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A PIPA E A FLOR

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A PIPA E A FLOR

Era uma vez uma pipa de cara risonha que ficou enfeitiçada por uma florzinha maravilhosa. Não conseguindo mais viver sem ela, deu sua linha para a flor segurar. A flor, então soltou a linha para a pipa voar bem alto.
Mas a flor, aqui debaixo, percebeu que estava ficando triste. Não, não é que estivesse ficando triste. Estava ficando com raiva . Que injustiça que a pipa pudesse voar tão alto, e ela tivesse de ficar plantada no chão. E teve inveja da pipa.
Tinha raiva ao ver a felicidade da pipa, longe dela….
Tinha raiva quando via as pipas lá em cima, tagarelando entre si. E a flor, sozinha, deixada de fora.
– Se a pipa me amasse de verdade não poderia estar feliz lá em cima longe de mim. Ficaria o tempo todo comigo….
E a inveja juntou-se ao ciúme.
Inveja é ficar infeliz vendo as coisas bonitas e boas que os outros têm, e nós não.
Ciúme é a dor que dá quando a gente imagina a felicidade do outro, sem que a gente esteja com ele.
E a flor começou a ficar malvada.
Ficava emburrada quando a pipa chegava.
Exigia explicação de tudo.
E a pipa começou a ter medo de ficar feliz, pois sabia que isto faria a flor sofrer.
E a flor foi aos poucos, encurtando a linha.
A pipa não mais podia voar.
Via, ali do baixinho, de sobre o quintal (esta era toda a distância que a flor lhe permitia voar) as outras pipas, lá de cima…E sua boca foi ficando triste. E percebeu que já não gostava tanto da flor, como no início.
(Rubens Alves, A pipa e a flor.)

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SPRING POEM

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SPRING POEM

In spring rains a lot
and it isn’t hot.
Glip glop, the rain comes down
and all the kids make a frown.

The sun goes away
and the childrens can’t play.
Please use a coat…
When is raining use a boat.

In spring flowers are blooming
and look I am resuming.
Spring can be nice or not…
But I will tell you again: spring isn’t hot.

Marcela Elesbão, tem nove anos, é bilíngue, capricorniana,
leitora voraz e adora moda.

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Olhos que dizem adeus

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Você observava o céu noturno na área de embarque. A lua estava cheia, e era uma noite perfeita de verão.

Havia algo de delicado na forma em que você se perdia em seus próprios pensamentos, na forma em que contorcia o rosto ao lembrar de alguma coisa. Nada mais importava, e a única coisa que te ligava ao mundo real era a insistente mania de colocar o cabelo atrás da orelha.

Eu estava atrás de você, exausto, implorando por um minuto de descanso. Você não sabe, mas eu não havia dormido na noite anterior. Depois de todas as palavras e promessas, de tudo aquilo sobre como voltaria depois de um mês, você adormeceu, mas eu não. Eu a observei dormir. Não porque eu sou um maníaco, mas porque adorava como suas pálpebras se mexiam quando você sonhava; adorava quando você sussurrava qualquer coisa que eu não era capaz de entender; adorava simplesmente ver você em paz. É, talvez eu seja um maníaco.

Mas, principalmente, te observei porque sabia que seria a última vez. Não importava o que você tinha dito, todas as promessas, havia algo em você, algo no que me dizia, em como dizia, que me deixou convencido de que não voltaria. Era assim que as coisas seriam, e eu precisava me conformar.

Ali estava você, banhada pela luz da lua. Queria fotografar aquele momento, guardá-lo em minha memória; durante um segundo cogitei fazer exatamente isso. Mas depois pensei direito. Não havia motivo para me torturar.

Uma voz soou dos alto-falantes. Era o seu vôo; era a hora de partir. Você deixou o transe e olhou para trás. Nossos olhos se encontraram. Durante um longo instante, algo dentro de mim pareceu queimar. Não era nada além do meu coração sofrendo por antecedência. Pensei comigo mesmo que devia ser proibido ter olhos tão bonitos como os seus. Ou, pelo menos, deveria ser proibido sofrer por eles.

Você pegou a mala das minhas mãos e me deu um beijo nos lábios. Um beijo doce, intenso e apaixonante; tão bom que eu não quis te largar. Por um momento, pensei que era isso que faria. E, por outro, pensei que você quisesse o mesmo. Me equivoquei. Você se afastou, não sem antes piscar os olhos para mim. Parecia que você estava dizendo que iria voltar. Na verdade, estava dizendo adeus.

Eu lembro até hoje de como são seus olhos. Olhos verdes, tão bonitos que eram capazes de partir o coração de um homem. Certamente que partiram o meu.

Nicholas Nogueira
Carioca de Aquário, estudante de Direito, 23 anos e escritor de um romance que nunca chega ao fim.

http://alemdoroteiro.wordpress.com

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O Homem e a Estrada

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O Homem e a Estrada
Brenno Matthias Pereira

Sentado na beira de uma estrada, ficava um homem que vivia observando os carros passarem. Sua rotina era imaginar o que acontecia dentro de cada um que vinha e dentro de cada um que ia.

Ficava imaginando os sonhos em olhos encostados na janela, a alegria de sorrisos passageiros e a tristeza de lágrimas que se misturavam com a chuva no vidro. Imaginava qual o destino de cada um, pra onde iriam se seguissem em frente e pra onde voltariam se seguissem para trás.

Ele nunca ficava satisfeito, por não saber realmente o que acontecia. Em seus devaneios ele criava historias mirabolantes como a da menina de sorriso largo que estampava a felicidade de seus poucos anos. Ela passou por ele por mínimos segundos, mas marcou a sua vida em uma eternidade, qual seria o destino dela? Ou então a mulher de rosto enrugado que olhava indiferentemente para o horizonte, como se nada mais importasse, como se a vida fosse apenas mais um ultimo e cruel obstáculo a se enfrentar.

Mas o que mais inquietava seus pensamentos é que ele criava fantasias, baseadas em pequenas frações de imagens que seus olhos fotografavam naquela beira de estrada. Nada era real, apenas em sua mente ele tentava desvendar aquelas misteriosas vidas que por alguns momentos cruzavam com a sua.

Sua habilidade em desenvolver essas trajetórias estava tão aguçada que, em poucos segundos, desenrolava um roteiro dependendo apenas da velocidade do carro. Se estava devagar, ele imaginava dois amantes que disputavam contra o tempo a necessidade de estarem juntos. Se passava muito rápido ele acreditava que alguém precisava deixar para trás algo que não era mais importante.

Com o passar do tempo, esse homem possuía uma interminável experiência de viver a vida dos outros. Mesmo sabendo que essa vida que ele vivia não era de verdade, eram apenas criações de sua mente fértil.

Então sem mais nem menos, um dia a estrada amanheceu vazia, o homem não estava mais lá. Os carros continuaram a ir e a vir, só que agora eles não possuíam mais seu guardião silencioso.

Ninguém notou, ninguém se importou. Mas se um dia parassem o carro naquele local, veriam escrito na beira daquela estrada…

“Vivi tanto os sonhos dos outros que nunca tive a oportunidade de conhecer os meus, sigo agora em busca de outra estrada… A minha.”

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NINGUÉM VAI ACREDITAR MAS ESCREVI ASSIM MESMO

NINGUÉM VAI ACREDITAR MAS ESCREVI ASSIM MESMO

 

Ricardo Labuto Gondim

(Para BB)

 

Sabe quando você conhece alguém, imerge na beleza do outro e não pode simplesmente voltar pra casa e se encerrar entre quatro paredes? Foi isso. Ela era linda, transbordante de belezas raras, de inteligência e de… (se prepara que lá vem a palavra, e você não a ouve ou lê há muito tempo) …vivacidade.

Eu disse à ela. Olha, você é uma mulher ‘vivaz’ e ela me deu um sorriso de surpresa e de gratidão e disse que sim, ela era, obrigada.

Deixei a princesa em seu castelo, caminhei um pouquinho e peguei o taxi. O motorista era um filósofo à maneira dos bárbaros e fixou a minha – em sua percepção metafísica – “cara de besta”. Mas que noite, hein, meu? Cara, respondi, você não imagina como foi boa. E a gente não fez nada. A gente riu.

Riu o tempo todo.

Segui na direção de casa sabendo que não podia ir pra casa. Eu precisava de uma mesa do lado de fora de algum lugar debaixo do céu. Foi fácil achar.

Na calçada do bar, uma garota esplêndida se abraçava à uma rapaz muito bonito, mas cheio de hesitações. A mulher dentro da menina estava inteira ali. Cada impulso, cada movimento do corpo, cada toque era muito mais que desejo. Ela o abraçava como quem dança. Mas, estava claro, somente ela ouvia a música.

O cara era jovem, não sabia o que eu penso saber ou a desdenhava. Confesso, senti uma inveja nostálgica e alguma irritação. Quando a garota voltou pra mesa, o camarada foi ao banheiro e parou diante do espelho do lado de fora. Eu não quis saber e o abordei.

─ Boa noite, desculpe chegar assim, eu não sou gay, não leve a mal, mas eu preciso saber: você e aquela moça se conhecem há muito tempo? Porque se vocês se conheceram agora, cara, e ela se entregou assim, o Sol já não tem sentido, a galáxia não tem sentido e o Universo também não.

O rapaz tremeu. Mas – isso me espantou – se mostrou interessado.

─ Como assim?

─ Porque se aquela entrega toda é pela sua aparência, a superficialidade do mundo está além de qualquer descrição.

Ele sorriu se sentindo O Eleito. Foi uma centelha de alegria autêntica. Há muito tempo não via um sorriso assim tão honesto.

─ Sabe o que é? Nós nos conhecemos já faz umas semanas. Mas eu estou saindo de um relacionamento de alguns meses e ela está saindo de um relacionamento de seis anos.

─ Seis anos? Aquela garota?

─ Pois é.

─ É disso que você tem medo? Cara, fica esperto, esses seis anos já desceram pelo ralo. Esses seis anos foram a fantasia dela, algo que toda mulher precisa pra poder crescer. Agora ela cresceu e escolheu você. Ela quer você. Ela decidiu que precisa de você e te abraça como se não houvesse mais ninguém no mundo. O Sol, a galáxia e o Universo estão justificados naquele abraço.

Agora ele parecia emocionado. O garoto tinha coração.

─ Você acha? Te digo, tô aliviado só de ouvir…

─ Eu não acho nada. Eu vi. Agora vai lá e faz aquela mulher feliz. Sem medo. O medo não cabe aqui. Vai com tudo. Vai inteiro também. O amanhã que se foda.

O garoto me abraçou com força, se apresentou formalmente e foi lá, disposto a ser e fazer feliz.

Essa é a ideia. O resto é literatura.

Eu me senti ótimo. A experiência não serve de nada para os outros, muito menos pra quem tem. O que eu partilhei foi a minha… (se prepara que lá vem a palavra, e você não a ouve ou lê há muito tempo) …ousadia. Não a ousadia de Heitor e de Aquiles, de Alexandre ou Saladino. Mas uma ousadia delicada, que poderia estar em nossas vidas como feijão, arroz, bife, batatas-fritas e contas a pagar: ousadia com vivacidade. Que passou da Vontade ao Ato na esperança de que os pulsares, os quasares, os magnetares, as gigantes vermelhas e as anãs brancas se justificassem naquele casal.

O amor é a única verdade.

Pedi a conta. Quando me levantei, ele surgiu ao meu lado e me convidou para conhecer a garota. Era linda demais e ainda não sabia disso – o que lhe caía muito bem. Não sei o que conversaram antes, mas ela me convidou a sentar e eu recusei. Não queria estragar a pureza e não tinha nada mais a dar. A Sabedoria estava naquele casal que ainda não conheceu o Tempo nem a Memória.

Só a verdade.

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MORTO NA ESTANTE

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MORTO NA ESTANTE

Ricardo Labuto Gondim

 

Com a mesma leveza com que passeava pelas ruas de nossa cidade, o Dr. Egídio deixou este mundo. Não foi como costuma ser. A vida não lhe castigou o corpo para que desejasse a morte. O doutor emendou um sono no outro.

Dr. Egídio não era médico, era advogado. Tinha 86 anos e um cachorro. Homero, o labrador contemplativo é que foi adotado pelo médico. O Dr. Egídio foi o homem de letras da pequena Arcádia. Publicava em jornais da capital que não líamos, embora o soubéssemos porque as notícias correm. A cidade inteira o pranteou. Nós o amávamos como a um tio, um avô, mas tivemos que enterrá-lo.

A vida seguiu. Para nós e para o obstinado Dr. Egídio, que passou a assombrar a biblioteca municipal. Foi lá que sepultamos os seus livros e discos que ninguém entendia.

Levamos muito tempo para descobrir o fantasma. Ninguém ia à biblioteca, que antes de ser o orgulho da cidade era uma farmácia. Amaral, o bibliotecário, sempre foi íntimo da garrafa, e quando dizia que encontrava livros abertos nas mesas, ninguém queria acreditar. Até o dia em que o Amaral não aguentou e chamou o padre.

O padre foi o primeiro a correr. O Amaral estava bêbado e tropeçou. Ninguém viu muita coisa, exceto dois livros que se abriram sozinhos. Eles estavam em fileiras, cobrindo as mesas.

O padre, um homem sagaz, entendeu que era caso de chamar o diretor da escola. O professor ficou admirado com o bom gosto do fantasma. Os livros abertos eram a nata. Havia o Hamlet, O Paraíso Perdido e a Divina Comédia. E sentenciou: “Esta é a obra do Dr. Egídio”.

Em cidades pequenas, a novidade pode ser preservada durante anos. Até que venha outra. Dois ou três verões depois, o filho do Juca – o Juquinha – casou com a filha do prefeito sob as bênçãos do padre, da Santa Igreja e de um trinta e oito carregado. Uma tensão horrenda, somente a noiva sorria. Mas a festa foi tão boa que o noivo dançou com a sogra. Durou três dias e todo mundo foi. O caçula, que ainda não tinha nascido e hoje está um rapagão enorme, também foi.

Depois da festa veio a vida, e a vida seguiu. Essa vida besta que a gente leva em cidades pequenas, não queira experimentar. Quem sonha morar no interior nunca morou. E se realiza o sonho, a vontade passa na primeira dor de dentes. O Dr. Egídio já não assombrava, mas não queria ir embora. O Amaral guardava os livros e eles amanheciam abertos. Até que o Amaral parou de guardar, embora o fantasma os trocasse quando ninguém via.

Um dia, o Amaral acordou meio tonto. Tomou café com a família, almoçou com a turma boa do botequim e jantou com São José. Me ofereceram o lugar dele e eu nem pisquei. Saí do banco e vim pra cá.

Preciso confessar que no banco eu não fazia nada. Na biblioteca, menos ainda. Aceitei as sugestões do fantasma e comecei a ler. No início, com dificuldade. Depois, por hábito. Hoje, com alegria. Consegui a verba para a vitrola e toquei os discos. Mais pelos temas das obras do que propriamente por sua beleza, me apaixonei por Liszt.

Convivendo com o fantasma do Dr. Egídio, entendi porque ele não quer ir embora. O Universo inteiro cabe aqui, na Biblioteca Municipal de Arcádia. Entendi também o seu propósito: fechado na estante, o livro está morto; aberto, vivem o autor e quem o lê.

Entendi tudo. E quando morri, fiquei.

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PARADOXO DO ADEUS EM QUBITS

PARADOXO DO ADEUS EM QUBITS

 

Ricardo Labuto Gondim

 

O paradoxo é este conto. Não o escrevi, embora reconheça o estilo e saiba que o texto é meu. Eu o recebi por e-mail, como agora transcrevo.

“O paradoxo é este conto. Não o escrevi, embora reconheça o estilo e saiba que o texto é meu.

“Por favor, não se alarme. Envio o relato do futuro – o seu. Estamos separados no tempo e no espaço, mas somos o mesmo homem. Você sou eu. Velho e à beira da extinção, recebi a dádiva de salvá-lo de um erro terrível. E a mim, do remorso.

“Não sabendo como começar o texto, descobri este conto em um dos infinitos substratos da web; esquecido onde bits e bytes há muito perdidos jazem a deriva como sargaços; explicando tudo o que é preciso na forma que eu – você – teria adotado. Eu o exumei como faria um arqueólogo ou um coveiro.

“Se não o escrevi, você também não o fez. Como posso tê-lo encontrado e reconhecido? Como posso tê-lo enviado do seu futuro? Como então você o receberá em meu passado? A circularidade assombrosa confirma os riscos de interferir no tecido do Tempo. Preciso arriscar. Tenho uma tese e minha dor.

“Você ainda não sonha em casar, mas tem um filho notável e um neto extraordinário. O êxito de duas gerações: um físico. Compreendendo a paixão do avô em deixar a vida consumido de arrependimento, o rapaz postulou enviar esta mensagem em uma garrafa.

“Como você sabe – e eu sei que sabe – computadores quânticos ainda incipientes, fabricados por uma empresa chamada D-Wave estão em operação. A indústria aeroespacial Lockeed Martin instalou o primeiro. O Google instalou o segundo, associando-se a Nasa e a uma corporação acadêmica para instalar o D-Wave Dois.

“No universo quântico existem partículas que viajam no tempo. Meu neto imaginou utilizar os D-Wave como antenas de rádio. Em segredo, as palavras foram arrojadas ao passado em feixes de partículas ordenadas em qubits, o bit quântico. Se funcionar, o código penetrará a desafiadora blindagem das máquinas e será reconhecido. Um dos D-Wave expedirá a mensagem, o remetente será o Google. Espero que não se perca entre spams.

“Gostaria de enviar fórmulas que erradicassem as mazelas que atormentam os Homens. Não me atrevo. Tremo só de pensar nesse jogo de dominós. O que peço é algo egoísta, egocêntrico e excêntrico. Nem por isso desprovido de nobreza ou compaixão.

“Você pensa desprezar Ligia, pois ela o tratou muito mal. Entenda que uma das dificuldades da vida é que cada um de nós tem suas razões. As razões mudam, mas não os fatos. São três anos sem uma palavra. Você já não sente nada por ela, correto?

“Você está enganado. O silêncio é falso. Um modo de calar a dor, de fingir esquecer. A vã tentativa de revogar o passado. Ligia está escrita em seu coração como um nome em uma árvore. Você ainda não aprendeu quanto o amor pode perdurar.

“Desculpe os meus modos bruscos, é mais difícil perdoar a si mesmo do que aos outros. Ligia está morrendo. Não há nada a fazer. Mesmo hoje, em meu tempo, ela estaria perdida. Em dois ou três meses você receberá a notícia de que Ligia quis te rever, não teve coragem de chama-lo e foi sepultada. Para ela, você pode ser frio e distante, o que é absolutamente verdade. Ligia prefere morrer sonhando a ouvir sua recusa.

“Não existe o ‘tarde’, somente o ‘tarde demais’. Essa é a única sabedoria que a velhice concede. Depois que receber a notícia, a glaciação do seu espírito se dissolverá. A culpa que morre comigo nascerá em você.

“Ligia está longe, muito, muito longe. Sei, por experiência, que não haverá meios de descobri-la a tempo. Somente teria sido possível se os D-Wave fossem criados antes.

“Publique este conto na web dizendo

“Ligia, eu te amo.
Leve o meu perdão
e o meu amor
para a Eternidade.
Onde tudo é,
sempre foi
e sempre será.
Onde o Tempo
não existe.

“O adeus chegará até ela, amante dos contos e da fantasia que é. Ela saberá. Não sentirá remorso, nem o deixará como herança. Seremos – Ligia também – absolvidos.

“Meu gesto sutil e ambicioso é impelido por uma esperança muito além da lógica. Eis minha tese: se eu – você – não recordo jamais ter escrito este conto, é porque as palavras ainda vagam à deriva em sua garrafa quântica – mas predestinadas à consumação do gesto. Se você publicá-lo hoje, como eu poderia tê-lo escrito em meus dias? Na iminência de ser alterada, a substância do Tempo transforma a memória.

“Creio que nos lembraremos deste conto para sempre. Como obra de ficção.”

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VÍCIOS PROFISSIONAIS

VÍCIOS PROFISSIONAIS

Ricardo Labuto Gondim

 

Sexta-feira, onze da noite e estou saindo de uma reunião em uma agência de publicidade de Ipanema. Havia escrito o roteiro de uma comédia para uma multinacional. Um gênio do marketing entendeu que a piada final (que sintetizava tudo) embutia uma questão corporativa delicada e deveria ser removida.

Como sempre acontece, isso foi verificado e decidido com o vídeo pronto. E ele seria exibido para uma multidão no dia seguinte.

Resumindo: eram onze da noite e o vídeo teria que ser dublado naquele ponto preciso às oito da manhã. Eu teria que criar “uma piada maravilhosa” no contexto restrito do tema, respeitando rigorosamente o ritmo verbal da piada excluída, ou não haveria sincronização labial.

Acredite, isso é rotina. O que não significa que seja fácil.

Resolvi andar e andei e andei e andei e quando cheguei ao fim de Copacabana a solução veio. Liguei para o dono da bola, o cara riu e aprovou.

Venci o relógio e não desapontei ninguém. Esse é o X da questão. Projetos criativos são relações de confiança. Alguém te paga para resolver um problema porque acha que você é capaz. É por isso que o mercado de comunicação vicia. A satisfação – a LIBERAÇÃO que se segue à solução do problema – supera o alto nível de pressão. É uma vitória decisiva, porque no dia seguinte vai começar tudo de novo. É rotina.

Sensação de paz inefável. Alívio inconversível. Preciso-de-um-gole e preciso agora.

Entrei no bar à minha esquerda. Juro que só percebi que estava cercado por 50 mulheres muito, muito gatas depois que entrei. (Tá bom, estou exagerando. Só 49 eram muito, muito gatas. Tinha uma loirinha mais ou menos, meramente linda.)

E estavam dando mole.

Cara, pensei, essa pequena conquista do Ego passou do coração à face. Homem, você deve estrar cintilando. A sensação de dever cumprido – com estilo – te rejuvenesceu e embelezou (foi em 2009 e eu tinha mais cabelo).

Depois de dez minutos de pesquisa de campo, entendi que vivia algum tipo de milagre imerecido. Cético, virei pra morena mitológica à minha direita:

— Escuta, meu anjo, eu não sou o George Clooney. Me diz o que eu ainda não sei.
— Sabe a Help? Que fechou no mês passado? A gente se espalhou por aí…

A boate Help foi o polo mais ativo do turismo sexual no Rio – e estudei “prostituição” na faculdade de teologia. (É, minha linda, a gente estuda coisas que você nem imagina; cuidado com os teólogos, somos homens fascinantes.)

A prostituição é um vício. Um vício sério, difícil de tratar, inverso ao da satisfação profissional: eu estava feliz porque havia resolvido um problema, não porque havia sido escolhido para resolvê-lo. A prostituta, por razões de sobrevivência e de Ego, vai ao céu quando é escolhida, mas raramente encontra prazer legítimo no trabalho em si.

Não pude deixar de rir e ri muito e a menina riu comigo e a gente começou a conversar e o movimento estava fraco e veio outra menina e mais outra e mais outra e eu contei minhas piadas e ouvi um milhão de histórias de alegria e de tristeza e de beleza e de terror e de angústia e de crime e de fome e de paixão e de morte e de crianças e ganhei uma carona e escrevi esse texto cheio de aposições e este é o vício de dois contistas que eu amo e um deles passou fome e o outro estourou os miolos e nunca me esqueci do que ouvi naquela noite que me tirou da rotina e entendi que rotina é viver sem pensar na Vida.

Que às vezes te atira ao chão com tanta brutalidade que não dá pra levantar sozinho.

E a tragédia, meu amor, é que isso também é rotina.

 

Ricardo Labuto Gondim é teólogo, roteirista e escritor. Autor de Deus no Labirinto (contos) e B (romance policial) publicados pela Editora Baluarte.

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HOJE ACORDEI MUITO CEDO E JÁ VIVI DEMAIS

Ricardo Labuto Gondim

    Minha pressão sobe quando estou sob pressão. E essas pílulas rosadinhas, os anticoncepcionais do infarto e do AVC me diluem. A saída é caminhar de oito a doze quilômetros por dia. Aí o metrônomo volta a marcar doze por oito. O problema é que tinha saído na sexta e me embebedado. Ido ao casamento de um amigo no sábado e me embebedado. O domingo eu passei imantado à cama. Na segunda, medi dezesseis por não-quero-nem-ver, e marchei quatorze quilômetros ouvindo a V de Mahler com Scherchen, pra pegar embalo. Desaguei na pracinha em Cascadura onde Marisa media a pressão por dois reais em uma mesa de armar, debaixo da laje do mercadinho.
    Enquanto Marisa recolhia as borrachas do esfigmomanômetro, dobrei algumas notas, empurrei na caixinha forrada de papel com carneirinhos que lembravam lobos, estiquei a toalha de algodão encardido por hábito, beijei-a no rosto por hábito e desejei boa tarde automaticamente. Ela sorriu:
     – Que isso, garoto. Ainda são onze horas.
    Quando estiver beirando os cinquenta e alguém te chamar de ‘garoto’, ponha-se alerta. Nada é mais ridículo que a ilusão de juventude. Não tropece. Marisa estava muito além dos setenta, era só uma questão de proporção.
     – Pensei que fosse mais tarde — eu disse. — Hoje acordei muito cedo e já vivi demais.
    Ela gargalhou. Tinha uma nota no olhar, uma corda secreta ressoava. Orgulho-me de ler as pessoas, mas não passei além da retina. Vi paixão, saudade e fel no Egito em seus olhos, mas não decifrei a esfinge. Isso me incomodou:
     – A pressão tá alta, né?
     – Nada. Treze por oito. Você só tá meio descompassado.
     – Marisa, eu não resisto, desculpa: que riso foi esse? Que cara é essa?
     – A gente envelhece, não amadurece. Não dá tempo de amadurecer.
     – A gente confunde arrependimento com amadurecimento, concorda?
     – Ô. Era no que eu tava pensando.
    Ela colou as mãos nos lábios e soprou um daqueles beijos que te varrem pra longe. Estiquei até Madureira na ambição do compasso doze por oito, semínima igual a noventa.
    Voltei de trem porque sou suburbano. O Brasil estava inteiro no vagão menos eu. Envelhecendo, me torno invisível. Ninguém me notou na UTI do transporte carioca. Desci na estação do Méier tentando escapar de mim. Ia me arrastando pra casa quando alguém gritou meu nome. Tremi e senti a pressão desandar: Helena.
    Se estivesse escrevendo um romance, em um capítulo não faria jus à beleza daquela mulher. Helena tinha o rosto e um corpo capazes de envergonhar os mármores e bronzes da Europa. Ela era o meu argumento a favor da clonagem humana.
    Não nos víamos há tempos. Ela me abraçou, me festejou, avisou que ia casar dali a meia hora e apontou o cartório a três passos:
     – Eu desci pra recrutar uma testemunha – disse, rachando de rir. – Foi tudo tão estranho. A gente resolveu de repente. Que bom que foi você.
    É. Que sorte a minha.
    Eu estava de short e não podia entrar na sobreloja. Uma senhora muita gorda e entediada surgiu com a calça que alguém perdeu na festa de inauguração do cartório, em algum momento do Período Hadeano:
     – Toma, meu filho. Devolve na saída. Isso de alguém precisar de calça é toda hora.
    “Meu filho”, ela disse. Olhei para a Helena, dois anos mais velha que eu e ainda cintilando:
     – Mulher, você merecia um sequestro.
    Na sobreloja conheci o eleito que se chamava – acredite, eu não minto – ‘Olavo’. De parnasiano não tinha nada. A palavra ‘parnasiano’ não caberia em seu vocabulário. Eu tinha me embebedado duas vezes na mesma semana, caminhado dezesseis quilômetros no calor inclemente de Cascadura e Madureira, vestia uma camisa rajada de linhas brancas de suor e uma placa de Petri sobre o short causando urticária. Ainda assim o camarada me encarou como uma ameaça. Um perigo. Um lobo.
    A antipatia foi mútua e instantânea. Uma mulher insegura tem lá a sua graça e o seu charme. O homem inseguro não tem alternativa, é brutal ou é patético. O Olavo era um babaca insolente que tratava mal o pessoal do cartório. Já percebeu como as pessoas que trabalham em cartórios se confundem com a mobília? Notou como são mecanicamente pacientes ao responderem perguntas? Observou o desespero com que olham para o relógio? Nem todos os títulos e ouro da Terra justificariam o desdém do Olavo contra os que agonizavam no cartório. Se não fosse pelos olhos, cintura, nariz (que nariz), peitos, quadril, boca, as coxas e a bunda parnasiana da Helena…
    Tinha mesmo razões para temer um chifre, o sacana. A Helena estava ali, toda sorriso e fogo, ao alcance dos meus quarenta e oito anos e doze meses de praia. De minha parte, temia um tiro a qualquer momento, o noivo tinha algo de homicida.
    Dane-se. Não faz diferença. A velhice…
    O erro do Olavo foi se concentrar demais no contrato de casamento. Difícil de entender, né, Olavo? Segurei Helena pelo braço, mergulhei dentro dos olhos, varei todas as muralhas do seu Eu e disse com a solenidade que o meu amor mais antigo autorizava:
     – Isso é um erro.
    Ela me encarou como se eu fosse estúpido por ignorar as virtudes do seu amado – que, por razões inexplicáveis, devia considerar ostensivas. Como o olhar persistia, minha imaginação sofreu uma trombose: Olavo é privadamente um poeta que leva o café na cama todas as manhãs; Olavo é um insaciável atleta de alcova; Olavo é um eleito dotado de paciência, sabedoria humanística e de uma anatomia de proporções mitológicas. O que ele tem, afinal? No quesito dinheiro estávamos empatados, era óbvio que nenhum dos dois tinha cobre.
    Então o rosto de Helena desanuviou. Ela me fixou com resignação e uma mistura confusa de alegria e de tristeza. Partiu-me em dois:
     – É claro que é um erro.
    A cerimônia foi um ato jurídico mecânico que eu não vi acontecer. Assinei o livro, parabenizei todo mundo dos dois lados do balcão e desci antes do feliz casal. Fui interceptado à beira da escada pela senhora gorda que cobrou a devolução da calça – como se eu não estivesse doido pra me livrar daquilo antes que contraísse herpes ou coisa pior. Foi durante o strip-tease no cantinho que Helena e seu favorito passaram por mim sem darem por mim.
    Ele alcançou um táxi parado no sinal, mas foi ela quem abriu a porta e entrou puxando-o para si, com desejo e posse, agarrando o pescoço e afundando o rosto em seu peito. Ele apoiou o cotovelo na janela e me viu.
    Não sorriu nem acenou. Cravou-me os olhos imaginando – a expressão era vulgar de tão óbvia – onde, como e quando conhecera Helena, e qual a natureza das nossas relações. Saquei tudo isso enquanto me livrava da maldita calça, agradecia e voltava a ser quase eu.
    Então percebi, o rapaz era – no mínimo – dez anos mais jovem que Helena. Como não reparei antes? Rosto marcado, a vida não tinha valsado com ele. Mas ainda havia certa… Inocência? É isso? Esse ciúme arrogante não é imaturo? Acreditar que o outro é único não é ingênuo? Olavo, meu filho, nem mesmo Helena é digna dessa íntima imolação do Eu.
    A insegurança é contagiosa. Helena inclinou-se para espreitar o que ele olhava com tanto interesse e deu comigo. Uma sombra de vergonha nublou o seu triunfo. O sinal abriu, o táxi se foi e nunca mais a vi.
    Helena, meu amor, a lucidez não vai te poupar de nada. É tudo um grande erro. Mesmo que o rapaz não cresça pra te decifrar, sua loba, você há de murchar como todas as rosas. Como um dia murchou a outra Helena, que se não foi lenda hoje é pó. Não podemos ser salvos. A vida não é mais que um suicídio prolongado. Todos os caminhos do mundo levam à pracinha em Cascadura, à invisibilidade e à inconclusão.
    Entro na farmácia ao lado me julgando sábio, ofegando, pagando o preço por ser sábio e esticando o braço. “Diz pra mim, minha filha: quanto marca o metrônomo? Hã? ‘Esfigmomanômetro’? Que nome bonito. Quanto deu? Ah, garota!”
    Compasso doze por oito. Semínima igual a noventa. Pressão de menino. Bota a V com Scherchen aí que eu vou marchar enquanto posso.
    Olavo, garoto, que você se cuide.

Ricardo Labuto Gondim é teólogo, roteirista e escritor. Autor de Deus no Labirinto (contos) e B (romance policial) publicados pela Editora Baluarte.

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