FEVEREIRO – 2015

Após deixar José Olympio, Maria Amélia Mello assume catálogo literário da editora Autêntica

Maria Amélia Mello possui mais de cem fitas de conversas com autores e quer doá-las

Maria Amélia Mello possui mais de cem fitas de conversas com autores e quer doá-las

 

Após 30 anos no Grupo Record, ela também quer doar acervo com mais de cem entrevistas com escritores

Em dezembro do ano passado, o mercado editorial recebeu com surpresa a notícia de uma nova movimentação: Maria Amélia Mello ia deixar a mítica editora José Olympio — um dos marcos da história do livro no Brasil, hoje pertencente ao Grupo Record — depois de mais de 30 anos à frente da casa. Passado o burburinho, Maria Amélia dedicou a semana anterior ao carnaval à arrumação dos móveis de sua nova sala. Ela assume a partir de agora o cargo de editora literária da Autêntica, grupo mineiro que tem se expandido no mercado nos últimos anos. Maria Amélia vai trabalhar no escritório carioca da casa editorial, que mantém equipes também em Belo Horizonte e São Paulo.

— Conheci muita gente legal nesses anos de José Olympio, onde publicamos alguns dos principais autores da literatura brasileira. Lembro que, mesmo depois de a editora não ser mais dele, o próprio José Olympio me chamava na casa dele para fazer sugestões. Mas senti que um ciclo havia se esgotado, a editora tinha um trabalho estruturado, e eu queria algo novo — afirma Maria Amélia.

Ela conta que pediu para deixar a Record em setembro do ano passado. Começou a ser sondada por Rejane Dias, diretora da Autêntica, um pouco antes do anúncio oficial de sua saída. Até recebeu outros convites, mas não queria trabalhar para um grupo grande.

PROJETOS ESPECIAIS COM FERREIRA GULLAR

Na Autêntica, a editora carioca vai expandir seu campo de atuação. Ela vai continuar o trabalho de resgate da memória cultural que já fazia no Grupo Record — principal foco da atuação da José Olympio dos últimos anos —, mas também vai buscar novos autores, de ficção e não ficção, clássicos e estreantes, brasileiros e estrangeiros. A ideia não é só fazer aquisições, mas principalmente pensar e “criar” livros novos.

— Dentro de toda grande obra sempre há brechas, livros que não foram pensados. É como um caminho fora da estrada principal, onde há riachos e passarinhos. Há muitos livros que ficam voando e de repente pousam no seu ombro, pedindo para ser editados — diz a editora.

Por enquanto, Maria Amélia já tem encaminhados projetos especiais com Ferreira Gullar, seu amigo e autor da Record. Uma “autobiografia poética”, uma compilação de ensaios escritos ao longo de anos e um caderno de fotos do poeta serão os primeiros. Também sairá ainda neste ano uma edição de “Formigueiro”, poema longo do autor de 1955, além de textos inéditos dele sobre arte. Um volume com entrevistas com Susan Sontag também está previsto. E Maria Amélia espera organizar antologias e resgatar autores esquecidos.

A editora aproveitou o tempo livre entre um emprego e outro. Mexendo em seu acervo, ela encontrou mais de cem fitas de entrevistas com escritores, que ela fez quando trabalhou no antigo “Jornal de Letras”, dos irmãos Elysio e João Condé, na juventude. São conversas com intelectuais como Aurélio Buarque de Hollanda, Rachel de Queiroz, Gilberto Freyre e outros. A editora vai atrás de patrocínio para tratá-las e digitalizá-las, antes de doar as gravações para a Casa de Rui Barbosa.

Além de dedicar-se à escrita — Maria Amélia é autora do livro de contos “Às oito, em ponto” — e à sua paixão pelo jazz, a editora também pretende investir na produção cultural, uma antiga vocação. Em parceria com Julio César de Miranda, ela organizou a mostra “Doze décadas de cinema”, que entra em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil em agosto e vai até julho de 2016. A cada mês, serão exibidos quatro filmes por década, começando em 1895. A edição, contudo, segue como foco principal.

— Trabalhar com grandes autores é como ser um gato andando por uma cristaleira. Eles são cristais. Você precisa circular por eles sem quebrar nenhum — ela diz.

(Fonte: O Globo)

VN:F [1.9.22_1171]
Rating: 0.0/5 (0 votes cast)
VN:F [1.9.22_1171]
Rating: 0 (from 0 votes)
Share Button

50 Tons de Cinza | Sequências serão adaptadas pela autora dos livros

cinquenta-tons

Site diz que E.L. James quer mais controle criativo

As sequências cinematográficas de 50 Tons de Cinza, 50 Tons Mais Escuros e 50 Tons de Liberdade, devem ter o roteiro escrito por E.L. James, autora da trilogia de livros. A informação é da Variety.

Segundo o site, a intenção da escritora é ter maior controle criativo nos próximos filmes. Dessa forma, a roteirista do primeiro, Kelly Marcel, não deve voltar, assim como a diretora Sam Taylor-Johnson (O Garoto de Liverpool).

Na trama de 50 Tons de Cinza, Christian Grey (Jamie Dornan) é o milionário sadomasoquista que seduz Anastasia Steele (Dakota Johnson). Luke Grimes (True Blood) interpreta o irmão de Grey, Jennifer Ehlefaz a mãe de Anastasia e Victor Rasuk (Como Vencer na América) será José, fotógrafo amador e amigo da protagonista. Eloise Mumford (The RiverLone Star) é a colega de quarto de Anastasia e Max Martini (Círculo de Fogo) será o segurança de Christian.

(Fonte: Omelete)

VN:F [1.9.22_1171]
Rating: 0.0/5 (0 votes cast)
VN:F [1.9.22_1171]
Rating: 0 (from 0 votes)
Share Button

Edições Ideal traz Beatles e Rolling Stones em graphic novels

BeatlesStonesEdicoesIdeal

Duas graphic novels do escritor e ilustrador finlandês Mauri Kunnas chegarão ao Brasil no próximo mês de março, pela Edições IdealBeatles com A – O nascimento de uma banda (72 páginas, R$ 44,90) e Mac Moose e os Stones (56 páginas, R$ 44,90), ambas em capa dura.

A primeira, lançada originalmente em 2013, é uma biografia em quadrinhos da banda de rock’n’roll mais famosa de todos os tempos, começando no nascimento de cada um de seus integrantes (incluindo os da formação original do grupo, Pete Best e Stuart Sutcliffe) até a gravação do primeiro singlePlease Please Me/ Ask Me Why, em 1963.

E a outra, produzida em 1995, originalmente em preto e branco – agora colorizada –, é uma aventura satírica protagonizada pelos Rolling Stones, ou melhor, “Rolling Gallstones” (algo como Pedras de Vesículas Rolantes) e seus principais integrantes, o vocalista Jacques Migger e o guitarrista Keith Ricardos.

A aventura, em ritmo de ação, envolve um grupo terrorista que quer sabotar um show beneficente da banda. Mas o esperto escritor e ex-policial Maac Mosse fará tudo para impedir.

A HQ conta ainda com a participação de versões cartunescas de outros ícones da música, como Elton John, David Bowie e Michael Jackson.

(Fonte: Universo HQ)

VN:F [1.9.22_1171]
Rating: 0.0/5 (0 votes cast)
VN:F [1.9.22_1171]
Rating: 0 (from 0 votes)
Share Button

Saraiva atualiza número de demitidos

saraiva

Empresa fala em 50 demitidos, incluindo os do braço varejista

A sexta-feira (13) na Saraiva foi de terror. Boatos de que a empresa teria demitido centenas de funcionários ganhavam força e espalhavam como confetes e serpentinas em um baile de carnaval. Como o PublishNews adiantou, a empresa falava em 18 demissões no braço editorial do grupo. Foi só no meio da tarde que a empresa se pronunciou a respeito dos demitidos do varejo. Lília Cruz de Paula Vieira, diretora de RH da Saraiva, atualizou os dados e informou ao PublishNews que foram 50 demitidos e ressaltou que foram desligamentos pontuais (o grupo tem mais de 5,5 mil funcionários) “que visam otimizar as atividades administrativas com ganhos de produtividade”.

(Fonte: Publish News)

VN:F [1.9.22_1171]
Rating: 0.0/5 (0 votes cast)
VN:F [1.9.22_1171]
Rating: 0 (from 0 votes)
Share Button

Escritora chilena Lina Meruane chega ao Brasil com livro intenso e recomendada por Bolaño e Enrique Vila-Matas; leia um trecho

Lina Meruane. Romance foi premiado no México e na Alemanha

Lina Meruane. Romance foi premiado no México e na Alemanha

‘Sangue no Olho’ usa problemas de visão para falar de amor e família

O Sangue no Olho do título do primeiro livro da escritora chilena Lina Meruane publicado no Brasil não poderia ser mais literal: a protagonista do romance, uma escritora, Lucina, que usa Lina Meruane como pseudônimo, tem o olho encharcado de sangue por complicações decorrentes da diabete.

O que o leitor acompanha em seguida é uma luta intensa e sufocante contra esse inimigo invisível e implacável: a cegueira, que começa a tomar conta da vida da personagem. Mas o livro, publicado por aqui pela Cosac Naify, não para aí: orbitando pela obsessão que a protagonista alimenta pela doença estão o seu marido, um prestativo professor universitário, sua família de classe média alta chilena e uma Nova York estrangeira que parece não fazer favor nenhum para melhorar a condição bastante difícil da personagem.

“Uma das perguntas que quis colocar neste livro é como enfrentamos a enfermidade e a incapacidade que a cegueira produz em uma pessoa que enxerga”, diz a escritora Lina Meruane, a de verdade, professora de cultura latino-americana na Universidade Nova York, por e-mail ao Estado. “Se nos dobramos ou não aos discursos da superioridade da saúde.” Essa batalha ética é um dos principais fios condutores do romance.

O problema de saúde acaba resvalando em questões diversas. Em um trecho, logo quando chega ao aeroporto de Santiago, um estranho a aborda e começa a lhe dirigir uma série de questionamentos, que culminam na revelação da “verdade”, “as conexões entre o nosso 11 (de setembro) e o deles”, referindo-se ao golpe de Estado dado por Pinochet em setembro de 1973. Diz a narradora: “Não é coincidência nem é repetição, disse eu, entediada. Não passa de uma estranha imagem dupla”.

Em outros momentos, a exploração angustiante da personagem vira uma experiência sexual nova que a escritora cumpre com elegância e desenvoltura, lado a lado com a batalha tênue que está em todo o romance. “Comecei pondo minha língua num canto de suas pálpebras, devagar, e à medida que minha boca se apropriava de seus olhos experimentei um desejo impiedoso de chupá-los inteiros, intensamente, de torná-los meus no céu da boca como se fossem pequenos ovos (…).”

A agitação da Meruane personagem nunca afasta a percepção de se estar diante de uma pessoa (ou uma representação literária) real – tão real quanto possível. Na viagem ao Chile, quando o casal decide ir comer mariscos em uma praia isolada, a personagem pensa sobre o marido – “se lhe fizessem mal eu não estaria lá para ajudá-lo” –, e quando eles chegam ao restaurante e percebem que esqueceram a insulina, ela pensa: “Eu a tinha esquecido por não conseguir vê-la, Ignacio, mas também para testar você”. Sobre essas e outras belas nuances de seu livro, ética na literatura, experiência ficcional e projeções na realidade, Lina Meruane respondeu ainda às seguintes questões.

A doença nos olhos é uma experiência pela qual você passou?

A escrita desse romance usa uma experiência própria e logo vai se tornando outra. Então é e deixa de ser uma experiência própria. Por isso, escrevi um romance e não uma memória ou uma autobiografia. A realidade da doença é de Lucina e sua ficcionalização corresponde à outra, a Lina Meruane que assina seus livros. É um jogo de espelhos cegos. Interessava-me usar essa dúvida, essa curiosidade, essa doença, para tensionar a relação entre realidade e ficção e levar o meu leitor imaginário (como um cego, à mão) a remexer nos extremos obscuros a que a trama leva quando se separa do real.

O que a expressão ‘sangue no olho’ sugere em espanhol?

Não uma vontade pura, mas um desejo de vingança. Penso que o título funciona em ambas as línguas por mais que seja levemente distinto o sentido: apela a uma intensidade, a um impulso muito poderoso.

A protagonista disse em uma conversa com sua professora que só há um escritor cego. Imagino que tenha pensado em Borges, mas há na literatura ocidental certa corrente da literatura da cegueira. Você pensou nessa questão quando escrevia o livro?

Era Borges a figura, com efeito, porque a cegueira de Borges é única. Borges fica cego aos 50 anos, no momento em que começa a ser internacionalmente reconhecido, e fotografado. O rosto de Borges, com a vida perdida, com suas mãos de sábio sobre a bengala, é uma imagem icônica, indelével. É o grande cego da nossa literatura contemporânea. Não é que Lucina não saiba de Homero, de Milton, de Joyce. Então, o que ela quer dizer é que o grande, o contemporâneo, o cego terminal que os latino-americanos recordam é Borges. Por isso você adivinha.

Por que você se interessa pelo tema da enfermidade?

Terrivelmente interessada, para a minha desgraça (risos). A protagonista do romance anterior é também uma mulher enferma, e a minha tese de doutorado trata do impacto da aids na literatura… Deve ser porque minha primeira escola foi a conversa apaixonada de meus pais, ambos médicos, durante as refeições: tudo que diziam sobre o corpo, sobre seus males e seus tratamentos complexos, educou minha imaginação e minhas obsessões, foi meu campo semântico mais bem treinado. Mas não é só a materialidade da deterioração corporal ou os processos complexos que significam viver, mas sim os jeitos em que os corpos se metaforizam socialmente e se utilizam politicamente.

Acredito que você faz parte de uma geração de escritores latino-americanos que vivem, estudam e trabalham nos Estados Unidos, não? Como marca sua literatura o fato de viver fora de seu país?

A maneira que eu percebo é um pouco distinta da sua, eu vejo os escritores do meu tempo se movendo em muitas direções e para destinos distintos. Há um dinamismo não tão simples de ser traçado nem geográfica nem historicamente… Eu pertenço a uma família de migrantes; está na minha tradição estar inscrita no nomadismo e um tema recorrente quando nos encontramos é… a situação de nossas malas! Há sempre uma maleta ao redor da conversa e também, isso percebi muito depois, em meus romances. Sempre a protagonista está viajando, e a distância lhe permite ver o que deixa de maneira crítica. É como se as protagonistas de meus romances precisassem ver de longe para ver bem.

Lucina não parece aceitar que a enfermidade atente contra sua liberdade ou independência. É essa uma das forças do livro, a vontade de garantir independência apesar dos obstáculos?

Uma das perguntas que quis colocar nesse livro é como enfrentamos a enfermidade e a incapacidade que a cegueira produz numa pessoa que enxerga; isto é, se nos dobramos ou não aos discursos da superioridade da saúde. Em uma novela anterior, a resposta era se opor à ideia da recuperação, resistir aos imperativos da medicina. Em Sangue no Olho pensei o contrário: Lucina decide que, seja como for, não vai perder o olho, e isso a leva a extremos sinistros que nos permitem observar, espero, como o imperativo da saúde, levado à sua máxima expressão, pode ir contra a ética… Creio que isso é o que dá força ao romance, essa tensão, esse porvir.

Precisamente, todo o romance está imerso em debates éticos. Qual é o limite ético da literatura?

Eu queria dizer algo que fosse muito ético, mas lamentavelmente não vejo limites éticos dentro da literatura. Se quisermos ver cara a cara a monstruosidade que somos, há que se mostrar precisamente esses lugares onde toda a ética foi perdida, há que insistir nessas zonas escuras, ambíguas, remexer nesses limites incômodos, às vezes intoleráveis. Talvez aí se possa extrair, por oposição, uma ética, e um escritor ou escritora esperaria que essa tarefa cumpram os leitores: a de reagir ante o que se lê, a de refletir de maneira mais complexa sobre o que se coloca, a de se propor a participar eticamente, desde essa terrível claridade, do cenário social.

(Fonte: O Estadão)

VN:F [1.9.22_1171]
Rating: 0.0/5 (0 votes cast)
VN:F [1.9.22_1171]
Rating: 0 (from 0 votes)
Share Button

Publicado originalmente em 1991, ‘O Livro da Gramática Interior’ é situado em Jerusalém, às vésperas da Guerra dos Seis Dias

Obra se passa no final dos anos 1960 e acompanha Aharon, que não se desenvolve como os amigos

Obra se passa no final dos anos 1960 e acompanha Aharon, que não se desenvolve como os amigos

Quando começamos a acompanhar Aharon, o protagonista de O Livro da Gramática Interior, ele tem 12 anos, bons amigos e uma certa popularidade na escola. É criativo e divertido, faz truques de mágica, toca violão, ajuda a mãe a descascar batatas, lê os jornais para a avó. Aos poucos, porém, o garoto vai se encolhendo – ou, como diz o seu criador, o escritor israelense David Grossman, ele entra no túnel da adolescência. Ao sair de lá, aos 17 ou 18 anos, será totalmente diferente, novo para ele mesmo. “É nesse período que descobrimos nossa sexualidade, o outro sexo, o prazeroso e dolorido jogo entre meninos e meninas, a estrutura profunda do amor e da família”, diz o autor em entrevista ao Estado por telefone.

Não sabemos como e se Aharon sairá do buraco. Presenciamos o início da sua adolescência, passamos por seu bar mitzvah, quando, por ordem da mãe, ele aparece entre os convidados usando um sapato com saltos. Enquanto os primos e amigos espichavam e viam suas vozes engrossarem, o protagonista não conseguia se livrar do dente de leite, os pelos não cresciam e as pernas permaneciam curtas e finas.

O livro lançado agora no País foi escrito emtre 1900 e 1991. Grossman, então pai de dois garotos que logo chegariam à puberdade, queria ser a voz do patriarca, mas no processo se reencontrou com o menino que foi, filho de uma família de refugiados poloneses vivendo num apertado apartamento popular de Jerusalém. Ele guarda todos os detalhes na memória e diz que sente que tem uma espécie de livre acesso à sua infância e adolescência. “Lembro-me tão bem da casa, dos cheiros, do vale que ficava na frente. Nós, as crianças dessa vizinhança meio pobre, não podíamos ficar em casa de tão pequenas e populosas que elas eram. Encontrávamos conforto fora, na rua. Sinto como se estivesse lá, agora. A forma que eu via meus pais, a minha luta por individualidade, a rebeldia diante deles. Essa é uma fotografia vívida e vital dentro de mim.” Esse é, também, o retrato do personagem.

Aos 61, Grossman conta que este livro continua muito vivo nele, que a experiência de escrevê-lo foi intensa e descreve sua adolescência – e de todos – como um período frágil, de se abrir para o mundo, decodificar a família, o comportamento e a linguagem. “Estamos inseguros com relação à vida, ao corpo e ao que pensam de nós. É um tempo intenso. Nesse sentido, não tenho certeza de que já ultrapassei essa fase, apesar da idade”, brinca.

Narrado em terceira pessoa, O Livro da Gramática Interior pode ser lido como a história de um garoto em sofrimento, que tenta encontrar um lugar na sua família – e entre os fantasmas dessa família – e que está desesperado por respeito e por um pouco de atenção. Um garoto que não quer crescer tão rapidamente, mas que deseja sair, o menos traumatizado possível, daquele ambiente claustrofóbico e cruel que algumas famílias sabem proporcionar – para se ter uma ideia, a irmã mais velha de Aharon, desobedecendo aos pais, troca o uniforme da escola pelo do exército.

Ao mesmo tempo, há um tanto de loucura, bagunça, estruturas abaladas, ruínas, destruição. A presença da avó muda e inerte a observar. A vizinha a provocar. O mal sempre à espreita. E a mochila de reservista do pai, pronta à espera do chamado – que em Israel sempre vem. A história se passa em 1967, às vésperas da Guerra dos Seis Dias, mas se o cenário fosse transportado para o tempo presente a história seria a mesma.

“De uma certa forma, este é um livro sobre um artista enquanto garoto e sobre como, às vezes, alguém se torna um artista apenas para ter um lugar só para si, de privacidade e intimidade, mesmo pertencendo a uma família tão intrusa e obsessiva”, conta o autor. Mesmo vivendo num país em conflito. Para ele, Ahron percebe, intuitivamente, que a única forma de continuar sendo ele mesmo é inventando esse lugar – no seu caso, a linguagem. “Ele cria para ele um hospital para palavras doentes. As palavras usadas por outros, poluídas, são purificadas numa cerimônia íntima”, explica. Este foi o jeito que encontrou de ter seu lugar no mundo. Um espaço livre, sem interrupção – embora nada possa ser tão íntimo com a mãe que ele tem. “Ela é cruel, politicamente incorreta, como muitos israelenses eram no período retratado no livro, e incapaz de se distinguir do filho. Ela acusa o menino de não estar crescendo o suficiente, e isso é terrível de se dizer. É como se a vergonha dele doesse nela”, diz o autor, que trata logo de avisar que embora sua família seja muito parecida com a da história, ainda assim ela é diferente.

Há um certo mistério envolvendo o pai e a avó paterna de Aharon, impedidos pela mãe autoritária de falar a língua original, o polonês, em casa. O passado dos dois é contado discretamente aqui e ali, e também aqui e ali faz lembrar as raízes do autor. Ele conta a sensação de ser refugiado foi o que mais marcou os membros de sua família. “Três anos depois que o meu pai fugiu da Polônia, começou a Segunda Guerra Mundial. Os pais da minha mãe também vieram de lá. A geração dos meus pais foi muito frágil, e não muito certa com relação à sua existência, procurando solidez de uma forma muito desesperada. Comida era quase sagrada. Fico pensando em como pessoas que vieram do inferno conseguiram ter alegria de viver, acolhimento, esperança. Em como, vindo das cinzas, eles conseguiram construir uma nação. É um mistério e uma sensação de que essas pessoas tão pequenininhas eram também gigantes.”

Uma curiosidade que teria aliviado alguns dramas juvenis de Grossman. Gui’don, amigo descolado de Aharon, é inspirado num de seus colegas de adolescência. Quando terminou o livro, pediu que ele lesse e sua identificação foi com o encolhido protagonista. “Nem sempre reconhecemos a pessoa que está ao nosso lado como solitária e isolada, insegura e desesperada por nossa aprovação. Pensamos que somos mais frágeis, mais sozinhos. Quando lemos o livro, ele nos lê e traz muitas lembranças à superfície. Esse amigo viu sua vida interior vir à tona. A obra deu palavras a sentimentos negados por 20, 25 anos. Foi uma reação bonita. Se ele tivesse me dito isso há 25 anos, quando eu desesperadamente precisava saber que ele também se sentia solitário, minha vida teria sido diferente.”

Uma nova edição da obra está saindo em Israel 24 anos depois do lançamento. Há dois anos, David Grossman foi convidado a visitar a escola em que estudou quando tinha a idade de Argon. “Foi muito especial ouvir de várias crianças que elas eram o Aharon.” O que mudou, comenta, é que agora elas querem dizer claramente que se sentem sozinhas, que não são compreendidas em sua individualidade. E é assim com crianças em todos os países onde ele foi traduzido. Isso me deixa muito feliz porque o livro faz com que não nos sintamos tão solitários.”

Israel. Grossman se diz um provinciano – sempre morou em Jerusalém. “Hoje vivemos no subúrbio, e isso traz muitos benefícios. Vemos a beleza da cidade estando longe dela e não sofremos de todo o extremismo e fanatismo que há lá. Trata-se de um lugar muito bonito, mas insustentável politicamente. Os nervos estão muito expostos. É o coração do conflito entre Israel e Palestina. Sentimos isso ao entrar na cidade, onde até os grafites são violentos.”

Com isso tudo, e mesmo tendo perdido um filho a dois dias do cessar-fogo da guerra do Líbano e a três meses do término de seu serviço militar, ele nunca pensou em sair. “Aqui é a minha casa. Há tanta coisa que me amedronta e que é difícil de engolir, mas posso entender o comportamento das pessoas, sei por que elas cometem os erros que cometem. Posso entender seus medos – muitos dos quais são meus também. E posso entender como o medo pode impor um comportamento. Mas a vida é terrivelmente curta e quero vivê-la no único lugar que é relevante para mim.”

O escritor diz que não pode se dar o luxo de se desesperar diante do cenário, da alternância de catástrofes, mas considera que se a paz tivesse chegado ontem ela teria chegado tarde demais para todos. “Algumas características como brutalidade, ódio e racismo estão dos dois lados. Se vivemos nossa vida em guerra, e estamos em guerra há mais de 100 anos, é natural que haja efeitos terríveis no nosso comportamento – mesmo em casa. A violência foi formulada tão profundamente para você que ela aparece em muitos aspectos da sua vida.” A paz é um sonho irreal, ele diz, e mais importante do que resolver conflitos e disputas entre israelenses e palestinos, questões como segurança, ocupação, terrorismo e formas de dividir a terra é, como diz, sentir que a existência não corre risco. “Paz, para mim, é chance de recuperação e é liberdade. Países que vivem em liberdade por muito tempo acabam se esquecendo o que ela significa. Quando você deve estar o tempo todo em alerta para identificar imediatamente qualquer perigo, ameaça ou inimigo, você não é um indivíduo livre e esta não é uma sociedade livre. Ter paz vai nos permitir ser livres, coisa que não somos há milhares de anos. E é difícil desistir disso.”

Em Israel, os escritores de maior destaque e respeito são aqueles com alguma militância política e aqueles que levam essas questões para a obra. Para o autor, na literatura séria há sempre uma camada política. “Ela afeta a vida do escritor e dos que vivem essa realidade. Alguns autores viram as costas à essa realidade, nem todos escrevem de uma forma mais política como Amos Oz, A. B. Yehoshua ou eu. Negar isso não deixa de ser um ato político, mas é preciso se esforçar muito para negar a realidade de Israel e da Palestina”, explica. Ele diz, no entanto, que há diferentes formas de se tratar a questão. “Quando escrevo um artigo, tenho uma opinião e quero convencer o outro. Quando faço literatura, tenho dúvidas e perguntas. Vou tentar mostrar como a situação é cheia de contradições. O que a literatura deveria fazer é lembrar o leitor da complexidade da situação num jeito que o envolva mesmo quando você escreve sobre o inimigo do leitor.”

Confira trechos da obra:

“Ele jurou que mesmo quando for adulto e crescido e cabeludo, com a pele grossa e dura como seu pai, como todos acabarão sendo, ele se lembrará do menino que é agora, vai gravá-lo profundamente na memória, porque talvez haja coisas que se esquecem nesse processo de se tornar adulto, difícil dizer exatamente o que, mas com certeza existe algo que faz com que todos os adultos se pareçam um pouco, não no rosto, é claro, nem no caráter, mas numa coisa que existe em todos, uma coisa à qual todos eles pertencem, e à qual até obedecem, e quando Aharon for assim, crescido como eles, vai sussurrar para si mesmo pelo menos uma vez por dia I am go-ing; I am play-ing; I am Aharoning; e assim se lembrará de que ele também é um pouco esse Aharon particular, por baixo de todas essas coisas gerais. (…) Lentamente ele passa os olhos pelas fileiras. É com isso que terá um dia de construir suas lembranças?”

“Olhe bem, Aharon fica admirado: cada um parece centrado em si mesmo, mergulhado em pensamentos e calado, até mesmo triste, e no entanto nosso grupo é como um todo barulhento e parece alegre”

“Aharon se espantou porque a mãe está proibida de gritar com Iochi, já faz quase dois anos que está proibida, porque isso provoca assobios no ouvido dela.”

“No jantar o silêncio foi total. Todos se concentraram em seus pratos. Junto à porta estava uma mochila preparada para o serviço de reservistas do exército, e Aharon pensou como ia ser se o pai também tivesse de ir e ele ficasse sozinho com a mãe.”

O LIVRO DA GRAMÁTICA INTERIOR

Autor: David Grossman

Trad.: Paulo Geiger

Editora: Companhia das Letras (535 págs.; R$ 59,90; R$ 39,90 o e-book)

(Fonte: O Estadão)

VN:F [1.9.22_1171]
Rating: 0.0/5 (0 votes cast)
VN:F [1.9.22_1171]
Rating: 0 (from 0 votes)
Share Button

Historiador e cientista político Moniz Bandeira é o brasileiro indicado ao Nobel de Literatura

Luiz Alberto Moniz Bandeira

Luiz Alberto Moniz Bandeira

Indicação é feita pela União Brasileira de Escritores a pedido da Real Academia Sueca, que escolhe o vencedor de 2015 em outubro

A convite da Real Academia Sueca, a União Brasileira de Escritores (UBE) indicou o nome do historiador e cientista político Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira para o Prêmio Nobel de Literatura de 2015.

Atualmente radicado na cidade alemã de Heidelberg, onde é cônsul honorário do Brasil, Moniz Bandeira é autor de mais de 20 obras, notadamente ensaios políticos, e de livros de poesias, como Verticais (1956), Retrato e Tempo (1960) e Poética (2009).

Em um comunicado, o presidente da UBE, Joaquim Maria Botelho, justificou a indicação. “Moniz Bandeira é um intelectual que vem repensando o Brasil há mais de 50 anos. Com fundamentação absolutamente consistente, suas narrativas são exercícios da literatura aplicada ao conhecimento dos meandros da política exterior, não só do Brasil mas de outros países cujas decisões afetam, para o mal ou para o bem, a vida, a nacionalidade e a própria identidade brasileira”, disse Botelho.

A nota ainda informa que vários de seus livros são adotados pelo Itamaraty no curso de formação de diplomatas. Entre eles Formação do Império Americano – Da Guerra contra a Espanha à Guerra no Iraque. Mais de oito anos atrás, o brasileiro denuncia nesse trabalho a espionagem praticada pelas agências de segurança norte-americanas em diversos países. O livro foi traduzido e publicado na China e na Argentina.

Seu livro mais recente, publicado em 2013, é A Segunda Guerra Fria, que trata da geopolítica e da dimensão estratégica dos Estados Unidos nas rebeliões da Eurásia e nos movimentos da África do Norte e Oriente Médio. Escrita entre março e novembro de 2012, a narrativa de Moniz Bandeira “praticamente acompanha em tempo real os acontecimentos recentes mais significativos”, de acordo com o comunicado divulgado pela UBE.

(Fonte: O Estadão)

VN:F [1.9.22_1171]
Rating: 0.0/5 (0 votes cast)
VN:F [1.9.22_1171]
Rating: 0 (from 0 votes)
Share Button

Poema de Brecht sobre peregrinação de órfãos durante a guerra ganha livro ilustrado

As ilustrações da obra são da catalã Carme Solé Vendrell

As ilustrações da obra são da catalã Carme Solé Vendrell

Em ‘A Cruzada das Crianças’, desconhecidos se unem durante a Segunda Guerra na busca por um lugar seguro, comida e paz

Onde quer que haja guerra, há uma cruzada de crianças. Essa é a máxima que Bertolt Brecht (1898-1956) formula, em outros termos, ao transpor para a realidade da Segunda Guerra o drama da lendária narrativa medieval. A Cruzada das Crianças aparece pela primeira vez em Histórias de Almanaque, coletânea de parábolas, poemas e contos, incluindo as famosas Histórias do Sr. Keuner, que o autor publica no final dos anos 1940 na Alemanha.

O poema pertence a um extenso conjunto de textos que Brecht escreveu durante seus anos de exílio. Hannah Arendt chegou a considerar que este seria “o único poema alemão da última guerra” que perduraria. Sua contundência permanece, por isso a oportunidade da recente edição brasileira, na tradução de Tercio Redondo, com ilustrações da artista catalã Carme Solé Vendrell. Seguindo o formato da versão espanhola de 2011, com o traço de Solé Vendrell sangrado nas páginas, é uma edição que valoriza a dimensão épica dessa história de pequenos peregrinos, filhos da guerra, que se unem para buscar a paz sem saber onde.

No inverno de 1939, numa Polônia recém-tomada pelos alemães, tropas de crianças famintas se juntam, conduzidas por um “pequeno chefe / que animá-los bem queria, / porém algo o preocupava: o caminho não sabia”. O filho de um nazista, um judeu, um pequeno músico, um menino socialista que discursa, todos têm uma fome comum, de pão. Ao todo são 55. Abstêm-se de lutar entre eles, “pois com fome não há luta”. O nome da terra prometida que procuram, que um soldado moribundo lhes indica, é Bilgoray, nome de uma paz tão inacessível quanto o pão. Ao final do poema, o poeta narrador fala em primeira pessoa: “Quando fecho os meus olhos, / vejo-os perambular, vagando de sítio em sítio, / (…) / Buscando a terra da paz, / (…) / vai crescendo assim o bando. / Ao mirá-lo no crepúsculo, / não lhe vejo a mesma tez: / outras caras eu contemplo, / de espanhol, francês, chinês!”.

É interessante pensar na figura do cão que serve de mensageiro às crianças, levando uma placa de socorro no pescoço. O animal, no poema, é encontrado por camponeses, mas em vão, ao contrário daquele que salva o mendigo na peça O Mendigo ou o Cachorro Morto, escrita por Brecht logo após a Primeira Guerra, em 1919. Curiosamente, esse socorro que não vem para os órfãos da Segunda Guerra; de certo modo, é traído pela própria realidade, pela influência que Brecht exerceu, indiretamente, na ópera infantil Brundibár para as crianças do campo de Theresienstadt.

Criada como um “estudo brechtiano”, em 1938, em Praga, por Hans Krása e Adolf Hoffmeister, Brundibár estreou no orfanato de um abrigo em 1942 e a partir do ano seguinte passou a ser apresentada semanalmente em Theresienstadt. Eram 55 meninos e meninas no palco. Eva Landová, que sobreviveu à guerra, fala sobre a importância da ópera como fonte de esperança e resistência dentro do campo: “Nós, as crianças, derrotamos todos aqueles que nos subestimaram: os adultos e Brundibár (personagem associado a Hitler). E, nos momentos em que assistíamos à ópera, acreditávamos firmemente em nossa vitória”. Nessa aderência da vida à ópera, o poema de Brecht, lacônico sobre o destino das crianças, ganha uma nova leitura.

No livro, crianças se unem em busca de pão e paz

Outro aspecto interessante de mencionar é a tese de Georges Duby e Philippe Ariès de que, historicamente, a cruzada das crianças teria sido uma cruzada de camponeses afetados pelas transformações econômicas do século 13, já que o termo latino “pueri”, além de designar “crianças”, remete a pessoas em situação miserável.

O escritor francês Marcel Schwob, que criou sua versão da história em várias vozes, num livro de mesmo título, de 1896, também merece ser citado. Um acrescento à linguagem seca e direta de Brecht, o poema tem em comum com o livro de Schwob uma triste ternura, uma pungência, que é realçada na nesta edição pelas ilustrações de Carme Solé Vendrell.

Trecho inicial do poema:

“No ano de trinta e nove

a Polônia verteu sangue;

suas vilas pereceram

sob o fogo de falanges.

A criança ficou órfã,

faleceu o irmão querido,

a cidade era só chamas,

a mulher perdeu o marido.

Do país nada chegava,

só rumores sem valia,

mas em terras lá no leste

estranha história se ouvia. (…)”

A CRUZADA DAS CRIANÇAS

Autor: Bertolt Brecht

Trad.: Tercio Redondo

Editora: Pulo do Gato (36 págs.; R$ 38)

(Fonte: O Estadão)

VN:F [1.9.22_1171]
Rating: 0.0/5 (0 votes cast)
VN:F [1.9.22_1171]
Rating: 0 (from 0 votes)
Share Button

Diretora de Cinquenta Tons pode abandonar continuações por causa de atritos com a autora, diz jornal

img-1029758-cinquenta-tons-de-cinza

A escritora E.L. James estaria insatisfeita, especialmente, com a falta de calor nas cenas de sexo

Responsável pela direção de Cinquenta Tons de Cinza, primeiro filme da trilogia Cinquenta Tons, recém-divulgado nos cinemas e já um sucesso mundial, Sam Taylor-Johnson pode não participar da continuação da trama, que deve contar com mais duas produções.

Segundo o jornal inglês The Sun, Sam estaria decidida a encerrar o trabalho por problemas de relacionamento com Erika Leonard James, mais conhecida como E.L. James, a autora do best-seller erótico que deu origem à película.

“Sam não vai voltar para as sequências de Cinquenta Tons. Ela quer sair e a Universal (estúdio responsável pela gravação) sabe que essa é a melhor decisão. A relação dela com Erika se tornou tóxica”, disse uma fonte do jornal, segundo a qual a suavização das cenas de sexo é a grande razão da insatisfação da escritora.

James teria recebido cerca de R$ 13 milhões – para ajudar a transpor sua obra do papel para a telona, exigindo controle total sobre o processo criativo.

A diretora admitiu anteriormente à revista Porter que teve problemas durante a filmagem. “Foi difícil, não vou mentir. Definitivamente, nós brigamos, mas eram brigas a respeito da criação e acabamos resolvendo-as. A questão era encontrar um meio-termo entre nós duas, satisfazendo a visão do que ela havia escrito, assim como minha necessidade de visualizar essas pessoas na tela.”

Conflitos à parte, Cinquenta Tons tem alcançado índices de público impressionantes desde a estreia, na última quinta-feira, 12.

O longa-metragem registrou a melhor bilheteria de estreia de um filme dirigido por uma mulher nos Estados Unidos; o recorde de venda de ingressos pela internet no país e o recorde de arrecadação de uma obra adulta no exterior, marca antes pertencente a Matrix Revolutions, segundo o site da revista Variety. Somente no Brasil, foram 1,7 milhão de espectadores.

Cinquenta Tons de Cinza já foi projetado em 9.637 salas de cinema de mais de 58 territórios e ainda chegará a países como Coreia do Sul, Trinidad e Tobago, Índia, entre outros.

(Fonte: Rolling Stone)

VN:F [1.9.22_1171]
Rating: 0.0/5 (0 votes cast)
VN:F [1.9.22_1171]
Rating: 0 (from 0 votes)
Share Button

Texto inédito de Evandro Affonso Ferreira

2

Pra quem é doente do pé: ‘Não tive nenhum prazer em conhecê-los’

Taciturno… Sempre tive vontade de lançar mão desta palavra em algum romance. Taciturno… Gostaria de ser escritor taciturno: enriqueceria minha biografia. Possivelmente tive ancestrais dessa estirpe — fazedores de silêncios incômodos e de respostas monossilábicas e de infinitas circunspecções e de horas sombrias. Possivelmente. Taciturno… Nunca ouvi ninguém sussurrando nas mesas circunvizinhas: Aquele ali, sim, de chapéu marrom, é um escritor taciturno. Pena: sou no máximo niilista lírico ou galhofeiro poético ou melancólico discreto — menos taciturno. Pena. Não perco a esperança: dia hoje ventoso, desvanecido, difuso, sombrio, propenso à apatia, ao indiferentismo — bom também para praticar taciturnidade.

Caminho mais uma vez pelas avenidas desta cidade apressurada, cuja atmosfera permanece suja. Possivelmente procuro tempo todo o imprevisto. Caminho — eu, a melancolia e seus apetrechos sombrios. Meu semblante, este sim, continua resignado. Acho que sou melancólico artificial. Seja como for, ainda tenho saudade dos meus joviais tempos de embriaguez absoluta. Hoje vivo assim: afeiçoado à ociosidade lírica; escrevendo feito agora numa mesa de confeitaria. Fingindo conjecturas: posando de escritor para moça sentada sozinha à minha esquerda. Não tem entusiasmante beleza. Pouco importa: juventude traz em si aspecto luzidio, reluzente. Olhei para ela duas, três vezes sem entusiasmo — já não encontro mais devassidão nem mesmo nele meu olhar. Sei que ela nunca será minha confidente: jovem demais para gastar tempo ouvindo retrospectivas lamuriosas. Eu? Tenho grande passado pela frente. Sim: tempo todo reatiçado pelas reminiscências. Envelhecer é olhar sempre para trás — mulher de Lot em tempo integral. Assim como os chineses veem as horas no olho dos gatos, também vi agora as horas no olho daquela jovem: já é muito tarde para mim.

Meu epitáfio? Não tive nenhum prazer em conhecê-los.

Às vezes ando me esgueirando pelas calçadas para nenhum conhecido me ver assim desenxabido, tomado por esse sentimento penoso de insegurança móbile do medo do ridículo. Sim: vergonha deles meus próprios risos contrafeitos, de incontrolável subserviência. Tenho minhas inúmeras fraquezas e meus medos e minhas inseguranças e já desejei a mulher do próximo e já pensei em matar desafetos e já fracassei na cama e já perdi empregos vários e já menti e já subornei muita gente mesmo que seja sutilmente, subornei sim. Detalhe: nunca fui beijador habilidoso — se fosse príncipe viraria sapo já no primeiro beijo. Sei que vida toda aperfeiçoei embustes, limei, poli imposturas, retemperei patetices. O homem é guiado e inclinado por ele mesmo à malvadeza —intentos sinistros vêm dele próprio. Nossa truculência é congênita. Temos todos nossa porção Aquiles — furioso aquele que amarrou o cadáver de Heitor ao seu carro, arrastando-o durante doze dias. Por favor, afoita leitora, sem insistir: não estou mais disposto a me entregar à vertigem do amor. Curioso lembrar agora dele o Lucrécio de Marcel Schwob que, bebendo do filtro, perdeu a razão e olvidou as palavras gregas do papiro e pela primeira vez, estando louco, conheceu o amor; e durante a noite, por ter sido envenenado, conheceu a morte.

Aconteceu-me uma vez… Não, nunca me aconteceu nada.

Ando me escorando no indefinido. Olho placas indicativas, viro esquinas convencido pela sonoridade de seus respectivos nomes. Lorena: há som, cor, significado nesta palavra. Faz jus ao codinome alameda: exala perfume, é arbórea, promete folhas, flores. Mas não contava com esta surpreendência: Lorena desemboca na saudade — alameda-ponte me levando para outra margem cujo nome é lembrança. Rua cujas luzes resplandecem meu passado. Já amei, fui amado naquela casa ali do outro lado. Sim: azul cobalto; antes, verde musgo. Hoje, loja sofisticada de roupas; antes, nelas nossas longas noites idílicas, a desnecessidade de tudo isso.

Depois dos setenta pertencemos ao declínio vertiginoso. Rabugice, eis nossa última possibilidade de vida. Sim: também fui solapado pela inquietude absoluta: sinto que vou perdendo aos poucos o domínio de mim mesmo; é nítido meu embaraço diante da própria velhice — quadra da vida na qual as cordas vão perdendo a passos largos sua vibração, som fica oco, de indisfarçável inexpressividade sonora; tempo em que as obstinações são arrefecidas — irreversível a estreiteza deles nossos caminhos. Jeito é forjar vez em quando suposição fundada em probabilidade, qual seja, encontrar numa avenida Cagliostro qualquer que nos ofereça a preços diminutos, lançando mão de hocus pocus desconhecido, elixir capaz de vivificar nossa pretérita plenitude da juventude. Fantasmagoria anciã. Sim: perde-se tudo na velhice inclusive o bom senso. Seja como for, custa nada tentar driblar o ceticismo extremado móbile da aproximação dele nosso próprio epilogo.

Publicidade

Sucesso às vezes flerta comigo — mudo de calçada.

Gosto de amanhecer flanando por caminhos enigmáticos, obscuros, impregnados de labirintos — becos irreconhecíveis cheirando às flores mórbidas. Sim: resolvi entrar neste cemitério — lugar no qual enterram histórias interrompidas, onde as Parcas reinam absolutas, pousada eterna daqueles que remataram o círculo. É bom vez em quando chamar à memória que a eternidade é falaciosa. Aqui? Templo da advertência — memento mori. Nossa perenidade tem, por assim dizer, a duração do fogo-fátuo. É fascinante sentir o cheiro enxofrado dela minha vulnerabilidade: cheiro arrefecedor de prepotências. É nítido o silêncio desdenhoso zombeteiro dos mortos.

(Fonte: O Globo)

VN:F [1.9.22_1171]
Rating: 0.0/5 (0 votes cast)
VN:F [1.9.22_1171]
Rating: 0 (from 0 votes)
Share Button