OUTUBRO – 2013

O BRASIL SERÁ HOMENAGEADO EM OUTRAS TRÊS GRANDES FEIRAS

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Depois de Frankfurt, o Brasil vai ser o homenageado em outras grandes feiras literárias: Paris (2015), Londres (2016) e Nova York (2017). Mas, depois das críticas ao gasto público, dinheiro seu, meu, nosso, de uns R$ 18,9 milhões com Frankfurt, tem gente no governo disposto a fechar a torneira para este tipo de evento

(Fonte: Ancelmo Gois – O Globo)

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VENCEDOR DO PULITZER, ESCRITOR OSCAR HIJUELOS MORRE AOS 62 ANOS

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O escritor Oscar Hijuelos, que ganhou o prêmio Pulitzer pelo best-seller “Os Mambo Kings tocam canções de amor”, morreu aos 62 anos. Hijuelos, que em 1990 se tornou o primeiro escritor de origem cubana a vencer o Pulitzer de ficção, morreu em Manhattan após desmaiar em uma quadra de tênis, segundo a sua esposa, Lisa Marie Carlson.
Oscar Hijuelos não tinha nem cinco anos quando foi, em 1955, visitar Cuba — terra natal de seus pais, que haviam emigrado para os Estados Unidos. Até ali, só falava espanhol em casa. Na volta da viagem, teve uma infecção séria nos rins, que o deixou um ano internado em um hospital de Connecticut, nos EUA. Afastado da convivência diária com os pais, só ouvia o inglês da equipe médica, e ficou fluente no idioma. Mais tarde, Hijuelos atribuiu a esse episódio — médico e linguístico — o primeiro alheamento da língua espanhola e, como consequência, de suas raízes. Em 1990, ele foi o primeiro escritor de origem latina a ganhar o Pulitzer de ficção, por “Os Mambo Kings tocam canções de amor”. Escrevia em língua inglesa.
Nascido em uma ilha bem diferente da de seus pais — a de Manhattan, em 24 de agosto de 1951 —, Hijuelos dizia ser muito mais americano que cubano. Seu premiado livro foi adaptado para o cinema. “Os reis do mambo”, com Armand Assante e Antonio Banderas, baseado no livro ganhador do Pulitzer, foi lançado em 1992.
Os últimos romances de Oscar Hijuelos mantinham a mesma temática. “Beautiful Maria of my soul” (2010), retoma a história da mulher que partiu o coração de Nestor em “Mambo kings”. O anterior, “A simple Habana melody”, conta a história de um imigrante que volta a Cuba, depois de ser perseguido pelos nazistas na Europa. Prova que, apesar daquele ano no hospital, nunca se desligou totalmente de suas raízes. “Cheguei a um ponto de, ao ouvir o espanhol, sentir meu coração se aquecer”, disse, em uma entrevista. Com a literatura, dizia o autor, apesar da perda de sua primeira língua, ele havia “finalmente voltado para casa”.

(Fonte: O Globo)

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UM SARNEY PARA ALEMÃO NÃO LER

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A editora Königshausen & Neumann resolveu não distribuir “Saraminda”, do ex-presidente José Sarney, depois que o consulado do Brasil em Frankfurt deixou de cumprir sua parte do contrato, de comprar 500 exemplares da obra. Beneficiado pelo programa de traduções da Biblioteca Nacional, que, segundo seu coordenador, Fabio Lima, investe em média US$ 8 mil em cada tradução, “Saraminda” tinha lançamento previsto na Feira do Livro de Frankfurt, encerrada ontem.
— Assumo o prejuízo de ter uma publicação para ninguém ler, mas prefiro desistir porque me senti iludido pelo consulado — disse ao GLOBO o editor Thomas Neumann, que admitiu a possibilidade de destruir os volumes já impressos.
Até ontem, Fabio Lima não havia tomado conhecimento da suspensão do projeto. A BN disse que espera a confirmação da decisão para tentar receber de volta a verba já transferida. O tradutor Markus Sahr recebeu os seus honorários diretamente do editor alemão.
Coproprietário da editora especializada em livros científicos, principalmente de filosofia, Neumann explicou que só incluiu no seu catálogo um livro de ficção, ainda mais de um autor “conhecido como político, mas não como escritor, pelo menos na Europa”, por insistência do consulado, na época (e até março deste ano) chefiado por Cezar Amaral. O financiamento da BN só é possível quando uma editora estrangeira solicita a bolsa de tradução e se compromete a publicar a obra. O consulado, através da então chefe do setor cultural, Rita Rios Bonfim, convenceu Thomas Neumann a editar “Saraminda”.
— Aceitei porque o consulado garantiu comprar um número determinado de exemplares e, confesso, porque não sabia direito quem era Sarney. Hoje sei que o meu erro foi grande. Depois de ler muito sobre ele na internet, sobre seu papel em governos passados, fiquei com a impressão de que é uma espécie de Berlusconi do Brasil — disse o editor.
Presentes oficiais
Desde junho no posto, o cônsul Marcelo Jardim reagiu com surpresa à informação de promessa de compra, dizendo que “a história é contraditória”.
— O consulado não tem biblioteca, e por que compraria livros?
Além de ficar irritado pelo não cumprimento do contrato, Neumann passou a temer colar à sua editora uma imagem negativa ao publicar um livro cuja tradução fora promovida por critérios de amizade e de “influência de poderosos”.
De Rita, sua interlocutora no processo, ele recebeu a informação de que os livros seriam usados como presentes oficiais do consulado. Na negociação do livro de Sarney, Rita conseguiu “vender” também o seu próprio livro “Poemas e pedras — a relação entre poesia e arquitetura partindo de Rodin e Rilke”. O ensaio recebeu a bolsa da BN e está na agenda da Königshausen & Neumann para lançamento em 2014.
“Saraminda” foi lançado no Brasil no ano 2000 e já foi traduzido para o romeno, espanhol, francês e húngaro.

(Fonte: O Globo)

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NO ENCERRAMENTO DE FRANKFURT, PAULO LINS APOIA PROFESSORES EM GREVE

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A participação do Brasil como convidado de honra da Feira do Livro de Frankfurt terminou com o mesmo tom político da abertura, quando Luiz Ruffato fez um discurso sobre mazelas do país. Na cerimônia de passagem do bastão para a Finlândia, homenageada de 2014, o escritor Paulo Lins, representante da delegação nacional no evento, quebrou o protocolo ao ler uma declaração que começava manifestando apoio à greve dos profissionais da educação no Rio de Janeiro:
– Um saravá aos professores do Rio! – disse Lins, que no início da semana redigiu, com João Paulo Cuenca e Luiz Ruffato, um manifesto assinado por cerca de 40 autores da delegação brasileira em apoio aos professores e contra a violência policial.
Na sequência, o autor de “Cidade de Deus” voltou a rebater acusações de racismo na escolha dos autores que vieram a Frankfurt. Único negro da delegação, ele disse que essa não é uma falha de curadoria e sim um reflexo de que “o Brasil é um país racista, assim como muitos da Europa”. Lins também endossou o discurso de Ruffato, que foi criticado por autores da delegação, como Ziraldo, e chegou a ser ameaçado por brasileiros na feira.
– Faço minhas as palavras do Ruffato. Foi uma declaração de amor, uma fala de esperança sobre o Brasil. Nossos problemas têm que ser encarados de frente – disse Lins, que ainda ironizou o discurso de Michel Temer na cerimônia de abertura, quando o vice-presidente falou sobre os próprios poemas e foi vaiado. – A poesia é coisa seria, não se dá a qualquer um.
Lins participou da primeira parte da cerimônia de passagem do bastão ao lado da escritora finlandesa Rosa Liksom. Ele falou sobre a presença da violência e da cultura negra em seu novo romance, “Desde que o samba é samba”, recém-traduzido na Alemanha.
– O samba não é só arte, é uma arma de guerra. Ele e a umbanda foram cultivados por netos de escravos e, como toda a cultura negra, foram perseguidos. Quando falo do samba, falo também de intolerância, violência e racismo – disse Lins, que encerrou sua participação lendo um poema que publicou aos 20 anos.
Na segunda parte da cerimônia, o presidente da Feira de Frankfurt, Juergen Boos, elogiou o tom político da presença brasileira no evento:
– Nos últimos dias, tivemos uma amostra da força da literatura, seu poder destruidor e criador. Foram destruídos muitos clichês sobre o Brasil, que se mostrou como um país angustiado consigo próprio, mas que segue em frente movido pela criatividade – disse Boos, afirmando que a Finlândia terá o grande desafio de “levar adiante essa demonstração de relevância da literatura”.
O presidente da Fundação Biblioteca Nacional, Renato Lessa, entregou à representante finlandesa um bastão simbólico, contendo um texto brasileiro e um finlandês. O brasileiro era uma colagem de fragmentos de autores como Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Hilda Hilst, Guimarães Rosa e Oswald de Andrade, entre outros.

(Fonte: O Globo)

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‘Meu objetivo era propor uma reflexão’, diz Ruffato

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O escritor Luiz Ruffato disse que não se arrepende do discurso com o qual abriu a edição deste ano da Feira de Frankfurt. Em sua fala, o autor de Eles Eram Muitos Cavalosdescreveu o Brasil como a terra da desigualdade e da impunidade. Seus comentários acabaram monopolizando os debates ao longo da feira e provocaram reações de colegas escritores presentes ao evento. “Eu não mudaria absolutamente nada, inclusive porque o que coloco não é a verdade. Meu discurso é a oferta de uma reflexão”, diz o escritor na entrevista a seguir.
O que achou da reação ao seu discurso?
Sabia que haveria reação porque era um discurso que tentava discutir um país que a gente não gosta de discutir. Discutimos essas questões em botequim, mas não publicamente. Há dez anos falo isso, os meus livros tratam dessa realidade. Como fui convidado para abrir a Feira de Frankfurt, que é uma feira de livros, onde se discute livros, portanto, onde circulam ideias, achei que era o meu dever trazer essa discussão pra cá. A maior parte das reações, me parece, é favorável à minha intervenção e, de alguma maneira, ela iniciou um debate. E, claro, houve reações extremamente ofensivas, inclusive de pessoas que eu nunca imaginei que pudessem ter essa atitude, mas eu respeito e acho que demonstra um pouco como se está tentando polarizar essas discussões.
Houve alguma reação direta e pessoal a você, alguma agressão?
A internet está cheia de agressões dos mais baixos níveis, inclusive de colegas escritores, o que acho inacreditável. O que houve de verdade foi um certo constrangimento na hora do café da manhã de alguns colegas, que preferiam fingir que eu não estava ali, e alguns brasileiros que estão aqui na feira tentaram me agredir.
Os escritores brasileiros deram sua opinião sobre o discurso diretamente a você?
Pouco tive contato com eles por causa de compromissos, mas quem se aproximou de mim foi para apoiar. E aqueles que não chegaram, evidentemente, também encontram nisso uma forma de se manifestar.
A ministra Marta Suplicy disse à imprensa que sentiu falta de um Brasil mais mágico e literário no discurso.
O país mágico e literário está nos meus livros. Se alguém ler os meus livros vai perceber que a literatura está presente ali. Eu não estava falando como um escritor. Eu estava falando sobre um escritor que também é cidadão. E como cidadão, para mim, a literatura é uma representação da sociedade. Portanto, não falei absolutamente nada do que está nos meus livros. É literatura, é magia, mas de uma outra maneira.
O convite para fazer a abertura surgiu da feira ou do comitê organizador brasileiro?
Recebi o convite da curadoria brasileira. Se alguém sugeriu meu nome ou se foi decisão da própria curadoria, eu não sei. O convite oficial foi feito a mim por Antonio Martinelli.
Essa surpresa que seu discurso despertou pode ser um indício de que se conhece pouco sobre a obra de um autor? O presidente da Feira de Frankfurt disse ontem que já tinha lido seus livros, que por isso o discurso não o surpreendeu e que a indicação de seu nome não teria sido por acaso.
Eles Eram Muito Cavalos está na 10.ª edição no Brasil, e isso deve significar alguma coisa. E os outros livros também têm alguma visibilidade. Acho que a curadoria me escolheu porque eu era eu.
Essas críticas te atingem pessoalmente? Você vai embora chateado com a situação?
O embate de ideias, não. Ele é extremamente saudável. Meu discurso não é a verdade. Eu não sou a verdade. Simplesmente há algumas questões que eu coloco. Mas fico chateado sim porque algumas pessoas não têm respeito pela divergência e não querem levar o debate para o nível intelectual.
Acompanhando o que foi escrito e dito após o discurso e ponderando, mudaria alguma coisa hoje?
Estou escrevendo esse texto há muito tempo, eu o submeti a alguns amigos para discutirmos algumas questões específicas. Uma pessoa que conhece profundamente as estatísticas me ajudou muito. Eu não mudaria absolutamente nada, inclusive porque, como eu disse, isso não é a verdade. Isso é a oferta de uma reflexão. Evidentemente que se esse debate se mantiver e se esse debate for construído de uma maneira intelectual, se eu for confrontado, e se as pessoas que me confrontarem me mostrarem que estou errado em vários ou todos os pontos, eu posso mudar. Mas até o momento, o que eu disse é o que eu penso e não haveria nada a ser modificado nesse momento.
Você fica ainda algum tempo na Alemanha. Imagina, e espera, que o assunto ainda estará quente na volta?
Meu desejo era que esse fosse apenas o início de um grande debate a respeito da nossa autoimagem, mas não sei. As críticas ofensivas que existem na internet, aí sim meu desejo é que elas passem. O debate, público, me interessa.
Como escritor profissional, que participa de muitos eventos literários, tem medo de represálias ou acredita que a polêmica pode ajudá-lo?
Não sei. Vivemos num país muito complicado. Sinceramente, espero que não. Desejo que as pessoas que detenham algum tipo de poder no Brasil percebam que o que proponho é um debate bom. Como eu disse, não é uma verdade. Então, é bom que a gente debata até para provarem que estou equivocado. Mas eu não tenho certeza de que isso vai acontecer. Do ponto de vista profissional, isso não me ajuda em nada.
Que balanço você faz dessa edição da feira?
Foi ótimo porque o discurso politizou os debates. Em quase todas as mesas, foram discutidas questões importantes para o Brasil. Mesmo nas mesas que não eram brasileiras essa questão foi levantada e discutida. Discutiu-se muito. O que deveria ter sido feito foi feito e acho que cumpri o papel que era esperado, que era o de colocar uma plataforma nova de discussão a respeito da literatura brasileira no exterior e da imagem do Brasil no exterior.

(Fonte: Estadão)

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REMUNERAÇÃO DIVIDE MÚSICOS E BIÓGRAFOS

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A discussão sobre a forma de se produzir biografias de pessoas conhecidas continua dividindo a classe artística. Ontem, em sua coluna no jornal O Globo, o cantor e compositor Caetano Veloso negou que tomasse a atitude de um censor ao defender o controle sobre as biografias. “Censor, eu? Nem morta!”
Ele também afirmou ser a favor de biografias não autorizadas de figuras como José Sarney ou Roberto Marinho. Mas cita “o sofrimento de Gloria Perez” e o “perigo de proliferação de escândalos” como justificativas para uma atenção maior ao direito de privacidade”. “No cabo de guerra entre a liberdade de expressão e o direito à privacidade, muito cuidado é pouco”, continuou.
A cisão entre os músicos (unidos no grupo Procure Saber), que defendem a autorização prévia para biografias, e os biógrafos, especialmente os mais respeitados, aumenta cada vez mais. Até o final da tarde de ontem, nenhum deles havia comentado a reação de Caetano, mas continuam as manifestações.
O aspecto financeiro tornou-se premente. “Os artistas do Procure Saber alegam que os biógrafos brasileiros ganham muito dinheiro com suas obras e que os biografados deveriam participar dos lucros. Suspeito, aliás, que esse seja, de fato, o principal objetivo do grupo”, comentou, em seu blog, Laurentino Gomes.
“Os compositores (…) não nutrem o hábito de pagar aos personagens que inspiram suas composições. Não têm mesmo que os remunerar, porque as pessoas não dividiram o trabalho de criação”, observou, em seu blog, Mario Magalhães, autor de Marighella. “O criador é remunerado, não o objeto que o inspira. Abstenho-me de enumerar uma relação infinda de músicas célebres inspiradas em pessoas de carne e osso.”

(Fonte: Estadão)

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CAETANO VELOSO – CENSOR, EU? NEM MORTA!

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Tenho um coração libertário. Sou o típico coroa que foi jovem nos anos 60. Recebi anteontem o e-mail de um cara de quem gosto muito — e que é jornalista — com proposta de entrevista por escrito sobre a questão das biografias. Para refrescar minha memória, ele anexou um trecho de fala minha em 2007. Ali eu me coloco claramente contra a exigência de autorização prévia por parte de biografados. E pergunto: “Vão queimar os livros?” Achei aquilo minha cara. Todos que me conhecem sabem que essa é minha tendência. Na casa de Gil, ao fim de uma reunião com a turma da classe, eu disse, faz poucos meses, que “quem está na chuva é para se molhar” e “biografias não podem ser todas chapa-branca”. Então por que me somo a meus colegas mais cautelosos da associação Procure Saber, que submetem a liberação das obras biográficas à autorização dos biografados?
Mudei muito pouco nesse meio-tempo. Mas as pequenas mudanças podem ter resultados gritantes. Aprendi, em conversas com amigos compositores, que, no cabo de guerra entre a liberdade de expressão e o direito à privacidade, muito cuidado é pouco. E que, se queremos que o Brasil avance nessa área, o simplismo não nos ajudará. O modo como a imprensa tem tratado o tema é despropositado. De repente, Chico, Milton, Djavan, Gil, Erasmo e eu somos chamados de censores porque nos aproximamos da posição de Roberto Carlos, querendo responder ao movimento liderado pela Anel (Associação Nacional dos Editores de Livros), que criou uma Adin (ação direta de inconstitucionalidade) contra os artigos 20 e 21 do Código Civil, que protegem a intimidade de figuras públicas. Repórter da “Folha” cita trechos de algo dito por Paula Lavigne em outro contexto para responder a sua carta de leitor. Logo a “Folha”, que processou, por parodiá-la, o blog Falha de S.Paulo.
A sede com que os jornais foram ao pote terminou dando ao leitor a impressão de que meus colegas e eu desencadeamos uma ação, quando o que aconteceu foi que nos vimos no meio de uma ação deflagrada por editoras, à qual vimos que precisávamos responder com, no mínimo, um apelo à discussão. Censor, eu? Nem morta! Na verdade a avalanche de pitos, reprimendas e agressões só me estimula a combatividade.
Tenho dito a meus amigos que os autores de biografias não podem ser desrespeitados em seus direitos de informar e enriquecer a imagem que podemos ter da nossa sociedade. Pesquisam, trabalham e ganham bem menos do que nós (mas não nos esqueçamos das possibilidades do audiovisual). Não me sinto atraído pelo excesso de zelo com a vida privada e muito menos pela ideia de meus descendentes ficarem com a tarefa de manter meu nome “limpo”. Isso lhes oferece uma motivação de segunda classe para suas vidas. Também neguinho pode vir a ter um neto que seja muito careta e queira fazer dele o burguês respeitável que ele não foi nem quis ser. Mas diante dos editoriais candentes, das palavras pesadas e, sobretudo, das grosserias dirigidas a Paula Lavigne, minha empresária, ex-mulher e mãe de dois dos meus três filhos maravilhosos, tendo a ressaltar o que meu mestre Jorge Mautner sintetizou tão bem nos versos “Liberdade é bonita mas não é infinita /Me acredite: liberdade é a consciência do limite”. Mautner é pelo extremo zelo com a intimidade.
Autores americanos foram convocados para repisar a ferida do sub-vira-lata. Nada mais útil à campanha. (Americanos são vira-latas mas têm uma história revolucionária com a qual não nos demos o direito de competir.) Sou sim a favor de podermos ter biografias não autorizadas de Sarney ou Roberto Marinho. Mas as delicadezas do sofrimento de Gloria Perez e o perigo de proliferação de escândalos são tópicos sobre os quais o leitor deve refletir. A atitude de Roberto foi útil para nos trazer até aqui: creio que os termos do Código Civil merecem ser mudados, mas entre a chapa-branca e o risco marrom devem valer considerações como as de Francisco Bosco. Ex-roqueiros bolsonaros e matérias do GLOBO tipo olha-os-baderneiros para esconder a força que a luta dos professores ganhou na cidade me tiram a vontade de crer em opções fora da esquerda entalada. Me empobrecem. Ficaremos todos mais ricos se virmos que o direito à intimidade deve complicar o de livre expressão. E se avançarmos sem barretadas aos americanos. Ouve-se aqui minha voz individual. Quiçá perguntem: ué, os jornais deram espaço, pediram entrevistas: Tá chiando de quê? Pois é. Meu ritmo. Roberto, Chico, Milton e os outros estão mais firmes: nunca defenderam nada diferente. Esperei o Procure Saber buscar seu timbre, olhei em volta e deixei pra falar aqui.

(Fonte: O Globo)

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FAMILIARES BARRAM BIOGRAFIA DE PAULO LEMINSKI

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Paulo Leminski

Viúva de Leminski e suas filha querem impedir a publicação da quarta edição do livro
Esgotada nas livrarias, a biografia do poeta curitibano Paulo Leminski (1944-1989), de autoria do escritor Toninho Vaz, não poderá ser publicada novamente.
A poeta e viúva de Leminski, Alice Ruiz, e suas filhas, Estrela e Aurea, querem impedir a publicação da quarta edição do livro “Paulo Leminski – O Bandido que Sabia Latim” (ed. Record, 378 págs.)
O livro, publicado pela primeira vez em 2001, foi autorizado por Alice. A viúva não teve participação nos direitos autorais da obra.
Para a produção da obra, Vaz afirma ter feito pesquisas durante um ano e realizado 81 entrevistas. A redação da biografia, que seria publicada desta vez pela editora Nossa Cultura, de Curitiba, sofreria apenas uma modificação nesta edição: um parágrafo com o relato de um morador da pensão onde Pedro, irmão de Leminski, morava. Foi o vizinho de quarto de Pedro quem encontrou seu corpo quando ele se suicidou, em 1986.
As três familiares de Leminski enviaram à editora uma correspondência informando que não autorizavam a publicação da nova edição por causa do enfoque “depreciativo à imagem do retratado e seus familiares”. Quando recebeu a carta, a editora cancelou a publicação.
Vaz planejava entrar ontem com uma interpelação judicial no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, pedindo esclarecimentos à família. Quer saber o que é depreciativo na obra. O autor, segundo afirmou, deverá entrar também com uma ação por danos morais e materiais.
As filhas do poeta afirmam que barraram a publicação por causa do novo trecho. Hoje, no Facebook, Estrela questionou: “Qual é a relevância de detalhes sórdidos do suicídio para uma biografia dele? Que relevância tem para a obra? Ou seria para dar um molho e vender mais?”.
“Pedro foi muito importante para a história do Paulo, ensinou o irmão a tocar violão”, diz Vaz. “Não é sensacionalismo. A morte do Pedro foi uma tristeza para mim.” “Se quiserem, tiro esse novo trecho. Mas é vil ter que tirar. É censura”, afirma Vaz.
O conflito entre as herdeiras e o biógrafo, que era amigo do poeta, é mais um capítulo no debate sobre a publicação de biografias, que esquentou com o apoio de músicos como Caetano Veloso à exigência de autorização prévia para a publicação.

(Fonte: Correio da Bahia)

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IMPEDIR BIOGRAFIA É CENSURA, DIZ RUY CASTRO

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Ruy Castro

Escritores encontraram-se com a ministra da Cultura, Marta Suplicy

As discussões entre artistas da música e da literatura sobre como regular a publicação de biografias de pessoas conhecidas ganhou um novo round. Em um encontro em que participou sozinho (Fernando Morais avisou, no início da semana, que não iria à Feira de Frankfurt), Ruy Castro manteve o tom acusatório levantado por Laurentino Gomes, na quarta-feira. “Os artistas da música propõem censura prévia. Se não for isso, já não entendo mais a língua portuguesa”, ironizou ele, em conversa com o mediador e poeta Heitor Ferraz Mello, no pavilhão brasileiro.
Autor de biografias clássicas, como Chega de Saudade: A História e as Histórias da Bossa Nova (1990) e Estrela Solitária – Um Brasileiro Chamado Garrincha (1995), Ruy Castro definiu como seria o trabalho de um biógrafo segundo a vontade dos artistas da música: o interessado faz uma pesquisa detalhada, que deve consumir anos de trabalho; em seguida, escreve e, depois que julgar o texto finalizado, submete-o ao biografado. Este deve repassá-lo para um advogado, que, se encontrar algo desabonador, tem o poder de impedir a publicação. “E o biógrafo fica sem ganhar um tostão, mesmo com anos de trabalho realizado.”
O alvo de suas críticas é o grupo denominado Procure Saber, formado por Caetano Veloso, Chico Buarque de Holanda, Gilberto Gil, Djavan e Roberto Carlos, entre outros, e que faz lobby contra biografias não autorizadas temendo ser alvo de trabalhos caluniosos. Na edição de ontem do Caderno 2, a empresária Paula Lavigne, que gerencia a carreira de Caetano e também responde pelo grupo, disse que os biógrafos é que estão agindo de forma antidemocrática e ditatorial. “É mentira que nós estamos querendo censurar ou proibir alguma coisa, nós só queremos discutir como vamos proteger nossa privacidade”, disse.
Ruy Castro, no entanto, sustenta que se trata de uma campanha antidemocrática e que vai atingir diretamente não apenas os biógrafos, mas também documentaristas e ensaístas. “As próximas gerações correm o risco de não conhecerem detalhes da vida e trajetória de importantes personagens da nossa história por conta do receio desses profissionais, que não pretendem se arriscar em projetos que correm o risco de não acontecer”, disse. “Podemos ter lacunas porque Roberto Carlos não quer que se fale de sua perna mecânica.”
Ele elencou exemplos que considera absurdos: “Recentemente, um artigo sobre um assunto qualquer trazia uma citação de Roberto Drummond como epígrafe. Somente uma citação para ilustrar o texto. Pois a viúva do escritor exigiu que se tirasse a frase do marido por não concordar com sua utilização”.
Alguns herdeiros, aliás, costumam dificultar acesso à vida de seus familiares, como acontece, enumera Castro, com os sobrinhos do poeta Manuel Bandeira e a filha do romancista Guimarães Rosa.
Ruy Castro relembrou o recente encontro que os escritores que representam o País na Alemanha tiveram com a ministra da Cultura, Marta Suplicy. Segundo ele, ela ficou feliz por conhecer o posicionamento dos biógrafos – até o momento, Marta só se informara sobre as reivindicações dos músicos. “Ela comentou que achava justa uma consideração deles sobre o recebimento de uma parte dos lucros gerados pela venda das biografias – como se vendêssemos milhões de cópias e fossemos milionários”, ironizou Castro. “Decidi falar e comentei que, com isso, teríamos de pagar dízimo aos músicos. O que é absurdo.”

(Fonte: Estadão)

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VARGAS LLOSA EXIBE A DIFÍCIL LUTA CONTRA A CORRUPÇÃO

El héroe discreto Mario Vargas Llosa

Em ‘O Herói Discreto’, autor defende a existência de homens honrados

Aos 77 anos, o escritor peruano Mario Vargas Llosa ainda acredita em heróis. Não os que usam capas e cuecas sobre as calças, voando e caçando bandidos, mas um outro tipo, pode-se dizer quase improvável: aquele que, mesmo vivendo entre mafiosos ameaçadores, governos corruptos e familiares gananciosos, mantém uma integridade inabalável. “Gosto do sujeito comum, autêntico, invisível na sociedade, mas vital para a sua boa manutenção”, diz ele, que elegeu um homem com esse perfil para protagonizar O Herói Discreto, seu mais recente romance, lançado agora pela Alfaguara.
Trata-se de uma agradável surpresa – depois de conquistar o Nobel de Literatura em 2010, Llosa lançou um livro notadamente triste, O Sonho do Celta, e, em seguida, um conjunto de ensaios, A Civilização do Espetáculo>, em que duramente critica a banalização das artes e da literatura, o triunfo do jornalismo sensacionalista e a frivolidade da política, Llosa – que conversou com o Estado, por telefone, desde Nova York, na quinta-feira – volta-se para um tema mais solar e otimista.
Agora, seu herói discreto chama-se Felícito Yanaqué. Proprietário de uma empresa de transportes em Piura, no norte peruano, ele é surpreendido, certo dia, por uma chantagem: uma carta anônima, presa à porta de sua casa, informa que sua família e sua empresa continuarão em paz desde que ele aceite fazer um pagamento mensal. O texto não é assinado e termina com o desenho de uma aranha. Para piorar, seus amigos empresários que também foram alertados, temerosos, acatam a extorsão para manter a tranquilidade.
Fiel à recomendação deixada pelo pai (“Nunca se deixe pisar por ninguém, filho. Este conselho é a única herança que posso lhe deixar”), Yanaqué decide enfrentar o inimigo invisível, mesmo colocando em perigo o trabalho, os amigos e os familiares. É o início de uma epopeia em que Llosa volta a situar o Peru como cenário de uma história, agora acompanhando o embate entre vilania e integridade.
Volta-se também para personagens que já marcaram sua obra, como Lituma e Don Rigoberto, que não apenas complementam a trama como também promovem um jogo de contrastes. “Acredito que O Herói Discreto seja a obra mais otimista que já escrevi”, comentou Llosa, agora preparando uma peça de teatro.
No livro, ele volta a usar o Peru como cenário
Na quinta-feira, quando Mario Vargas Llosa conversou com o Estado, foi anunciado o prêmio Nobel de Literatura para a canadense Alice Munro. “Uma ótima escolha, especialmente para engrossar a lista de mulheres premiadas, ainda muito pequena”, comentou ele. O detalhe revela uma preocupação presente também em sua obra.
Em O Herói Discreto, o empresário Felícito Yanaqué é casado, tem uma amante, mas a mulher mais importante de sua vida é Adelaida, dona de uma loja de plantas e vidente nas horas vagas, a quem Felícito recorre sempre que tem de tomar uma decisão importante – especialmente no momento em que decide enfrentar os chantagistas, ao contrário dos amigos que cederam à extorsão por conta do medo.
Em paralelo à história de Yanaqué, Llosa mostra o drama de Ismael Carrera – viúvo, dono de uma companhia de seguros, ele decide se aposentar precocemente. E, ao perceber que os filhos gananciosos querem apenas seu dinheiro, Carrera se casa secretamente com uma jovem que trabalhou como empregada na casa da família, a fim de afastar os descendentes da herança.
São duas histórias aparentemente inconciliáveis que, depois de muitas voltas, irão convergir para um destino partilhado. E permitem que Llosa retorne não apenas ao seu país, agora transformado, como recupere ainda personagens de outros romances, como comenta na seguinte entrevista.

O que o motivou a retomar antigos personagens como Lituma e Don Rigoberto, além de evocar paisagens de outra obra sua, A Casa Verde?
Há algo misterioso com os personagens de meus livros. Muitos, depois de encerrada a história, terminam também seu ciclo. Mas há outros que não desaparecem, continuam em minha memória e, sempre que vou iniciar uma nova história, reaparecem, exibindo uma certa urgência, um potencial a ser aproveitado. Não sei dizer porque ocorre com alguns e não com todos. Lituma, por exemplo, sempre foi um personagem secundário, mas está presente desde meus primeiros escritos. Quando comecei essa novela, pretendia escrever apenas sobre a cidade de Piura. E, em outro texto, retomaria aqueles personagens. Mas, como já aconteceu antes, senti a tentação de unir as duas histórias em uma só. É curioso porque, sempre quando escrevo uma trama, sinto a necessidade de ampliá-la, acrescentando especialmente mais humor. Acho inevitável mostrar personagens movendo-se em um fundo social numeroso. E isso se encaixa bem na sociedade peruana.
Aliás, o Peru retratado neste romance é diferente, mais moderno. Também seu personagem principal, Felícito Yanaqué, é um homem mais otimista que outros criados em sua literatura.
É verdade, ele é um homem otimista. Sabe, o Peru mudou muito, nos últimos anos. Costumo passar ao menos três meses por ano em meu país e, ao viajar pelo interior, percebo uma grande transformação social e econômica que vem acontecendo desde o ano 2000, quando caiu a ditadura. E, além de governos democráticos, percebi algo raro na história peruana: uma economia aberta, dinâmica, progressista. Isso permitiu um desenvolvimento social, com ascensão da classe média, e um progresso visível nas cidades. Deixou de ser comum a existência de cidades como Piura. Então, decidi escrever uma história sobre um país bem distinto. Claro que surgiram novos problemas, como a delinquência, que é fruto do desenvolvimento, máfias…
E a corrupção, já apontada pelo senhor como um grande mal moderno.
Sim, é o problema maior do nosso tempo, algo que infesta tanto países desenvolvidos como os que ainda não são. Grande parte da crise vivida ainda hoje pela Europa e Estados Unidos nasceu da corrupção provocada pelo apetite de lucro de empresas e bancos, que chegaram a transgredir as leis. Na América Latina, o grande problema foi o crescimento do narcotráfico, que criou máfias economicamente poderosas. Pretendi retratar esse momento no romance. E o que me mais chama atenção, algo que se passa também em outros países, é o surgimento de empresários vindos de uma origem humilde – diferente daqueles do passado, que herdavam fortunas. Daí meu personagem Felícito Yanaqué ser um pequeno empresário fiel a seus princípios.
O romance é crítico com o sensacionalismo de jornais e canais de TV. O senhor acredita que esse tipo de imprensa seja capaz de contaminar as instituições?
Creio que sim. Escrevi um ensaio sobre isso, A Civilização do Espetáculo. E o pior é que esse problema contamina até mesmo países cuja imprensa foi cultivada pelo rigor – é o caso da Inglaterra, que tem os jornais mais escandalosos do mundo (graças, em parte, ao senhor Rupert Murdoch). A informação desgraçadamente se transformou em uma forma de entretenimento. O jornalismo escandaloso que se nutre de polêmicas e frivolidade vem ocupando muito espaço, inclusive entre a imprensa mais séria, por conta de uma parcela de seus leitores que quer se entreter com essas informações marrons. O saldo negativo é a descaracterização da informação e o fomento da frivolidade, que culmina com o desrespeito generalizado entre as pessoas. E isso não se resolve com leis ou decretos, pois é um fator cultural.
Daí a força da literatura (em especial, da ficção) ao criar um pensamento crítico em seu leitor, não?
Com certeza. Tradicionalmente, a literatura exerce uma função crítica, conseguindo, algumas vezes, antecipar-se aos políticos e ideólogos ao apontar os problemas. Por isso, a boa literatura mantém viva a consciência crítica de uma sociedade.
O Herói Discreto exibe os chamados grandes temas ‘vargasllosianos’, ou seja, a luta das pessoas para viver de acordo com suas convicções e também a exploração dos dilemas humanos. E isso é feito a partir de uma certa necessidade de entrelaçar várias histórias, transformando a trama em um pequeno labirinto. É mais difícil escrever bem?
De forma alguma, porque sempre me interessei por aquelas figuras tímidas, quase desconhecidas, que não ficarão na história, mas cuja honestidade e hombridade formam a grande reserva moral de uma sociedade. Elas são imprescindíveis, são os chamados heróis discretos.
Outra de suas características, o humor, está de volta em grande estilo, não?
Os críticos espanhóis destacaram que essa história é maior e mais bem-humorada que muitos de meus romances anteriores. Concordo e não sei dizer se é graças a uma serenidade provocada pela consolidação democrática e econômica dos países latinos ou porque simplesmente estou mais velho. O fato é que O Herói Discreto flui mais tranquilamente, com menos solavancos. E a escrita agora foi menos traumática e mais serena que nos livros anteriores.
E o senhor já vem trabalhando em novos projetos?
Sim, um projeto teatral. Vai se chamar Os Contos da Peste, inspirado em Decamerão, os contos de Boccaccio (1313-1375). Ele viveu em Florença quando a Peste Negra devastou a Europa. Seus contos mostram o drama horrível vivido por jovens daquela época que, obrigados a ficar na cidade por conta da quarentena, se refugiam em uma casa que pertencia a Boccaccio e lá passam a contar histórias. Ou seja, descobrem que o imaginário e a fantasia são suas únicas válvulas de escape. Essa situação sempre me fascinou: uma espécie de cárcere privado cuja liberdade se personifica unicamente graças à imaginação, à literatura. Creio ser um fato muito dramático, portanto, teatral.

O HERÓI DISCRETO
Autor: Mario Vargas Llosa
Tradução: Ari Roitman e Paulina Wacht
Editora: Alfaguara (344 págs., R$ 39,90)

(Fonte: Estadão)

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