lá a sua graça e o seu charme. O homem inseguro não tem alternativa, é brutal ou é patético. O Olavo era um babaca insolente que tratava mal o pessoal do cartório. Já percebeu como as pessoas que trabalham em cartórios se confundem com a mobília? Notou como são mecanicamente pacientes ao responderem perguntas? Observou o desespero com que olham para o relógio? Nem todos os títulos e ouro da Terra justificariam o desdém do Olavo contra os que agonizavam no cartório. Se não fosse pelos olhos, cintura, nariz (que nariz), peitos, quadril, boca, as coxas e a bunda parnasiana da Helena…
    Tinha mesmo razões para temer um chifre, o sacana. A Helena estava ali, toda sorriso e fogo, ao alcance dos meus quarenta e oito anos e doze meses de praia. De minha parte, temia um tiro a qualquer momento, o noivo tinha algo de homicida.
    Dane-se. Não faz diferença. A velhice…
    O erro do Olavo foi se concentrar demais no contrato de casamento. Difícil de entender, né, Olavo? Segurei Helena pelo braço, mergulhei dentro dos olhos, varei todas as muralhas do seu Eu e disse com a solenidade que o meu amor mais antigo autorizava:
     – Isso é um erro.
    Ela me encarou como se eu fosse estúpido por ignorar as virtudes do seu amado – que, por razões inexplicáveis, devia considerar ostensivas. Como o olhar persistia, minha imaginação sofreu uma trombose: Olavo é privadamente um poeta que leva o café na cama todas as manhãs; Olavo é um insaciável atleta de alcova; Olavo é um eleito dotado de paciência, sabedoria humanística e de uma anatomia de proporções mitológicas. O que ele tem, afinal? No quesito dinheiro estávamos empatados, era óbvio que nenhum dos dois tinha cobre.
    Então o rosto de Helena desanuviou. Ela me fixou com resignação e uma mistura confusa de alegria e de tristeza. Partiu-me em dois:
     – É claro que é um erro.
    A cerimônia foi um ato jurídico mecânico que eu não vi acontecer. Assinei o livro, parabenizei todo mundo dos dois lados do balcão e desci antes do feliz casal. Fui interceptado à beira da escada pela senhora gorda que cobrou a devolução da calça – como se eu não estivesse doido pra me livrar daquilo antes que contraísse herpes ou coisa pior. Foi durante o strip-tease no cantinho que Helena e seu favorito passaram por mim sem darem por mim.
    Ele alcançou um táxi parado no sinal, mas foi ela quem abriu a porta e entrou puxando-o para si, com desejo e posse, agarrando o pescoço e afundando o rosto em seu peito. Ele apoiou o cotovelo na janela e me viu.
    Não sorriu nem acenou. Cravou-me os olhos imaginando – a expressão era vulgar de tão óbvia – onde, como e quando conhecera Helena, e qual a natureza das nossas relações. Saquei tudo isso enquanto me livrava da maldita calça, agradecia e voltava a ser quase eu.
    Então percebi, o rapaz era – no mínimo – dez anos mais jovem que Helena. Como não reparei antes? Rosto marcado, a vida não tinha valsado com ele. Mas ainda havia certa… Inocência? É isso? Esse ciúme arrogante não é imaturo? Acreditar que o outro é único não é ingênuo? Olavo, meu filho, nem mesmo Helena é digna dessa íntima imolação do Eu.
    A insegurança é contagiosa. Helena inclinou-se para espreitar o que ele olhava com tanto interesse e deu comigo. Uma sombra de vergonha nublou o seu triunfo. O sinal abriu, o táxi se foi e nunca mais a vi.
    Helena, meu amor, a lucidez não vai te poupar de nada. É tudo um grande erro. Mesmo que o rapaz não cresça pra te decifrar, sua loba, você há de murchar como todas as rosas. Como um dia murchou a outra Helena, que se não foi lenda hoje é pó. Não podemos ser salvos. A vida não é mais que um suicídio prolongado. Todos os caminhos do mundo levam à pracinha em Cascadura, à invisibilidade e à inconclusão.
    Entro na farmácia ao lado me julgando sábio, ofegando, pagando o preço por ser sábio e esticando o braço. “Diz pra mim, minha filha: quanto marca o metrônomo? Hã? ‘Esfigmomanômetro’? Que nome bonito. Quanto deu? Ah, garota!”
    Compasso doze por oito. Semínima igual a noventa. Pressão de menino. Bota a V com Scherchen aí que eu vou marchar enquanto posso.
    Olavo, garoto, que você se cuide.

Ricardo Labuto Gondim é teólogo, roteirista e escritor. Autor de Deus no Labirinto (contos) e B (romance policial) publicados pela Editora Baluarte.

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RETRATO DE JANE AUSTEN EM CÉDULA BRITÂNICA PASSOU POR ‘PHOTOSHOP’, DIZ ESPECIALISTA

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Uma biógrafa da escritora britânica Jane Austen (1775-1817) se mostrou irritada com a escolha de um retrato “embelezado” da autora por parte do Banco da Inglaterra, que recentemente estampou a face de Austen em suas notas de 10 libras.
Embora o retrato tenha sido aprovado pela Jane Austen Society, entidade que preserva a memória da escritora no Reino Unido, a imagem utilizada transformou-a numa “boneca bonita com olhos grandes e fofos”, segundo Paula Byrne, acadêmica da Universidade de Oxford.
Austen foi escolhida em julho para substituir o criador da teoria do evolucionismo, o cientista Charles Darwin (1809-1882), nas notas de 10 libras. No entanto, elas só devem começar a circular em 2017.
Byrne, autora da biografia “The Real Jane Austen”, disse à BBC que se trata de um “embelezamento por Photoshop do século 19”.
“Isso [a escolha do retrato] me deixa muito irritada, porque [a imagem] foi enfeitada para a era vitoriana (1837 a 1901), quando Jane Austen foi uma mulher característica da era georgiana (1714 a 1830).”
A Jane Austen Society reafirmou à BBC que o Banco da Inglaterra fez um bom trabalho, uma vez que o único retrato autêntico da escritora é um desenho feito a lápis, que está na National Portrait Gallery.
“A roupa está errada e a imagem cria o mito de que Austen era uma solteira modesta e não uma autora de pensamento profundo”, insiste Byrne. “Ela estava à frente do seu tempo e o retrato original, feito por sua irmã Cassandra, mostra uma mulher inteligente e determinada.”
O Banco da Inglaterra disse à BBC que a imagem usada por eles data de 1870 e é uma gravura produzida a pedido de James Edward Austen Leigh, sobrinho da escritora, que foi adaptada do desenho de Cassandra.

(Fonte: Folha de S. Paulo)

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DOIS LIVROS PARA FÃS DE ‘STAR WARS’ CHEGAM AO BRASIL

Star-Wars-Livros

A série Star Wars, uma das mais lucrativas da história, movimenta uma legião de fãs ao redor do mundo. Enquanto os admiradores da saga aguardam ansiosos pelos sétimo episódio da série, o lançamento de dois livros nos próximos meses promete trazer inúmeras curiosidades sobre alguns dos personagens mais famosos da franquia. “O caminho Jedi” (Editora Bertrand), do americano Daniel Wallace, funcionará como um manual fictício de treinamento da Ordem, e trará textos escritos por Jedi lendários. No volume, serão apresentados os maiores mestres, a história dos clãs, os armamentos, o vestuário, os golpes de lutas, entre outros.
Apesar de não fazer referência aos filmes, situações retratadas na telona serão citadas em algumas partes do almanaque. Cada exemplar virá com anotações de diversos personagens importantes da saga, como, por exemplo, Mestre Yoda, Conde Dookan, Obi-Wan Kenobi, Darth Sidious, Luke Skywalker e Anakin Skywalker, que escreve ainda novo, antes de se tornar o Darth Vader, e já dá sinais de que caminhará para o lado negro da força.
Logo após o lançamento de “O caminho Jedi”, em fevereiro do ano que vem chegará às livrarias o “Livro dos Sith”, um manifesto do lado negro da força — também de Daniel Wallace. O volume trará documentos escritos pelos Lordes Sith, que registravam em cadernos suas filosofias e seus esquemas para dominar a galáxia. Neste trabalho, serão apresentados os maiores mestres, o surgimento do clã, os armamentos, o vestuário, os segredos obscuros e todas as informações necessárias para entender melhor a mente desses mestres do mal.

(Fonte: O Globo)

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LANÇAMENTO DA REVISTA CIRANDA DA SOLIDÃO, DE MÁRIO CÉSAR

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Hoje, dia 31 de outubro, será o lançamento da revista Ciranda da Solidão, do quadrinhista Mário César. O evento, que ocorre no Halloween, ocorrerá no Telstar Hostels (Rua Capitão Cavalcanti, 177, Vila Mariana, próximo à estação de metrô Vila Mariana), em São Paulo, a partir das 19 horas.

A obra foi produzida a partir de uma captação de recursos pelo Catarse, e é uma publicação da Balão Editorial.
A edição traz a história de um adolescente inseguro com sua orientação sexual e com as transformações pelas quais seu corpo está passando. A eterna busca por uma cara-metade. As complicações do fim de um relacionamento de longa data. Um relato autobiográfico sobre como o autor conheceu seu namorado. Um velho ranzinza que sofre do mal de Alzheimer e que luta para não perder as memórias do grande amor de sua vida.
Essas histórias mostram como as angústias do amor são as mesmas para heterossexuais, gays, bissexuais e transsexuais.
O autor procura abordar o universo LGBT de forma natural e respeitosa, ao evitar estereótipos preconceituosos.

(Fonte: Universo HQ)

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WOLVERINE – ARMA X GANHA EDIÇÃO DEFINITIVA PELA PANINI

WolverineArmaX

Em novembro, a Panini lançará mais um encadernado de luxo: Wolverine – Arma X – Edição Definitiva (formato 17 x 26 cm, 156 páginas, capa dura, R$ 48,00).
A história, escrita e desenhada por Barry Windsor-Smith, é uma das mais clássicas envolvendo o personagem e definiu os conceitos nos quais diversos autores se basearam para desenvolver a vida de Wolverine. Lançada originalmente em 1991, nas páginas de Marvel Comics Presents # 72a # 84, ela mostra como Logan ganhou suas garras de adamantium.
Na trama, o mutante é sequestrado, desumanizado e despido até o seu âmago, reduzido a uma arma de destruição em massa. Agora, Logan precisará recobrar sua humanidade para se libertar de um perigoso programa que pretende controlá-lo e se recuperar das experiências científicas que foram realizadas com ele.

(Fonte: Universo HQ)

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PROCURE SABER AGORA SE DIZ CONTRA CENSURA PRÉVIA

Associação Procure Saber

Associação Procure Saber

A associação Procure Saber, que reúne músicos como Roberto Carlos, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque, divulgou nesta terça-feira um vídeo em que reconhece ter adotado uma posição radical em relação às biografias não autorizadas. O grupo afirma que não quer censura prévia e que confia no Poder Judiciário para encontrar uma forma de “conciliar o direito constitucional à privacidade com o direito, também fundamental, de informação”.
O vídeo, editado por João Daniel Tikhomiroff, conhecido por seu premiado trabalho em publicidade e diretor do longa “Besouro”, traz depoimentos de Roberto, Gil e Erasmo Carlos durante quase cinco minutos.
“Quando nos sentimos invadidos, julgamos que temos o direito de nos preservar e, de certa forma, preservar todos os que de alguma maneira não têm, como nós temos, o acesso à mídia, ao Judiciário, aos formadores de opinião”, diz Gil, que completa: “Nunca quisemos exercer qualquer censura; ao contrário, o exercício do direito à intimidade é um fortalecimento do direito coletivo. Só existiremos enquanto sociedade se existirmos enquanto pessoas”.
“Se nos sentirmos ultrajados, temos o dever de buscar nossos direitos. Sem censura prévia. Sem a necessidade de que se autorize por escrito quem quer falar de quem quer que seja”, afirma Erasmo.
Logo depois, Roberto diz: “Não negamos que esta vontade de evitar a exposição da intimidade, da nossa dor, ou da dor dos que nos são caros, em dado momento nos tenha levado a assumir uma posição mais radical”.
E Gil pondera: “Mas a reflexão sobre os direitos coletivos e a necessidade de preservá-los, não só o direito à intimidade, à privacidade, mas também o direito à informação, nos leva a considerar que deve haver um ponto de equilíbrio entre eles”.
A associação sustenta que não abre mão do direito à privacidade e à intimidade, mas defende que quer “afastar toda e qualquer hipótese de censura prévia”.
“Queremos, sim, garantias contra os ataques, os excessos, as mentiras, os aproveitadores”, diz Gil, completando: “O debate nos faz bem, nos amadurece, nos faz mais humanos, mais humildes. Agradecemos a todos os que se expuseram conosco, que tiveram suas vidas expostas em nome de uma ideia e que por isto foram chamados de censores”.
Roberto defende que o grupo prega a liberdade e o direito às ideias: “O direito de sermos cidadãos que têm uma vida comum, que têm família e que sofrem e amam, às vezes a dois ou na solidão, sem compartilhar com todos, momentos que são nossos”.
E Gil conclui: “Não queremos calar ninguém. Só queremos o que a Constituição já nos garante, o direito de nos defender e nos preservar”.
O vídeo termina com Roberto Carlos dizendo: “Não queremos calar ninguém, mas queremos que nos ouçam”.
Em Brasília, os presidentes da Câmara e do Senado, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN) e Renan Calheiros (PMDB-AL), defenderam a aprovação do projeto de lei que libera biografias não autorizadas. O projeto deve ser votado na semana que vem.

(Fonte: O Globo)

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CARTAS INÉDITAS CONTAM COMO STEFAN ZWEIG SALVOU PRESO POLÍTICO DE MUSSOLINI

Stefan Zweig

Stefan Zweig

A carta foi encontrada por um historiador italiano, em 2006, em meio à papelada do arquivo nacional de seu país. E era muito estranha. Nela, o escritor austríaco Stefan Zweig (1881-1942), conhecido por sua defesa do pacifismo, bajulava um personagem inesperado: o ditador fascista Benito Mussolini (1883-1945). Zweig agradecia a Mussolini por “Sua” bondade (assim mesmo, com letra maiúscula) e declarava-se um admirador. O autor dizia, ainda, que o ditador havia salvado a vida de “uma senhora torturada”.
O documento remete à história de três personagens cujas vidas se cruzam de um jeito improvável. A “senhora torturada” era Elsa Germani, mulher de Giuseppe Germani, preso pelo regime de Mussolini depois de carregar o caixão do político socialista Giacomo Matteotti, seu amigo, pelas ruas de Roma. Elsa escreveu a Zweig pedindo que ele usasse sua fama para ajudar o marido — daí a carta dele a Mussolini, que atendeu o pedido. A história ficou conhecida como O Caso Germani.
Agora, a correspondência que o escritor enviou a Elsa, inédita, chega a público no livro “Contei com sua palavra, e ela foi como uma rocha — Como Zweig salvou Giuseppe Germani dos cárceres de Mussolini”, editado pela Casa Stefan Zweig. O lançamento será hoje, às 19h, no Midrash, que também inaugura uma exposição com fac-símiles das cartas, além de um filme sobre o caso. E, no sábado, uma mostra semelhante será aberta na própria Casa Stefan Zweig, em Petrópolis, onde o autor de “Brasil, o país do futuro” viveu até se suicidar, em 23 de fevereiro de 1942.
Os eventos acontecem no momento em que o cineasta francês Patrice Leconte se prepara para lançar, em janeiro, “Uma promessa”, baseado no conto “Viagem ao passado”, de Zweig. E também enquanto o diretor Matt Zemlin roda o filme “The week before”, uma nova versão do romance “Carta de uma desconhecida”. Os dois filmes fazem referência ao Caso Germani.
As cartas publicadas agora estavam na Cidade do Cabo, na África do Sul, com a jornalista Monika Germani, nora de Giuseppe e viúva de seu filho Hans. Ela, que está no Brasil para o lançamento do livro, entrou em contato com a Casa Stefan Zweig em 2010. Kristina Michahelles, diretora da instituição, aproveitou uma viagem à África do Sul para ver as cartas e organizou a publicação.
— Em 1998, tivemos de nos mudar do apartamento onde meu sogro havia morrido. Hans me entregou um pacote e pediu que eu o guardasse, porque seria de grande interesse no futuro. Trabalhando tanto, nunca mais pensei no assunto. Só fui ler as cartas há quatro anos, quando me aposentei — diz Monika Germani.
A história começa em 1924. Político socialista, Giacomo Matteotti resolve fazer um discurso inflamado contra o fascismo. É sequestrado e morto por um comando fascista. Seu corpo só aparece dois meses depois.
Ele e Giuseppe Germani, nascido em uma família pobre, eram amigos muito próximos. O político pagou a faculdade de Medicina de Germani. E o médico, mesmo ferido na Primeira Guerra Mundial, salvou o parlamentar de uma tentativa de sequestro em 1921. Acabou apanhando, o que agravou seus ferimentos de guerra e o obrigou a passar um mês no hospital. No mesmo ano, aconteceu a famosa marcha dos “camisas negras” por Roma, marco do início do fascismo.
Germani deu sua última prova de amor à política quando o corpo de seu mentor foi achado. Num ato de coragem, carregou o caixão pelas ruas de Roma, durante o cortejo fúnebre. Virou alvo do regime. Pouco depois, ao levar dinheiro para a viúva de Matteotti — que, embora ele não soubesse, serviria para financiar um atentado a Mussolini — ele foi preso.
É aí que Elsa Germani entra em cena. Não que a coragem fosse algo atípico na mulher do médico italiano. Além de ter estudado Medicina, algo raro para uma mulher na década de 1920, ela já havia bancado Germani, um socialista, para a família conservadora. Então, resolveu pedir ajuda ao escritor austríaco já famoso, para quem andara mandando poemas de sua autoria e que tinha Mussolini como um de seus fãs.
Zweig ficou comovido com a história, e bem que tentou, ao longo de meses, convencer amigos escritores a interceder junto ao regime fascista. Mas eram anos difíceis na Itália, e todos tinham medo. Como sabia que Mussolini era admirador de seus livros, resolveu escrever para o ditador em pessoa. Bajulando Mussolini, Zweig não questiona a sentença, mas pede clemência para Germani. Poucos dias depois, Mussolini manda transferir o médico para uma prisão onde pode receber visitas. Dois anos depois, Giuseppe Germani é solto.
Zweig agradeceu ao ditador nas seguintes palavras: “Excelência, profundamente comovido e grato recebi hoje a notícia de sua generosidade. Sinto-me realmente comovido por sua bondade…”. Quando a carta apareceu, Zweig foi tratado por setores da imprensa italiana como admirador de Mussolini.
— Eu vi essas notícias que saíram na Itália, mas não era nada disso. Os radicais continuam aí, intransigentes como sempre. A missão do Zweig era salvar uma vida, e ele conseguiu. Ele teve que bajular o Mussolini, claro. Não tinha outra forma de isso ser feito — diz o jornalista Alberto Dines, presidente da Casa Stefan Zweig.
“Meu maior sucesso”
O escritor austríaco, pacifista, encarou o sucesso na libertação de Germani como uma prova de que a palavra pode vencer a força bruta. Não à toa, escreveu empolgado para Romain Rolland, um de seus mentores intelectuais: “Acabo de obter o meu maior sucesso literário, maior ainda do que o Prêmio Nobel — salvei o doutor Germani”.
— O interesse histórico das cartas para Elsa está em acrescentarem mais um elemento para entender essa relação entre mestre e discípulo. Esse episódio é muito interessante. O rompimento com o Rolland, mais tarde, foi essencial para a depressão do Zweig — afirma Dines. — Acho que a impressão dele era que, se conseguisse salvar o Germani, seria uma prova de que era possível interromper o processo de radicalização política.
Fora da relação entre Zweig e Rolland, Monika Germani conta que o engajamento político do sogro foi ruim para a família. A relação com Hans, o filho, sempre foi distante. Após ser preso por Mussolini, Germani ainda ficaria em um campo de concentração, em 1943, depois do avanço das tropas alemãs sobre a Itália. Ele preferiu isso a servir no exército de Hitler.
Sempre solitário, e deprimido depois da morte da mulher, Giuseppe se matou em 1971.
— O mais forte dessa história é o fato de mostrar um homem capaz de sacrificar a família e a si mesmo em nome do que acreditava — diz Monika.
Já Stefan Zweig, que teve o mesmo destino, nunca se vangloriou da ajuda que prestou ao médico. Só mencionou publicamente o fato em 1942, ao escrever sua autobiografia.
Trecho retirado do livro
‘Acabo de receber da legação italiana de Viena a notícia — que tanto me alegra por sua causa — de que a pena de prisão de seu marido foi comutada em “confino” por ordem generosa de Sua Excelência, o duce, e que ainda podemos esperar sua bondade para depois. Permiti-me agradecer imediatamente a Sua Excelência por esse extraordinário ato de generosidade, tendo talvez me antecipado à senhora, caso essa mensagem feliz e promissora ainda não a tenha alcançado. Que, assim, o período mais difícil de sua vida esteja definitivamente encerrado! Com sincera simpatia e cordial lealdade,
Stefan Zweig, 18 de janeiro de 1932.”

(Fonte: O Globo)

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GEORGE R.R. MARTIN: LIVROS DE ‘GAME OF THRONES’ SÃO MAIS PICANTES QUE PORNÔ

Versão pornô de Game of Thrones

Versão pornô de Game of Thrones

A recém-anunciada versão pornô na série “Game of thrones”, da HBO, não causou grande comoção em George R.R. Martin, autor da obra original. Para o escritor de 65 anos, seus livros são muito mais pesados que o filme “Game of Bones: Winter is Cumming”.
“Na versão pornô, eles omitem o incesto por considerar que isso seria muito chocante. Então meus livros na verdade são mais sujos que a versão pornô!”, disse Martin durante o festival de cinema de Santa Fé, segundo o Huffington Post.
O autor está falando sobre a relação sexual entre os irmãos gêmeos Cersei e Jaime Lannister, que rende algumas cenas quentes na série — e ainda mais picantes no livro. Lee Roy Myers, diretor “Game of Bones”, disse que seu estúdio “evita o tema do incesto em filmes pornô”.
Vale lembrar que, além disso, todos os personagens menores de idade nos livros são três anos mais novos que na série. Daenerys Targaryen, por exemplo, tem apenas 14 anos quando perde a virgindade para Khal Drogo, no primeiro volume.
Os cinco primeiros episódios de “Game of Bones: Winter is Cumming” estão disponíveis para venda online.

(Fonte: O Globo)

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A FOGUEIRA DAS VAIDADES DE MORRISSEY

Morrissey-autobiography11

A primeira reação ao terminar as longuíssimas 480 páginas do livro de memórias de Morrissey, “Autobiography”, é lamentar a oportunidade perdida. Poderia ter sido um livro e tanto.
Goste ou não de Morrissey e dos Smiths, não dá para negar que ele seja um dos personagens mais interessantes do pop dos últimos 30 anos.
Frasista inigualável, egocêntrico talentoso, Moz tem uma língua de serpente e uma verve de corroer chumbo. Atravessando a prosa rica e arrastada do livro, você se pega ora rindo das tiradas maldosas, ora com vontade de espancar o mala.
O ego de Morrissey não cabe num livro. A menos que seja um livro da Penguin Classsics, a respeitada série de obras-primas da literatura, que reúne de Dante a John Steinbeck.
O cantor exigiu lançar “Autobiography” como um título do selo Classics. Era isso, ou a Penguin arriscava perder um título que já é o segundo livro de memórias mais vendido na semana de lançamento na Inglaterra (o primeiro lugar ainda é de Kate McCann, mãe de Madeleine, a menina desaparecida em Portugal em 2007). E Morrissey pode dormir em berço esplêndido, eternizado no cânone ao lado de seu ídolo – e companheiro da Penguin Classics – Oscar Wilde.
“Autobiography” pretende ser um livro sério. Morrissey enche as páginas de parágrafos quilométricos e metáforas criativas. A descrição da infância em Manchester – “onde pássaros abstêm-se de cantar” – é três vezes mais longa do que o necessário, mas traz algumas frases brilhantes.
Fica claro que o autor acha indigna a companhia de autobiografias pop como as de Keith Richards, Pete Townshend e Rod Stewart. Para dificultar as coisas, o livro não tem índice ou divisão por capítulos. Quem quiser ler uma história sobre Johnny Marr, por exemplo, tem de procurar página a página. Não é da índole de Morrissey facilitar a vida de ninguém.
A impressão é de que o livro não teve editor. Se teve – há uma editora creditada – a coitada não teve coragem de sugerir uma vírgula, certamente ofuscada pelo brilho intenso do ego do cantor.
Como explicar que um décimo do livro seja dedicado ao relato minucioso e insuportável do processo que o baterista dos Smiths, Mike Joyce, moveu contra Morrissey por royalties da banda? Ou a descrições intermináveis dos programas de TV ingleses que faziam a cabeça do pequeno Steven nos anos 60?
Mais que um livro de memórias, “Autobiography” parece um acerto de contas: com a escola, com Mike Joyce, com Geoff Travis, chefão da gravadora Rough Trade, escorraçado a cada página, com a imprensa, com entrevistadores, com pessoas que comem carne, enfim, com todo mundo que não compreende Moz.
Como pode um sujeito que escreveu “Hand in Glove” e “Still Ill” não gastar um mísero parágrafo descrevendo a gênese de suas letras? Morrissey só fala de música quando escreve – lindamente, aliás – sobre sua fixação por Roxy Music, Bowie e New York Dolls. Mas isso é papo velho. Todo mundo sabe.
O que qualquer fã queria saber – mas não vai encontrar em “Autobiography” – é como Morrissey e Marr criaram as maiores indagações existenciais do pós-punk e a trilha sonora perfeita para a Inglaterra cinza de Thatcher. E como fizeram isso em apenas quatro anos e quatro LPs que parecem conter as vidas de todos os moleques que já choraram por amores não correspondidos ou sofreram no escuro de seus quartos por um arrasador senso de deslocamento. Shoplifters of the world, unite and take over…
Dá raiva imaginar o que um bom biógrafo teria feito com material tão rico. Se alguém tivesse a chance de podar os excessos, as picuinhas e vingancinhas pessoais e extrair de Morrissey explicações para a química dele com Marr, “Autobiography” seria um marco.
Em vez disso, temos parágrafos como o que descreve a primeira turnê dos Smiths nos States, quando Moz foi hospedado em um hotel fuleiro e ligou choramingando para o empresário Geoff Travis: “Geoff, tem baratas do tamanho de hamsters na minha cama!” Moz conta, indignado, que Travis nada fez para livrá-lo da companhia dos insetos nojentos. “São só por algumas noites”, teria dito Travis. A reação de qualquer biógrafo decente seria perguntar: “Fofucho, você tinha 24 anos, já era um mocinho. Por que não foi para outro hotel?”

(Fonte: Folha de S. Paulo – André Barcinski)

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RENAN CALHEIROS DEFENDE BIOGRAFIAS NÃO AUTORIZADAS

renan-calheiros

A proposta que acaba com a necessidade de aprovação prévia para a publicação de biografias foi defendida há pouco pelo presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL). “O papel do PMDB, presidindo ao mesmo tempo a Câmara e o Senado, é indiscutível. Temos que cumprir esse papel no sentido da liberdade de expressão. Sou contra qualquer censura em relação às biografias”, disse.

(Fonte: Estadão)

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